Contexto Covid-19

Como o YouTube permitiu e lucrou com a desinformação durante a pandemia

Mesmo diante da maior crise sanitária da humanidade em 100 anos e assumindo compromisso público de combater informações falsas, o YouTube foi uma máquina de lucro e desinformação sobre a pandemia da Covid-19. É o que mostra um estudo publicado no último dia 03 de novembro na revista Frontiers in Communication.

No levantamento, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Institute for Globally Distributed Open Research and Education e da Universidade da Califórnia analisaram  3.318 vídeos de 50 canais brasileiros reconhecidos como disseminadores de informações falsas no YouTube. E além das táticas de manobra desses produtores para fugir das ações de controle, também foram feitas algumas descobertas surpreendentes.

Disfarce

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), além do surto de Covid-19, a resposta foi acompanhada por uma enorme infodemia. O termo significa a um grande aumento no volume de
informações associadas a um assunto específico. Com o excesso de informações, algumas precisas e outras não, ficou muito difícil encontrar fontes confiáveis quando se precisa. Com o acirramento da disputa política em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil, a situação ficou ainda pior.

As redes sociais foram então cobradas a dar uma resposta e tentar coibir das informações falsas. Mas isso não inibiu os produtores de conteúdo falso sobre a Covid-19 e o coronavírus. Vários encontraram formas de continuar lucrando com a disseminação das chamadas fake news adotando uma série de táticas para contornar as políticas de moderação da plataforma. Outra tática bem comum utilizada é trocar letras por números de palavras, na tentativa de burlar os algoritmos de vigilância, no método conhecido como algospeak. Ou simplesmente não mencionar as palavras.

“Os produtores de conteúdo evitavam mencionar termos relacionados à Covid-19 tanto nos títulos quanto ao longo dos próprios vídeos. Em um dos vídeos, um canal aconselhava os entrevistados a evitarem as ‘palavras proibidas’ e pedia que substituíssem termos como ‘vacina’ por ‘solução'”, explica a jornalista Dayane Machado, mestre em Divulgação Científica e Cultural na Universidade Estadual de Campinas e doutoranda em Política Científica e Tecnológica na Unicamp e uma das autoras do estudo.

Outros dois canais usaram uma forma mais criativa e abrangente. Ao invés de abordar diretamente a doença, passaram a discutir a colaboração a importância de usar títulos mais genéricos como “5 comidas para aumentar a imunidade”, o que permitiu a eles falarem livremente, disseminando desinformação, sem chamarem atenção dos moderadores do YouTube.

Falha na vigilância

Um dado curioso persebido no estudo foi que o algoritmo usado no YouTube fez com que empresas farmacêuticas fabricantes de vacina como a Pfizer e o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos fizessem parte dos anunciantes dos próprios canais que mentiam sobre a pandemia. Segundo Dayane Machado, isso não foi intencional.

“As instituições que estavam realizando campanhas de conscientização sobre a importância das vacinas contra Covid-19 certamente não imaginavam que seus anúncios acabariam associados a conteúdos desinformativos sobre a pandemia. Infelizmente, não é a primeira vez que vemos isso acontecer”, explicou a jornalista. Um outro exemplo de análise que identificou o mesmo problema com desinformações sobre Covid-19 foi um material do NewsGuard.

YouTube fala pouco a respeito

Segundo Dayane Machado, a plataforma não tem o costume de responder ou comentar o resultado desse tipo de pesquisa. “A imprensa é quem costuma conseguir que empresas como o YouTube comentem resultados de pesquisas como as nossas”.

Um exemplo disso foi o caso do relatório da Avaaz, onde a empresa se limitou a dizer que “o YouTube tem políticas de anúncios rígidas que regem onde os anúncios podem ser exibidos e fornecemos aos anunciantes ferramentas para optar por não receber conteúdo que não se alinha com sua marca”, disse.

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