Amazônia

Pesquisadores indicam potencial da bioeconomia para a Amazônia

Pesquisadores brasileiros na COP27, a Conferência do Clima das Nações Unidas, avaliaram o potencial da bioeconomia para a Amazônia no painel Da ciência à ação: Bioeconomia como alternativa para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, realizado no espaço do Brazil Climate Action Hub na conferência do clima nesta terça-feira (15/11/2022). “A bioeconomia para a Amazônia precisa ser transformadora”, disse Patrícia Pinho, diretora-adjunta de pesquisa no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Pinho é coautora de um estudo que elenca princípios orientadores para uma bioeconomia da Amazônia, em consideração às complexidades territoriais, culturas e aos conhecimentos ancestrais da região. São eles: desmatamento zero; diversificação dos métodos de produção em resposta ao sistema de monocultura; fortalecimento de práticas milenares amazônidas; e repartição justa dos benefícios.

A abordagem proposta para o conceito de bioeconomia aplicado às realidades da Amazônia brasileira é a conservação ambiental em harmonia com o desenvolvimento do potencial econômico da sociobiodiversidade da floresta, produzindo renda para quem nela vive, sem reproduzir lógicas excludentes de marginalização e de empobrecimento da população na concepção, implementação e execução de projetos. O foco está no protagonismo da pluralidade de vozes amazônidas.

“Se a gente não tiver todos esses pilares, não seremos capazes de evitar o ponto de não retorno na Amazônia. Devemos transcender a visão sobre a Amazônia como provedora global da estabilidade climática e de commodities. Há um potencial enorme para ser desenvolvido. Só o estado do Pará pode produzir mais de 5 bilhões de dólares em recursos financeiros associados à bioeconomia. É necessário endereçar as múltiplas desigualdades como a gente tem, de alta pobreza, desigualdade étnica, racial, de gênero, mantendo, assim, a floresta de pé e assegurando os direitos da população”, explicou Pinho.

O ponto de não retorno, ou ponto de inflexão da Amazônia, será alcançado se o bioma perder 25% da vegetação florestal. A partir daí, as consequências serão irreversíveis e caminham para um estado de degradação com perda de interações entre fauna e flora, de provisão de alimentos e plantas medicinais para humanos, e de serviços ecossistêmicos prestados pela floresta como equilíbrio dos ciclos da água e do carbono, por exemplo. Até 2021, cerca de 17% da Amazônia já havia sido desmatado, segundo o MapBiomas.

Com o tema “Implementação e responsabilidade”, a programação desta terça-feira no Brazil Climate Action Hub, espaço da sociedade civil brasileira na COP27, discute meios para colocar em prática soluções climáticas com responsabilidade socioambiental.

“É central que os benefícios econômicos e não econômicos sejam compartilhados com a população indígena e tradicional, e que essas pessoas sejam novamente protagonistas desse desenvolvimento. Nesse sentido, a governança tem um papel crítico para alavancar a proteção de povos e a repartição de benefícios de forma igualitária, para promovermos genuinamente um desenvolvimento que seja sustentável, uma proteção socioecológica e uma resiliência climática”, complementou a diretora-adjunta de pesquisa.

“É muito conflito por terra e muita destruição da floresta nessa disputa econômica. Como encontrar uma economia mais sustentável para a Amazônia? Uma bioeconomia da floresta em pé e dos rios fluindo começa a partir do encontro do conhecimento dos territórios com inovação e tecnologia, é a base para a transição justa na Amazônia. Isso permite a gente desenvolver o país com uma economia inclusiva e trazer toda a diversidade cultural para dentro da economia”, disse Genin.

Proteção de territórios

As produções de castanha, cacau, açaí e borracha foram algumas das destacadas por Angela Mendes sobre o trabalho feito em reservas extrativistas na Amazônia brasileira. Filha do ambientalista e seringueiro Chico Mendes, ela destacou a importância da proteção dos territórios nos quais as populações indígenas, tradicionais e extrativistas trabalham.

