Contexto

Acossado, Bolsonaro entrega a Casa Civil para o Centrão

Ao trazer o Centrão para o Casa Civil, Bolsonaro se desgasta, de uma vez, com militares, olavistas e liberais. Mas medida se justifica: próximos meses no Congresso, em especial no Senado, serão muito complicados para o presidente

O presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) anunciou nesta quarta-feira (21/07/21) uma “pequena” reforma ministerial no seu governo. A principal delas é a troca do general Luiz Eduardo Ramos pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) no comando da Casa Civil do governo.

Nogueira é um dos principais nomes do Progressistas, um dos partidos mais fortes do chamado Centrão. O grupo é conhecido pela baixa representação ideológica e por funcionar como um autêntico balcão de negócios em todos os governos eleitos desde a redemocratização. Em outras palavras: trocam apoio em votações importantes por verbas.

Mas a mudança também afeta outros setores e aliados importantes do presidente. O general Ramos, por exemplo, deve ser deslocado para a Secretaria-Geral da Presidência da República, hoje ocupada por Onyx Lorenzoni. Ainda não se sabe se Onyx será realocado para outro cargo no Executivo ou se retomará seu mandato de deputado federal (DEM-RS) na Câmara. Fala-se até na recriação do Ministério do Trabalho, diminuindo os poderes do superministro Paulo Guedes, da economia.

A mudança foi interpretada como um gesto de desespero e fragilidade de Bolsonaro. Isso porque a mudança afeta de uma vez a ala militar do governo, visto que Ramos sequer sabia da mudança, como ele mesmo confirmou horas depois e a equipe econômica do ministro Guedes, contrária à criação do novo ministério. E também desagrada sua base eleitoral mais fanática.

Vale lembrar que Ciro Nogueira já foi aliado de ninguém menos do que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Aliás, circula na internet um vídeo onde ele chama Bolsonaro de fascista. E não é só isso. Em 2016, o senador foi denunciado pela Procuradoria Geral da República por solicitar e receber propina no valor de R$ 2 milhões da UTC Engenharia. Segundo a denúncia, Ciro Nogueira fazia parte do grupo de liderança do Partido Progressista que participava do esquema de corrupção e lavagem de dinheiro relacionado à Diretoria de Abastecimento da Petrobras. Nas redes bolsonaristas da internet, a mudança caiu como uma bomba.

Ou seja, para se expor a esse nível triplo de desgaste, é sinal de que a base de sustentação do governo no Congresso é cada vez mais frágil. Na Câmara dos Deputados, pra começar, a pauta do voto impresso parece cada vez mais enfraquecida e dificilmente será aprovada. Líderes de 11 partidos, incluindo da base aliada, fecharam acordo contra a mudança. Por muito pouco a proposta não foi enterrada na própria comissão especial que a avalia antes do plenário.

No senado, a situação é ainda mais preocupante. A CPI da Pandemia cada vez mais expõe o governo a escândalos de corrupção envolvendo principalmente os militares no governo. Fica cada vez mais clara a participação do general Élcio Franco, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, no escândalo das vacinas. Em outubro, será votado o relatório final da comissão e ele promete não ser nada generoso com o governo.

Enquanto isso, outros partidos do Centrão já ensaiam uma debandada. A postura firma do deputado amazonense Marcelo Ramos respaldada pelo seu próprio partido, o PL, mostra que a sigla não pretende se dividir para apoiar o presidente em caso de crise. Até porque há do lado de fora do Planalto a figura do ex-presidente Lula, acenando em caso de vitória em 2022.

Resta ainda a necessidade de garantir outras duas votações importantes: as indicações de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal (STF) e de Augusto Aras para a recondução na PGR. Embora pareçam votações simples, por serem de perfil controverso, sempre existe a chance de serem barrados, o que traria mais dor de cabeça ao presidente. Com tudo isso, ter o PP no centro do governo através de Ciro Nogueira parece ser a tábua de salvação para Bolsonaro, mesmo ao custo de enorme desgaste com sua base. Resta saber se dará certo.

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