Contexto

Brasil perde água potável que abasteceria 63 milhões de pessoas

País perde quantidade de água capaz de abastecer mais de 63 milhões de brasileiros. Mesmo banhado pela maior bacia hidrográfica do mundo, o Amazonas consegue ter o segundo pior índice de perda

Em pleno século 21, e no maior país da América Latina, o Brasil ainda registra grande ineficiência na distribuição da água potável pelas cidades. É o que aponta o relatório “Perdas de Água Potável: Desafios ara a disponibilidade hídrica e ao avanço da eficiência do saneamento básivo”, do Instituto Trata Brasil, divulgado esta semana.

De acordo com o Estudo, quase 40% (39,2%) de toda água potável captada não chega de forma oficial as residências do país. Isso representa um volume equivalente a 7,5 mil piscinas olímpicas de água tratada desperdiçada diariamente ou sete vezes o volume do Sistema Cantareira – maior conjunto de reservatórios para abastecimento do Estado de São Paulo. Mesmo considerando apenas os 60% deste volume que são de perdas físicas (vazamentos), estamos falando de uma quantidade suficiente para abastecer mais de 63 milhões de brasileiros em um ano, equivalente a 30% da população brasileira em 2019. Esse volume seria, portanto, mais que suficiente para levar água aos quase 35 milhões de brasileiros que até hoje não possuem acesso nem para lavar as mãos em plena pandemia. Poderia também atender, por quase três anos, aos mais de 13 milhões de brasileiros que habitam em favelas.

Além de atender a este enorme contingente de brasileiros, no que se refere ao impacto ambiental, o volume de água que poderia ser economizado da natureza certamente ajudaria a manter mais cheios os rios e reservatórios espalhados pelo país. Como é de conhecimento de todos, em várias localidades brasileiras estamos vivendo escassez de chuvas e, de acordo com o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), a precipitação deste ano pode ser o menor dos últimos 91 anos colocando em risco os reservatórios de água para abastecimento, mas também os voltados à geração de energia elétrica.

Uma redução dos atuais 40% de Índice Perdas de Faturamento Total para índices próximos a 25%, meta prevista pela Portaria Nº 490 do Ministério do Desenvolvimento Regional, permitiria a economia de um volume da ordem de 2,2 bilhões de m³. Significa que, mesmo se conseguirmos uma redução não tão ambiciosa nas perdas de água, já seria volume suficiente para atender a aproximadamente 39 milhões de brasileiros num ano – número equivalente aos brasileiros historicamente sem acesso.

Comparação internacional

Para efeito de comparação com outros países, os autores do estudo usaram como referência a International Benchmarking Network for Water and Sanitation Utilities (IBNET) e, como indicador, o Índice de Perda de Faturamento Total (IPFT). Nesse caso, o Brasil registrou (em 2019) perda de 41%, ou seja, índice pior que países como Camarões (40%), África do Sul (34%), Etiópia (29%), Reino Unido (21%), Polônia (17%), entre outros. Em comparação aos nossos vizinhos da América Latina, o desempenho do Brasil também é sofrível. Nosso país é o 5º entre os 10 países analisados e muito mais próximo do último colocado (Colômbia, com 46%) do que do primeiro (Chile, com 31%) em termos relativos.

Perda aumentando

Tendo como referência o chamado Índice de Perdas na Distribuição (IPD), os pesquisadores observaram que desde 2015 o país vem piorando nesse quesito. De 2015 a 2019 houve aumento de 2,5 pontos percentuais. Ou seja, nosso desperdício tem aumentado nos últimos seis anos.

Região Norte em pior situação

Analisando por regiões do país, os cientistas avaliaram a região Norte como o pior cenário, mesmo contanto com a maior bacia hidrográfica do planeta, a Amazônica. O Norte possui os piores índices de saneamento, também é onde se registra o maior IPD, com 55,2%, isto é, a região perde mais da metade da água potável produzida. Não muito atrás, a região Nordeste também aponta indicador alto, com 45,7%.

Amazonas é o segundo que mais desperdiça

Mesmo banhado pelo maior rio de água doce do mundo, o Amazonas consegue ter o segundo pior índice de perda de distribuição de águas do país, com 68%, perdendo apenas do Amapá, com 75%. Como era de se imaginar, a capital Manaus não fica atrás, tendo o terceiro pior índice entre as 100 maiores cidades do país, só perdendo para Macapá e Porto Velho.

Investimento precisa melhorar. E muito

Diante desse cenário, a única alternativa para o poder público é o investimento pesado em infraestrutura. “A solução para as perdas de água no Brasil passa por ações melhor estruturadas e maior eficiência dos sistemas de saneamento, conjuntamente a um combate mais efetivo aos furtos de água. Também é fundamental investir em materiais de qualidade, que suportem as exigências técnicas das redes de água com mais robustez e eficiência, garantindo menos vazamentos e melhor aproveitamento dos recursos hídricos”, afirma Luana Siewert Pretto, Diretora de Relações Institucionais e Governamentais da Associação Brasileira dos Fabricantes de Materiais para Saneamento (Asfamas), uma das entidades que apoiou o estudo.

Vale lembrar que embora pareça um problema essencialmente técnico, ele se refere acima de tudo a pessoas sem acesso a água potável.”Estamos falando de milhões de pessoas sem acesso a esse recurso essencial e o estudo evidencia que a redução das perdas de água pode ser a solução do ponto de vista social e de sustentabilidade para este histórico problema”, alerta.

Foto: Águas de Manaus

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