Contexto

Especialista afirma: em casos como o de Saudades-SC, armas de fogo são risco ainda maior

Militantes favoráveis ao porte de armas de fogo utilizaram a tragédia no interior de Santa Catarina como exemplo. Mas, na avaliação de um especialista em segurança pública, uma pessoa armada no local poderia tornar a situação ainda pior

Um jovem de 18 anos invadiu, nesta terça-feira (04/05), uma creche na cidade de Saudades, no interior de Santa Catarina, armado com um facão e matou ao menos três crianças e duas professoras. Uma terceira criança ferida está sob cuidados médicos em um hospital.

Nas redes sociais, os militantes favoráveis ao porte de armas de fogo utilizaram a tragédia para alegar que seguranças armados poderiam tê-la evitado. Na avaliação de um especialista em segurança pública, no entanto, a situação poderia ter sido ainda pior.

“O problema é que uma pessoa armada [um segurança] teria de ter uma destreza muito grande pra não causar um dano ainda pior para as pessoas e sabemos que a formação de seguranças do Brasil não é a melhor do mundo”, avalia Rafael Alcadipani, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP-FGV) e membro da CIRN – Criminal Investigation Research Network da University of South Wales, organização que pesquisa sobre temas como investigação de crimes, em especial de homicídios e crimes graves.

Para o especialista, o fator surpresa e a adrenalina do momento são um fator de desafio até para profissionais treinados. “Mesmo quem tem essa formação está acostumado a atirar em alvos de papel, o que é diferente de atirar em um móvel humano, armado e descontrolado, correndo o risco de atingir outras pessoas. Um tiro errado ali geraria mais problema do que solução. O que precisamos é de uma polícia que chegue rápido e resolva”, explica.

Agressor também pode se armar

Além do risco do manuseio de armas de fogo em situações de perigo iguais a essa, existe a possibilidade do próprio agressor adquirir armas de fogo e causar ainda mais mortes. Isso porque ainda está em vigor uma parte dos decretos do presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) que flexibiliza a posse de armas de fogo no Brasil. A validade de tais decretos está em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), mas o pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes, do STF, garantiu a vigência de norma que permite a proliferação delas.

O Tribunal já tinha dois votos para derrubar a norma que praticamente retira da Polícia Federal o controle da posse de armas no país, mas o pedido adiou o andamento do processo. Com isso, enquanto o julgamento não é concluído, segue em vigor o decreto de 2019 que inverteu a lógica prevista no Estatuto do Desarmamento para a PF autorizar uma pessoa a ter uma arma.

Crime ainda sem explicação

A identidade do agressor e os nomes das vítimas não foram confirmados por fontes oficiais. Segundo a Polícia Militar de Santa Catarina, após cometer os crimes, o rapaz tentou suicídio e foi levado a um hospital da cidade de Pinhalzinho.

Policiais militares e servidores da prefeitura estão no local atendendo à ocorrência. Segundo o subcomandante do batalhão da PM em Chapecó, major Rafael Antônio da Silva, o criminoso foi contido por populares até a chegada dos primeiros policiais e bombeiros.

De acordo com o subcomandante, ainda não se sabe o motivo do crime. As primeiras informações dão conta de que o rapaz não tem nenhum vínculo com a creche, onde estudam crianças de 6 meses a 2 anos de idade. “Ele mora na cidade e entrou no estabelecimento portando o facão que usou contra as vítimas. Uma professora e duas crianças morreram no próprio local. Outra professora, gravemente ferida, morreu no hospital e ao menos uma criança ferida está internada”, explicou Silva.

Foto: Polícia Civil de Santa Catarina

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