Amazônia

As muitas falhas do novo “Passo a Paço” da prefeitura de Manaus

Rebatizado pela prefeitura de "Sou Manaus Passo à Passo", o evento foi acusado por frequentadores de desorganização e problemas no transporte. Artistas, por sua vez, reclamaram de descaso, desrespeito e falta de diversidade religiosa

Rebatizado pela prefeitura de Manaus em 2022 de “Sou Manaus Passo a Paço”, o evento cultural conhecido antes apenas como “Passo a Paço” retornou após dois anos parado em virtude da pandemia. Criado para promover a revitalização do centro da capital contou com público recorde, mas cometeu falhas nos quesitos organização e representatividade. Os artistas locais, por sua vez, reclamaram bastante do tratamento dado pela administração municipal antes e durante o evento.

Organização sob fortes críticas

Ao longo das quatro noites de evento, as críticas quanto à organização e logística foram constantes, fazendo com que alguns vídeos viralizassem nas redes sociais. As queixas mais comuns mostraram longas filas na entrada dos palcos e das feiras, além de centenas de frequentadores correndo para disputar ônibus para voltar para casa.

Outro grande problema relatado por quem frequentou essa edição foi número de visitantes que não puderam entrar por causa da lotação máxima. Na última noite, surgiram vídeos da Polícia Militar do Amazonas dispersando o público com gás lacrimogêneo.

Mesmo ao redor dos palcos, com os shows acontecendo, muitos frequentadores relataram problemas. “Eu vi a Duda Beat reclamando e preocupada com o pessoal que estava na frente do palco por causa da quantidade de gente. Também foi muito ruim a internet. Às vezes a gente não conseguia pagar em PIX ou achar as pessoas porque não tinha sinal de telefone”, afirma a advogada Veridiana Tonelli.

A segurança também foi um problema ao longo do evento. “Eu não passei por revista. Fui direto pra feira, depois pro museu do Igha e pro Museu da Cidade. O que eu percebi é que as próprias pessoas que trabalhavam lá não sabiam dar informação. A impressão que eu tive é que os palcos estavam muito longe um do outro, sendo que deram muito foco para o palco Tucupi, que recebeu as atrações nacionais e os outros, que teriam as atrações locais, ficaram esquecidos“, relata a cientista social Rila Arruda.

Quando começou o show do Djonga, começou a encher muito. Em vários momentos do show da Duda Beat, ela parou e teve de dar água para as pessoas da frente. Também precisou chamar os bombeiros pra carregar as pessoas que estavam passando mal. Também vi muita gente carregada no meio da multidão. Estava muito cheio“, afirma Veridiana.

“Tivemos as trocas de horários de shows, a comida deu uma grande queda. Ontem os expositores nem energia tinham nas barracas. O festival perdeu sua linha de pensamento. É isso quem perde é a cidade. Somos nós. E ainda falam em mudar a data. O que ainda representará ainda mais prejuízo“, lista o também produtor cultural João Fernandes.

Artistas locais desprestigiados

Antes mesmo da realização do Sou Manaus Passo a Paço deste ano, as reclamações de artistas e representantes de artistas eram constantes nas redes sociais. A maior delas diz respeito ao contato feito com a classe e a estrutura dada a eles durante a realização dos shows.

“A minha experiência foi muito desgastante no que se trata a organização do evento, desde de o início das tratativas, começando por descaso com o tempo dos artistas fomos contratados 10 dias antes do evento, via audio de whatsapp sem contrato ou qualquer formalização. Sobre as informações da estrutura tivemos uma reunião 2 dias antes do evento acontecer onde foi comunicado como seria e mais uma vez não foi cumprido”, protesta a produtora cultural Audi Arruda.

O problema é que a edição deste ano foi muito desorganizada. A classe artística local foi chamada às pressas, faltando menos de duas semanas para o festival. Eu vi muitos artistas daqui reclamando que a passagem de som foi feita horas antes do evento. Eles foram muito preteridos na edição deste ano“, lamenta Veridiana Tonelli.

Durante os espetáculos, itens básicos também ficaram faltando para os artistas. “Não houve banheiro para artistas. Mesmo com trânsito livre houve a tentativa de impedimento de acesso ao estacionamento para artistas. Faltou água para os artistas no camarim. Se tivesse havido uma pesquisa Basica do que cada artista tinha a apresentar as pessoas saberiam que Bel Martine não cabia no coreto como também Gabi Farias e Karen Francis“, diz Audi.

