Contexto

Bolsonaro muda o tom, mas não convence na Cúpula do Clima

Especialistas afirmam que será preciso bem mais do que um discurso de 3 minutos para mudar opinião pública internacional

O presidente Jair Bolsonaro se comprometeu, nesta quinta-feira (22), a alcançar, até 2050, a neutralidade zero de emissões de gases de efeito estufa no país, antecipando em dez anos a sinalização anterior, prevista no Acordo de Paris. As palavras do presidente, no entanto, foram recebidas com desconfiança.

Apesar da promessa e da constatação da necessidade de se dialogar com comunidades tradicionais e a sociedade civil, as ações de seu governo colocam o país na direção oposta. Faltam medidas contra a grilagem em florestas públicas e apoio a ações de comando e controle no campo, as emissões de gases estufa têm aumentado com o desmatamento e há um sistemático ataque a comunidades tradicionais e à sociedade civil.

“É preciso lembrar que será preciso bem mais que essa fala de três minutos, desconsiderando o que seu governo fez de nocivo ao meio ambiente até aqui”, afirmou o diplomata e ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto. Para ele, a crise climática é um desafio equivalente à pandemia do novo coronavírus.

“Estamos atravessando duas crises gravíssimas: a pandemia da Covid-19, que já ceifou a vida de quase 400 mil brasileiros e brasileiras, e as ameaças claras de destruição da Floresta Amazônica e de áreas preciosas como o Pantanal Mato-grossense, por meio de queimadas e do cruel desmatamento. Estão queimando, aliás, o maior patrimônio genético do planeta, com reflexos claros e negativos sobre o aquecimento global”, finalizou.

Apesar da mudança no tom sobre a questão climátiva, a falta de credibilidade do governo Bolsonaro não deverá mudar após o discurso de hoje. “Perdemos o protagonismo internacional que já tivemos neste campo. Além disso, desdenhar da nossa responsabilidade como grande emissor de gases estufa e prometer metas sem planos consistentes e práticas contrárias é perder espaço no mercado das commodities agrícolas e deixar passar as oportunidades que se abrem com uma nova economia global voltada para a baixa emissão de carbono”, afirma o diretor-executivo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), André Guimarães.

“Falar que o Brasil emite poucos gases estufa em relação ao outros países e fazer promessas sem mostrar serviço fecham portas. Ninguém vai enviar recursos para proteger florestas no país se antes não expomos planos e práticas consistentes”, explica o diretor-executivo do IPAM. “Além disso, os principais mercados exigem compromisso com o combate às mudanças climáticas, numa tendência de crescimento. Já fomos líderes; hoje nossa posição de pária nos descredencia a investimentos e compromete nosso futuro. Perde o país, mas principalmente perdem os brasileiros.”

A promessa de Biden

A Cúpula de Líderes sobre o Clima foi organizada pelo presidente americano Joe Biden. O encontro virtual vai até amanhã (23) e é considerado uma preparação para a COP26.

Foram convidados 40 líderes mundiais para o encontro com o objetivo de discutir a crise climática, ações coordenadas para combater os impactos sobre o clima e os benefícios econômicos dessas medidas. Também haverá debates sobre as reduções das emissões de gases de efeito estufa, necessárias para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 ºC, uma das metas estabelecidas no Acordo de Paris.

Durante a abertura do evento, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, também se comprometeu a cortar as emissões de gases de efeito estufa do Estados Unidos entre 50% e 52% até 2030, em comparação aos níveis de 2005. Com a nova meta, espera induzir outros grandes emissores a mostrarem mais ambição no combate à mudança climática.

A cúpula reunirá ainda o fórum das grandes economias sobre energia e clima, que é liderado pelos Estados Unidos e reúne 17 países responsáveis por aproximadamente 80% das emissões globais e da riqueza global. Um pequeno número de líderes empresariais e da sociedade civil também participa do evento.

Foto: Marcos Corrêa/PR

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