“Para falar de sociobioeconomia tem que falar de cuidado com o territorio. Território que, inclusive, foi a causa do assassinato do meu pai, as reservas extrativistas. Hoje, são cerca de 80 no Brasil, que deveriam ser protegidas pelo governo federal, mas, nos últimos anos, foram violentadas e atacadas. O desmatamento vem batendo recorde. Então precisamos falar da garantia dos territórios, para garantir também as pessoas nesses territórios, que são tão fundamentais para o combate à crise climática que a gente vive”, afirmou.

Terras públicas como reservas extrativistas, unidades de conservação e territórios indígenas têm mais da metade (51%) do desmatamento ocorrido entre 2018 e 2021. Somente em 2021, a área desmatada na Amazônia Legal teve o maior aumento desde 2006: foram 13.038 km² de floresta derrubados.

O desmatamento é a maior fonte de emissões de gases do efeito estufa no Brasil: causam o superaquecimento global e acarretam no cenário de emergência climática atual. Só a Amazônia concentra 77% das emissões brasileiras por conta do desmatamento e do fogo associado a essa atividade. Florestas e outros tipos de vegetação guardam grandes estoques de carbono, um dos gases do efeito superaquecedor. Com o desmatamento de vegetações nativas e a degradação da área no entorno de queimadas associadas ao desmate, todo o carbono acumulado nas raízes e na estrutura das árvores e plantas retorna para a atmosfera. Por isso, é importante mantê-las vivas, tanto para a sobrevivência da sociobiodiversidade, quanto para o equilíbrio climático do planeta.

“A gente sabe que por mais que a gente tenha acabado de eleger um presidente de esquerda, que tem compromisso com essas populações e seus territórios, ainda assim, todos os dias aparecem projetos de lei que permitem mineração e liberam desmatamento. Os desafios serão muito grandes, mas sabemos que nossa fortaleza está nos conhecimentos tradicionais”, acrescentou Mendes.

Tecnologia como aliada

O cientista Carlos Nobre apresentou a proposta de construir “um MIT para a Amazônia” de forma a alavancar o desenvolvimento da região por meio da tecnologia. O MIT (Massachusetts Institute of Technology, ou Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos), é referência mundial como centro de pesquisas.

A ideia é que o Instituto de Tecnologia da Amazônia tenha caráter panamazônico, em diálogo com os demais países pelos quais o bioma se estende, como Bolívia, Colômbia e Equador. Com cinco grandes áreas de pesquisa – água, sociobiodiversidade e florestas, infraestrutura sustentável, paisagens degradadas e Amazônia urbana – o objetivo é que populações indígenas e comunidades tradicionais se beneficiem da iniciativa.

“Já conversamos com vários países. É um sonho, mas vamos realizar. Vamos torcer para um apoio enorme de todos os governos da Amazônia que queiram participar. É uma proposta descentralizada, a ser criada via parceria público-privada”, disse o pesquisador, que é fundador do Amazônia 4.0, projeto que prevê a utilização de tecnologia para o desenvolvimento na região amazônica com fortalecimento de populações tradicionais.

Nobre relatou que já está em curso a abertura de laboratórios criativos na Amazônia, que funcionam como “pequenas biofábricas” para populações rurais e urbanas trabalharem com os produtos da floresta como o cupuaçu e o cacau.

“O desafio do Amazônia 4.0 é trazer para a Amazônia o potencial de agregar valor para produtos da bioeconomia da floresta em pé e agregar valor por meio da industrialização. Com a promessa do governo Lula reindustrializar o país, que vem se desindustrializando há 25 anos, vamos lançar grandes projetos dessa natureza para levar a possibilidade de transformar a Amazônia”, anunciou. Como sintetizou Houlihan, investir na bioeconomia da Amazônia é “investir no futuro do nosso planeta”.

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