De acordo com a produtora, houve uma nítida diferença de tratamento entre artistas locais e nacionais, onde os primeiros saíram prejudicados. “Pra eles [artistas de fora] houve outdoor em toda a cidade, teve contrato com 3 meses de antecedência, letreiros em todo espaço do evento, isso sem falar na diferença absurda de cachê. A organização pedindo vídeos dos artistas pra usar nas redes sociais pq não fez a cobertura do palco“, lamentou.

Uma das queixas mais comuns por todos os ouvidos pelo Vocativo é a descaracterização do evento. O que começou como uma festa regional, passou a ser algo maior, o que acabou tirando o foco da ideia inicial do Passo. A meu ver, esse festival deveria ser uma oportunidade para lançar artistas daqui. Quando viessem artistas nacionais pra cantar, isso deveria ser interligado com artistas daqui, pra catapultar artistas regionais. Temos muitos artistas daqui que já saíram pra tocar fora, como o Vítor Xamã, Rafa Militão, que do Passo vai tocar no Rock in Rio. Temos artistas de alto nível aqui. Mas a impressão é que a prefeitura quer fazer um Lollapalooza, mas não é essa a ideia do Passo”, reclama Veridiana.

Falta de diversidade religiosa

Outra queixa feita logo no anúncio das mudanças para o Passo foi a realização de um palco com shows gospel, que acontece nesta terça-feira (06/09/2022), no fechamento da edição. De acordo com vários envolvidos, o problema não foi a presença desse tipo de segmento, mas a exclusividade para evangélicos, mesma religião do prefeito David Almeida (Avante).

“Infelizmente o dia que seria religioso é apenas gospel, não tem nenhum dos grupos de cultura afro de Manaus, nenhum dos maracatus. Os maracatus poderiam ser facilmente integrados com apresentação dos artistas daqui, como Casa de cava, Gabi farias e Bel Martine”, protesta Audi Arruda.

Narcisismo e descaracterização

A mudança de foco do Passo a Paço foi, sem dúvida, uma reclamação unânime entre todos os entrevistados. A opinião geral é que a atual gestão da prefeitura e o prefeito David Almeida tentaram recriar um evento já estabelecido para dar “a sua cara” e acabou se atrapalhando. Como resultado, o festival ficou maior, mas perdeu boa parte da sua característica.

“Esse festival começou a ser produzido em 2015 e a ideia era revitalizar o centro de Manaus e preservar o patrimônio histórico da cidade fazendo as pessoas voltarem a frequentar o local. Então ele começou como uma feira gastronômica e eventualmente começaram a fazer shows com artistas daqui e aí virou um festival de artes integradas“, relembra Veridiana Tonelli.

Eles [a prefeitura] tentaram mudar o nome pra parecer que era um evento novo, quando isso não é verdade. Mudaram apenas o nome por questão de marketing, mas o evento era o mesmo. Concentraram a divulgação em alguns palcos e eventos. Faltou gerenciamento“, afirma a advogada que já atuou com artistas locais. “O prefeito subiu no palco e bagunçou o show do Djonga. Inclusive usou os fogos do artista“, afirma Rila Arruda.

O Passo sempre foi uma experiência de gastronomia, música e espaços de convivência. E isso não aconteceu. Desde o início quando começou a anunciar já gerou vários ruídos. Por exemplo: tem um espaço urbano com uma pista de skate, mas não pode entrar com ele. E por aí vai“, enumera João Fernandes. “Os espaços para foto que hoje movimentam as redes sociais é de um descuido gigante. Avançamos tanto para sair desses esteriótipos de peixe e rio, aí o festival vem e prega isso. Somos amazônicos e isso é tão gigante e contemporâneo“, lamenta o produtor.

A prefeitura de Manaus foi procurada pelo Vocativo desde o anúncio do festival para saber mais sobre os gastos e a infraestrutura que seria oferecida durante o evento, mas não obteve respostas. O site ainda aguarda uma série de documentos pedidos para a gestão municipal via Lei de Acesso à Informação (LAI), que já ultrapassaram os prazos de entrega.

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