Contexto

A complexa situação de Cuba

Manifestações no último dia 11 reabriram a situação política em Cuba. Mas, pra tentar entender o tema, é preciso deixar as paixões de lado e conhecer o contexto, a influência dos EUA e as mudanças tecnológicas pelas quais a ilha está passando

Manifestantes ocuparam as ruas da capital de Cuba, Havana, no último dia 11 de julho supostamente para protestar contra a crise econômica e o avanço nos números da pandemia de Covid-19 no país. Segundo a agência de notícias Reuters, a falta de alimentos, limitações às liberdades civis e a má condução do presidente Miguel Díaz-Canel frente ao avanço do novo coronavírus estavam entre as reivindicações populares.

O acontecimento reacendeu o debate no Brasil sobre a situação política e social de Cuba. Políticos e formadores de opinião divergem entre críticas pesadas e apoio apaixonado ao regime cubano. Enquanto alguns enxergam o embargo norte-americano como o maior responsável pela crise econômica no país caribenho, outros entendem que seu governo não é democrático e isso tem motivado as reivindicações populares. A questão, no entanto, é extremamente complexa e pede uma análise de diversos aspectos.

Povo insatisfeito

O presidente Díaz-Canel, que também comanda o Partido Comunista, atribuiu o tumulto aos Estados Unidos, ex-inimigo da Guerra Fria que nos últimos anos endureceu seu embargo comercial de décadas contra a ilha. O presidente disse que muitos manifestantes são sinceros, mas manipulados por campanhas de rede social orquestradas pelos EUA e “mercenários” em solo cubano.

“As manifestações que acontecem em Cuba ainda devem ser vistas com cuidado. Sempre há a possibilidade de infiltrados, como já vimos em países democráticos governados pela esquerda na América Latina, como na Venezuela e na Bolívia”, alerta João Manoel Malaia Santos, professor Adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutor em História Econômica pela USP.

Mas essa insatisfação também sofre influência de uma mudança tecnológica importante: as redes sociais. “A internet banda larga, para o cidadão comum, praticamente começou a ficar disponível em 2015, em praças públicas, e hoje já é possível ter planos de internet nos smartphones. Como se pode imaginar, em Cuba, o WhatsApp virou um dos principais meios de comunicação”, explica David Nemer, professor e pesquisador no Departamento de Estudos de Mídia na Universidade da Virgínia (EUA), em sua conta no Twitter.

Nemer enxerga no atual momento do povo cubano similaridade com o que aconteceu no Brasil em 2013, quando as redes sociais moldaram o discuso político do país. “Nós brasileiros sabemos muito bem o que acontece nos grupos de WhatsApp, e em Cuba não foi muito diferente. Muitas fake news sobre a situação no país passou a ser circulada, a ponto das pessoas que estavam lidando com a maior crise desde o período especial (90s) a se organizarem”, lembra.

Democracia ou ditadura

De todas as questões envolvendo Cuba, nenhuma causa mais polêmica e debates acalorados do que a classificação do seu regime político. No entanto, simplesmente estabelecer o país como uma “democracia” ou “ditadura”, com base no nosso contexto, pode induzir ao erro. Pra começar, é preciso saber de qual ponto de vista vai partir a interpretação.

“É importante neste momento compreender que os sentidos do que queremos dizer com democracia são o verdadeiro objeto do embate dessa que talvez seja uma das mais intensas disputas entre a direita e à esquerda global. O posicionamento de determinada pessoa vai falar do seu posicionamento político”, diz João Manoel.

“Cuba não é uma democracia e está em transição de uma ditadura para um modelo de governo que nós brasileiros, que estamos acostumados com uma certa binaridade governamental e política, não entendemos. É claro que todo processo de transição gera insatisfações sociais”, afirma David Nemer, no Twitter.

“Se o parâmetro para definir isso for o da democracia liberal do Ocidente, ou seja, países como EUA (com profundas distorções nos quesitos representatividade real da população ou legitimidade dos regimes) ou mesmo o Brasil, Cuba não pode ser considerada uma democracia. Entretanto, se os parâmetros estão considerando a responsividade da estrutura política, representatividade real e a legitimidade do sistema de governo entre a população, Cuba talvez seja o país mais democrático da América Latina”, avalia Débora Baldin, especialista em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), o sistema político cubano é monopartidarista e se caracteriza pelo fato de que não é o partido o sujeito ativo do processo eleitoral, de maneira que este não apresenta os candidatos. São as organizações que integram a Comissão de Candidaturas que se conformam em sujeitos eleitorais, de forma tal a permitir a participação ativa de todos os setores populares.

O peso do embargo

Nenhuma análise sobre Cuba pode ignorar o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. Desde 1958, os norte-americanos impõem um embargo comercial, econômico e financeiro ao país caribenho. Primeiro, os EUA impuseram um embargo à venda de armas a Cuba em 14 de março daquele ano, durante o regime de Fulgencio Batista.

