Amazonas

O bolsonarismo e a catástrofe de Manaus

Um estudo publicado por cientistas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) encontrou relação direta entre apoio eleitoral ao presidente Jair Bolsonaro e a aceleração da mortalidade por Covid-19 em 2021. A conexão fica ainda mais nítida em Manaus, uma das capitais que deu a vitória ao presidente em 2018 e que tem os piores números da pandemia.

Com quase 400 mil mortos até aqui, segunda pior marca do planeta, quatro ministros da saúde em um ano, recusa na compra de vacinas e ausência completa de coordenação, não faltam motivos para classificar a condução da pandemia pelo governo Bolsonaro como desastrosa. E nesse quadro, Manaus, com dois colapsos na sua rede de saúde e maior média de mortes por milhão de habitantes do país, ocupa lugar de triste destaque.

Discurso

Mas não é apenas a ação direta do presidente que causou toda essa situação. Ora, se o novo coronavírus é transmitido pelo ar e pelo contato físico entre pessoas, quanto maior a proximidade entre elas, maior será a transmissão, os casos e as mortes. É exatamente aí que entra a influência do discurso do presidente no comportamento da população.

Através da criação de um falso dilema entre economia e saúde, Bolsonaro se colocou como principal opositor a qualquer política de restrição da circulação de pessoas e de distanciamento social. Ele também criticou o uso de máscaras, estimulou aglomerações, incentivou comerciantes a abrirem seus comércios, e por fim advogou pelo uso de tratamentos inúteis contra a Covid-19. Mas estabelecer uma conexão entre o que o presidente diz e as consequências parecia uma tarefa muito difícil de ser feita. Até agora.

Maior alinhamento, pior cenário

Um grupo de pesquisadores da analisou cuidadosamente o conjunto de falas, posicionamentos e atos públicos do presidente e comparou com os números de diversas regiões pelo país. Ao fazer isso, constataram que, onde Bolsonaro teve maior votação, pior foi o desempenho na pandemia.

“A ideia desse trabalho surgiu a partir de uma nota técnica que antecedeu esta, onde documentamos a aceleração de óbitos em capitais e estados, e percebemos que os locais com maior aceleração em 2021 pareciam ser aqueles alinhados com o presidente Bolsonaro. Então, testamos esta hipótese e a correlação estava lá” explica Beatriz Rache, pesquisadora no IEPS e uma das autoras do trabalho.

Números comprovam

Para medir a adesão ao distanciamento social em estados e municípios, os cientistas usaram o Índice de Isolamento Social (IIS) ao nível municipal e estadual desenvolvido pela In Loco, uma companhia de tecnologia que tem servido de parâmetro para administrações estaduais. Este índice consiste no percentual de indivíduos naquele município ou estado que permaneceram em casa por dia, coletado a partir de aplicativos de dispositivos móveis e disponibilizados de forma anônima.

O Vocativo pediu para o grupo de pesquisadores da IEPS dados sobre a cidade de Manaus. E como esperado, a relação fica nítida. No dia 25 de março de 2020, por exemplo, Bolsonaro fez um pronunciamento na TV pedindo a “volta à normalidade” e o fim do “confinamento em massa”. O presidente também afirmou que meios de comunicação espalharam “pavor”.

Exatamente nesse dia, o ISS do Amazonas era de 53,7%. Nos dias seguintes após a fala do presidente, chegando ao número mais baixo em primeiro de abril, com 49,6%. Vinte dias depois, a prefeitura começava a enterrar vítimas da Covid-19 em covas coletivas, em imagem que correu o mundo.

“Não faltam exemplos de falas ou práticas do presidente contra distanciamento, contra o uso de máscaras, e de politização e antagonismo da vacina. E antes de responsabilizar os eleitores, o mais culpável aqui é a postura do presidente e do governo federal que por tanto tempo se mostrou contra as medidas recomendadas”, pondera Beatriz.

Segunda onda

Durante a segunda onda da Covid-19 em Manaus, ainda mais mortal que a primeira, a influência do discurso de Bolsonaro e seus aliados também estiveram presentes. Em dezembro, quando a situação já era crítica, empresários bolsonaristas promoveram manifestações e violência contra medida do governador Wilson Lima de fechar serviços não-essenciais.

Nas redes sociais, os deputados federais Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Bia Kicis (PSL-SP) e Carla Zambelli (PSL-SP) comemoraram o acontecido. Pressionado, o governador cedeu e manteve atividades em um dos períodos de maior circulação do comércio, entre o Natal e o Ano Novo, quando muitos consumidores trocam produtos. O fechamento só aconteceu, na verdade, por ordem judicial.

Dois dias antes do colapso no fornecimento de oxigênio na rede hospitalar, Bolsonaro atacou novamente o isolamento social e atribuiu o aumento de casos ao não uso do chamado “tratamento precoce” na cidade. A declaração foi feita a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada e publicada em um canal bolsonarista no YouTube.

Como resultado da baixa adesão ao isolamento, Manaus teve a maior aceleração na média de óbitos de todo o país, com 368%, a terceira maior média de óbitos por dia em 2021 (57.13), o maior número de mortes por 100 mil habitantes em 2021 entre as capitais (379) e o sétimo menor índice de distanciamento entre as capitais: 9.28.

“O texto e a nossa análise tentam deixar claro que não estamos traçando uma causalidade direta, mas pode-se argumentar que essa capacidade de influenciar é sim maior em locais onde o percentual de votos foi maior. São mais pessoas influenciáveis pelo presidente e suas atitudes, assim dizendo”, afirma Beatriz Rache.

Em 2018, Bolsonaro contou com 57.3% dos votos válidos da capital do Amazonas no primeiro turno (décima primeira maior votação nos estados). Em outubro de 2020, no intervalo entre as ondas de Covid-19, a aprovação do governo Bolsonaro em Manaus, segundo pesquisa do Ibope, era de 54%, a segunda maior do país, só atrás de Boa Vista-RR.

Hidroxicloroquina

É de conhecimento público que o presidente Bolsonaro defende o uso indiscriminado de cloroquina e hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19 mesmo que o medicamento simplesmente não seja eficaz contra a doença. Segundo dados da Central de Medicamentos do Amazonas (Cema), o Ministério da Saúde enviou ao Amazonas nada menos que 447.140 comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina via Forças Armadas desde o início da pandemia.

Em 5 de janeiro, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, esteve em Manaus para o lançamenbto do aplicativo piloto TrateCOV, que dentre outras coisas, serviria para distribuir mais doses dos remédios. Essa semana, um estudo publicado esta semana na revista Nature mostra que a hidroxicloroquina está associada ao aumento da mortalidade em pacientes com a doença, o que certamente contribuiu para o número de óbitos no estado.

Outro estudo

Outro estudo publicado pela revista científica Science também atribui ao governo Bolsonaro responsabilidade direta pela situação da pandemia no Brasil. O trabalho, assinado por 10 pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, de instituições como a Universidade de São Paulo, Universidade Nove de Julho, Universidade da Flórida e liderada pela demógrafa Márcia Castro, professora da Universidade de Harvard, analisou a disseminação do coronavírus entre fevereiro e outubro de 2020.

Fotos: Agência Brasil e Márcio James

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