Contexto

A Guerra na Ucrânia e os preços dos combustíveis

A questão energética será um capítulo à parte no confronto na Guerra na Ucrânia. Entenda como a dinâmica entre os países deve afetar significativamente a economia de todo o planeta, especialmente no preço dos alimentos

A questão energética será um capítulo à parte no confronto entre Ucrânia e Rússia e deve afetar significativamente a economia de todo o planeta. O Brasil já começou a sentir os efeitos, com a Petrobrás anunciando reajuste nesta quinta-feira (10/03/2022).

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou nesta terça-feira (08/03/2022) a suspensão das importações de petróleo da Rússia, em mais uma tentativa de pressionar Moscou a parar a invasão contra a Ucrânia. O Reino Unido, por sua vez, já afirmou que vai eliminar gradativamente as importações russas de petróleo e derivados até o fim de 2022. A tentativa do Ocidente de isolar a Rússia – um dos maiores exportadores mundiais de petróleo, gás e metais – atingiu os mercados de commodities e aumentou a inflação em todo o mundo.

Mas afinal, como funciona essa dinâmica de preços? O que podemos esperar para os próximos meses? E o que o governo pode e o que se espera que ele faça para minimizar o impacto?

Mudanças ao longo de décadas

As condições de alteração dos preços do petróleo no mercado internacional passaram por mudanças relevantes nas últimas décadas, em razão do desenvolvimento de novas formas de exploração, entre elas a descoberta do pré-sal e o desenvolvimento de tecnologias para sua exploração.

Além da disponibilidade de reservas, as condições de oferta (extração, refino e distribuição) também são definidas a partir da política de preços e controle de estoques da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e pela geopolítica mundial, uma vez que, como ativo estratégico não renovável, diversas regiões e países produtores têm sido objeto de disputa, golpes, invasões e guerras ao longo da história. Na verdade, o preço que você paga pra abastecer está longe de obedecer a lógica dos mercados competitivos, ou da interação entre oferta e demanda pura e simples.

“Os preços dependem da capacidade de produção da cadeia, das decisões de uma organização capaz de ‘abrir ou fechar a torneira’ para alterar a dinâmica do mercado e da geopolítica que envolve, entre diversos fatores, as guerras. Atualmente, o que estamos observando com a guerra entre Rússia e Ucrânia é um choque de preços cuja proporção e os impactos estão ainda incertos e dependem de como a guerra, a posição da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), o boicote ao petróleo russo e as negociações entre as potências e produtores específicos (como entre EUA e Venezuela) vão evoluir”, explica Beatriz Tamaso Mioto, doutora em Desenvolvimento Econômico na Universidade de Campinas (UNICAMP).

Preço dos alimentos

Não há dúvidas de que os preços das cadeias produtivas serão afetados pela alta do petróleo. Seja quando usado como insumo, seja pelo custo de logística e transportes. Isso está sendo uma preocupação de todos os países. Não por acaso, os EUA estão negociando o fim do boicote ao petróleo venezuelano para que os impactos do boicote à Rússia não sejam tão extensos.

A OPEP, por sua vez tem sinalizado que tentará estabilizar esse movimento e os países membros devem soluções próprias para enfrentar o problema. “Especificamente na economia brasileira, cujo modal dos transportes é predominantemente rodoviário, o impacto na comercialização das mercadorias é direto e, portanto, tende a afetar fortemente os preços dos alimentos e os índices de inflação em geral”, alerta Beatriz Mioto.

Mas também há outros elementos que afetam essa alta de preços dos alimentos, como o aumento dos preços globais das commodities, por conta das incertezas do cenário internacional, dos preços do petróleo, da redução da oferta de alguns produtos específicos como o trigo, soja e milho e a redução da oferta de fertilizantes já que a Rússia é produtora importante.

“Esse último aspecto afeta diretamente a produção interna, pois Brasil é importador desses produtos. Cabe ressaltar que os sucessivos aumentos de preços dos alimentos afetam mais que proporcionalmente a cesta de consumo as famílias mais pobres o que agrava o problema latente de piora na segurança alimentar que enfrentamos” afirma a economista.

O que fazer pra minimizar esse impacto?

Apesar de sermos um país produtor de petróleo, com uma empresa mista (Petrobrás) cujo principal acionista é o próprio Estado brasileiro e que os derivados do petróleo estejam no rol dos preços administrados, há um fator que torna a questão problemática para o nosso bolso: o dólar.

Com a Política de Preços Internacionais (PPI) da Petrobrás, que reajusta os preços dos combustíveis de acordo com o valor do barril de petróleo no preço internacional, cotado em dólar, qualquer variação da moeda norte-americana reflete no preço dos combustíveis que pagamos aqui. Além disso, o governo federal faz a opção política de não interferir nos preços. Mas isso pode mudar.

Em 2022, com as eleições se aproximando, o presidente Bolsonaro deverá se mexer pra tentar diminuir o impacto no bolso do brasileiro, o que certamente vai refletir na sua popularidade e nos votos dos eleitores. A própria Petrobrás está mais cautelosa com os repasses e o governo ensaia uma política de subsídios para gasolina e diesel. Mas, segundo Beatriz Mioto, é pouco provável que funcione.

“Considero essas medidas insuficientes, principalmente para conter os impactos com efeitos socioeconômicos mais drásticos como a alta no preço dos alimentos. É necessário a elaboração de uma política de preços que seja capaz de trazer mais estabilidade, seja com um fundo de estabilização, seja com decisões que ponderem esses elementos por parte da Petrobrás, como o repasse indiscriminado das oscilações cambiais e de preços no mercado externo”, sugere a economista.

Os subsídios, segundo ela, servem para momentos de crise aguda e podem ajudar, mas como política de longo prazo podem “brigar” com outras áreas importantes de atuação do Estado. Em outras palavras: em dado momento, o debate sobre as prioridades constitucionais do orçamento público e o papel da Petrobrás deverão ser feitos.

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