Em outubro de 1960, dois anos após a Revolução Cubana levar à deposição do regime de Batista, os EUA embargaram as exportações para Cuba, exceto alimentos e remédios, depois que a ilha estatizou as refinarias de petróleo de propriedade americana sem indenização, como resposta à crise dos mísseis. Em fevereiro de 1962, o embargo foi estendido para incluir quase todas as exportações.

“Viver em um país que não sofre qualquer sanção econômica talvez dificulte a nossa compreensão do que isso significa. O bloqueio não se trata somente de uma medida unilateral dos EUA contra Cuba, mas de um conjunto de ações que foram sendo aprofundadas com o decorrer dos anos e que se transformaram em um cerco armado para asfixiar a economia cubana do ponto de vista econômico, comercial e financeiro e que afeta todas as áreas da economia e da vida em Cuba”, afirma Débora Baldin.

“O próprio conceito de ‘crise econômica’ advém de uma percepção capitalista da economia. A questão econômica mais complicada em Cuba é justamente o fato de ser uma pequena ilha e não conseguir tudo o que precisa de maneira autônoma. Se uma das maiores potenciais econômicas e bélicas do mundo restringe uma série de trocas comerciais, a situação tende a complicar em algum momento. Mesmo assim, se pensarmos no tempo que o governo cubano vem conseguindo resistir a uma ruptura, de uma pequena ilha do Caribe, é um feito estrondoso”, analisa João Manoel.

Pandemia agravou o quadro

O noticiário sobre as manifestações aponta que uma das razões para os protestos é o agravamento dos números da Covid-19 em Cuba. Vale lembrar, no entanto, que nem essa situação de calamidade pública mundial mudou o isolamento do país imposto pelos EUA. A pandemia afetou o setor de turismo, um dos pilares da economia cubana, reduzindo a entrada de divisas.

“As sanções dos EUA contra a Venezuela também afetam o campo energético e têm gerado desabastecimento. Cuba teve uma queda de 8,3% do seu PIB em 2020 (segundo o FMI) durante a pandemia, o que significou uma redução de 30% de suas importações. Como o país depende significativamente de importações para produtos básicos como comida, insumos médicos e combustíveis, o resultado é a escassez desses produtos”, explica Débora Baldin.

Cultura diferentes, modo de vida diferente

A instisfação popular, como vimos, é reconhecida pelo próprio presidente de Cuba. Ela existe porque há um choque entre a concepção de vida do povo cubano e a cultura do resto do continente. Com o acesso à internet, os cubanos passam a ter contato com outras culturas e realidades, onde o consumo é visto como sinônimo de status social.

Outro fator importante que explica essa insatisfação é própria mudança etária da população. Há uma clara insatisfação dos mais jovens, que não viveram o contexto político da revolução cubana. “Há um ideário por parte das pessoas mais velhas, que viram a mudança e cresceram sob a expectativa de que o regime socialista pudesse garantir direitos básicos. Mas com o avançar da crise, surgem novas lideranças, alimentadas pelas redes sociais. Com isso temos visto manifestações ao longo dos últimos anos pedindo mais liberdade na ilha”, afirma José Alves de Freitas Neto, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP).

“É justamente aí que reside um dos maiores paradoxos que o governo enfrenta. Principalmente em relação à educação. O governo cubano forma profissionais de saúde, principalmente médicos, e pessoas em outras áreas (nos esportes, na dança, na música, na engenharia, etc) que em Cuba tem uma vida absolutamente simples, como é a vida de qualquer cubano”, ensina João Manoel Malaia.

“O ‘mundo capitalista’ valoriza muito essas profissões e as pessoas se sentem tentados a mudar de país. Temos o êxodo dessas pessoas para países como EUA (o que mais recebe cubanos, até porque dá residência oficial a qualquer cubano “desertor” do regime)”, diz.

Resistência

Apesar das manifestações contrárias, os apoiadores do governo cubano responderam e defenderam a administração de Miguel Díaz-Canel. Na opinião dos especialistas ouvidos pelo Vocativo, independente da sua visão política, é preciso reconhecer que, independente dos problemas na sua política que qualquer país passa, o esforço do país em tentar manter seviços básicos merece reconhecimento.

“A questão vai sempre depender do que quem está recebendo a notícia tem de concepção sobre Cuba, um tema que sempre desperta emoções e, principalmente, concepções absolutamente equivocadas sobre o regime, sobre a política, a sociedade e a economia cubanas. Mesmo assim, se pensarmos no tempo que o governo cubano vem conseguindo resistir a uma ruptura, de uma pequena ilha do Caribe, é um feito (de natureza econômica, para não dizer política) estrondoso”, opina João Manoel Malaia.

“Cuba foi protagonista de uma revolução na América Latina, um universo onde não se imaginava que isso fosse possível a instalação de um regime socialista. De alguma forma, tiveram muito êxito em áreas como educação e saúde, mas tem as questões da não alternância do poder e o desgaste de um partido único exercendo esse poder”, pondera José Alves de Freitas Neto.

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