Contexto

Entenda a relação entre desmatamento, crise hídrica e o agronegócio brasileiro

A floresta Amazônica recicla uma enorme quantidade de água todo ano. E se a região for transformada em pasto para atender o agronegócio do país, isto não vai acontecer. E isso será fatal para o próprio agronegócio

O Brasil inicia o período de seca com o menor volume de chuvas registrado nos reservatórios em 91 anos. Embora as autoridades afirmem que não haverá apagão neste ano, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, reconheceu que será necessária muita atenção e medidas “excepcionais” para garantir o fornecimento de energia elétrica. Mas o problema vai muito além disso.

De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os reservatórios de hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste, que representam 70% da capacidade de armazenamento do País, finalizaram o mês de abril com nível médio de armazenamento de 34,7%. O problema ligou o alerta sobre a chamada crise hídrica. De acordo com o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), em abril, o volume desses reservatórios alcançou o menor nível verificado para o mês desde 2015.

Além disso, em junho, também foi registrado volume de chuvas abaixo da média histórica nas bacias hidrográficas do Sul, Nordeste e Norte do país. Se nada for feito, o problema pode causar o desabastecimento para o consumo humano em grandes cidades brasileiras, além de afetar diretamente a economia do país, através do agronegócio.

O que está acontecendo

Não é coincidência o ano de 2021 apresentar ao mesmo tempo um cenário crítico de chuvas nas regiões Sul e Sudeste, enquanto no Norte, por exemplo, aconteceu a maior cheia já registrada na história de Manaus. Para entender esse comportamento do clima, primeiro precisamos entender o fenômeno conhecido como La Niña.

“Este ano é um ano La Niña, que sempre leva a menos chuva no Sudeste e mais chuva na Amazônia. A ‘oscilação do sul’ entre El Niño e La Niña está intensificando com o aquecimento global, e esta tendência deve continuar. Esses fenômenos, e outros também, modificam os correntes de ar ao redor do planeta”, explica Philip Fearnside, doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, onde vive desde 1978.

Ação do homem

A frequência de grandes secas no Sudeste está aumentando sensivelmente ao longo dos últimos anos e apresenta um risco de consequências cada vez maiores. Pra se ter uma ideia, em 2014, com o “volume morto” dos reservatórios quase esgotado, a cidade de São Paulo chegou a poucos dias de faltar água até para beber.

Como já foi explicado, o aumento desse fenômeno se deve a um aumento na variabilidade climática no planeta. Embora tenhamos a influência de La Niña, uma boa parte dessas mudanças globais também é causada pelo homem. São as chamadas mudanças antropogênicas. Entre elas está, por exemplo, a degradação de biomas como o desmatamento na Amazônia.

Já há indícios de que essa ação do homem afete o volume médio de chuvas, embora em menor escala. Isso porque, felizmente, ainda há muita floresta amazônica em pé. “O problema é que, se for acrescentado a esta variação o efeito de mais desmatamento na Amazônia, o somatório poderia ser catastrófico para os grandes centros urbanos do País, e também para o agronegócio”, alerta Fearnside.

O agronegócio precisa da Amazônia

A floresta recicla uma enorme quantidade de água todo ano. O volume de água nesse processo é maior do que a vazão do rio Amazonas. E se a região for transformada em pasto isto não vai acontecer. A água reciclada é transportada adiante por ventos, assim fornecendo o vapor d’água para gerar chuvas, inclusive em regiões como São Paulo, por exemplo.

Se não for reciclada, a água que entra na Amazônia após evaporar do Oceano Atlântico vai cair apenas uma vez como chuva e depois voltar para o Oceano via o rio Amazonas. E isso pode comprometer o próprio agronegócio do país.

“Portanto, é de interesse nacional parar todo o desmatamento na Amazônia, e não apenas o desmatamento ‘ilegal’. Isto é possível, pois praticamente todo o desmatamento é para pasto e soja, a parte para culturas de subsistência da população local é mínima”, explica. “A principal ligação do desmatamento e agronegócio com a atual seca no Sudeste brasileiro é a lição que precisa ser aprendida”, pondera.

A crise econômica que assola o país por causa da pandemia, pode ser agravada com a falta de recursos hídricos pois sem água, até o agronegócio exportador será afetado. “Precisamos entender, de uma vez por todas, que invasões impactam o bolso de todos nós. Quando uma pessoa invade e desmata, o reflexo se dá no setor industrial também, não só nos consumidores”, afirma Fabiana Prado, coordenadora do projeto LIRA – Legado Integrado da Região Amazônica, iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas.

As mudanças climáticas que causam seca, também podem fazer chover copiosamente em partes da Amazônia, que estão mergulhadas atualmente numa cheia histórica, com o Rio Negro chegando ao mais alto nível desde o início dos registros, em 1902. Em uma mesma região temos realidades diferentes que estão relacionadas com as questões climáticas. “Em casos como esse, o apoio às comunidades é mais agilizado. A notícia chega mais rápido e o socorro chega mais rápido também”.

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