Amazonas Covid-19

Situação de Manaus coloca em risco as vacinas contra a Covid-19

Atividades econômicas liberadas colocando mais de 370 mil infectados e 500 mil vacinados convivendo com as variantes do coronavírus. Oportunidade perfeita para ele evoluir de um jeito que nós não queremos

Após o pico catastrófico de casos e mortes por Covid-19 entre os meses de janeiro e fevereiro, Manaus vive uma aparente situação de estabilidade nos números da pandemia. Mas esse momento pode ser apenas a calmaria antes da tempestade. Isso porque o atual cenário da capital é perfeito para a seleção de uma variante do coronavírus que escape não só da imunidade conferida a quem já teve a doença mas também da proteção das vacinas. É o alerta feito por especialistas ouvidos pelo Vocativo.

Roteiro antigo

Quem mora em Manaus conhece bem esse roteiro: um pico explosivo de casos e mortes, seguido de uma repentina queda nesses números, que persiste mesmo depois da reabertura das atividades econômicas. Aconteceu entre abril e maio de 2020 e acontece agora, no primeiro semestre de 2021. O governador Wilson Lima autorizou o retorno de atividades em fevereiro, ainda com alto número de internações e, até o momento, a situação ainda não saiu do controle (conforme mostram os gráficos ao lado), embora alguns sinais de perigo já estejam no horizonte.

Em 2020, em dado momento, a circulação do vírus foi tanta, que alguns acreditaram que mais de 70% da população de Manaus já tinha tido algum contato com a doença. Com esse número, não faltaram manchetes e anúncios de que a capital havia alcançado a chamada “imunidade de rebanho” pelo contágio, o que se mostrou um erro mortal. Aparentemente, foi o cenário pós-segunda onda que gerou uma das variantes do coronavírus de maior preocupação no planeta: a P.1.

O vírus evoluiu

Vírus são seres que nem a ciência sabe classificar muito bem. Ainda há um debate se eles podem ser chamados de seres vivos, já que um ser vivo é capaz de sobreviver por si só, enquanto um vírus necessariamente precisa de um hospedeiro. Ou seja, alcançar você é o objetivo dele. E ele sempre vai trabalhar pra fazer isso.

A variante P.1 foi diagnosticada pela primeira vez no dia 10 de janeiro deste ano, no Japão, em viajantes vindos de Manaus. Atribui-se a essa variante a terrível segunda onda da doença no Estado, que matou ainda mais do que a primeira onda. Ao que tudo indica, ela surgiu após o processo que a biologia chama de pressão seletiva.

O novo coronavírus, como qualquer vírus, muda ao ser transmitido de pessoa pra pessoa. Há no mundo, centenas de variantes dele circulando. A maioria não preocupa. Mas, quando há um conjunto de condições ambientais que favorece determinados genes em relação a outros, ocorre a pressão seletiva. Pense como uma corrida, onde o mais apto vence.

“A hipótese mais provável para o surgimento da P.1 foi a circulação da linhagem B.1.1.28 por muito tempo. Essa linhagem, que está presente no Amazonas desde o início da pandemia, teve a chance de testar diferentes mutações e elas trazem benefícios ao vírus”, explica o pesquisador Felipe Naveca, Vice-Diretor de Pesquisa do ILMD/Fiocruz Amazônia.

E se o vírus possui mutações que trazem benefícios para ele, isso é má notícia para nós. Com essas mutações, o SARS-COV-2 que circulava no Amazonas não só se tornou mais transmissível, como foi capaz de escapar parcialmente da imunidade de quem já teve a Covid-19. Em todo ano de 2020, havia oito casos de reinfecção sob suspeita na região e nenhum confirmado. Só em janeiro, o número chegou a doze, com três confirmados.

Só tem um preocupante detalhe. Em 2020, Manaus possuia uma grande quantidade de infectados e mesmo assim, em algum momento, o vírus foi capaz de evoluir e se tornar ainda mais eficiente para nos alcançar. O caso é que, agora, temos mais uma barreira para ele ultrapassar: as vacinas. E como ele precisa de nós para existir, ele vai tentar quebrar mais esse obstáculo.

Vacinas sob risco

No momento que este texto está sendo escrito (09 de maio de 2021), Manaus possui 171.688 casos confirmados de Covid-19. Como a testagem é muito baixa, há muito mais do que isso. Por outro lado, o número de vacinados é de 507.968. De acordo com o IBGE, a população da capital é de 2.219.580 pessoas. Isso significa que, atualmente, cerca de 30% da população tem alguma barreira (seja por vacina, seja pela infecção natual) contra o vírus. Agora, vamos imaginar que o número de infectados seja, por exemplo, o triplo. Neste caso, seria metade da população.

“Não há dúvida que existe uma pressão muito grande. Inclusive para o surgimento e proliferação de variantes que escapam da resposta imune. É uma tempestate perfeita para o vírus. E certamente já há outras circulando que ainda não foram identificadas”, alerta o virologista Eduardo Flores, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

“Com a vacinação muito vagarosa e mantendo circulação das pessoas sem qualquer restrição, cria-se ambiente favorável para que novas variantes surjam e que sejam responsáveis por evolução mais grave, ou ainda mais transmissíveis ou que sejam ‘resistentes’ à proteção conferida pelas vacinas que temos disponíveis. Ou tudo isso junto”, diz Rachel Stucchi, médica infectologista da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

“Pressão seletiva sempre vai existir. O que precisamos é avançar na vacinação, para diminuir a chance do vírus encontrar uma pessoa suscetível, causar infecção, dando a ele chance de mutar. É por isso que precisamos diminuir a transmissão e a evolução dele. E só se faz isso de duas maneiras: ou protegendo com as vacinas ou diminuindo as chances do vírus infectar as pessoas com as medidas de distanciamento social, utilização de máscaras, lavagem das mãos, etc”, afirma Felipe Naveca.

Falta da segunda dose da vacina

Aí entra outro problema. Quando o dr. Naveca fala em vacinação, ele se refere a duas doses, visto que os imunizantes usados no Brasil atualmente funcionam dessa maneira. Mas, como o Vocativo já alertou, boa parte da população ainda só recebeu a primeira. E isso também é uma forma de pressão seletiva sobre o vírus.

“Caso se entre numa situação de falta de segunda dose, por ausência de novas remesas de imunizante ou porque o indivíduo não compareceu à receber sua segunda dose, sim pode gerar um cenário que atue como ‘selecionador’ de variantes com potencialidade de ser resistente às vacinas aplicadas nessa população”, explica Carlos Zárate-Bladés, pesquisador do Laboratório de Imunoregulação, Centro de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O atraso do Ministério da Saúde em concluir a vacinação dos grupos prioritários, prevista apenas apenas para setembro, reforça a preocupação. “Esse atraso se confirmando, teremos ondas correndo risco de outras mutações, que podem formar novas variantes de preocupação que dêem vantagens ao vírus. É fundamental que o MS reveja esse cronograma e consiga mais doses com outros países que tenham doses excedentes”, explica Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Ah, e mesmo que toda a população vacinada receba a segunda dose, ainda é preciso ter paciência. “É muito importante que tanto gestores quanto a população que já recebeu a primeira dose, assegurem a segunda dose, e ainda mantenham as medidas preventivas comuns acima citadas, até que cheguemos a vacinar pelo menos 80% de toda a população”, pondera Carlos Zárate-Bladés.

Foto: Bruno Kelly / Amazônia Real

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