Amazonas

Manaus ainda não deveria realizar grandes eventos com público, alertam cientistas

Com 50% da população total de Manaus com esquema vacinal contra a Covid-19 completo, a prefeitura decidiu realizar os festejos de comemoração do aniversário da cidade, reunindo dezenas de milhares de pessoas no último final de semana, além de anunciar a programação de natal. No entanto, mesmo exigindo vacinação completa para participar das festas, especialistas ouvidos pelo Vocativo afirmam que, mesmo nessas condições, esse tipo de aglomeração ainda não deveria estar acontecendo.

Segundo a prefeitura de Manaus, a realização do Boi Manaus, evento tradicionalmente promovido para comemorar o aniversário da cidade, mas que não aconteceu em 2020 em virtude da pandemia, aconteceu em 2021 “seguindo protocolos de segurança”. Para frequentar os locais, todos deveriam estar com o esquema vacinal das duas doses ou dose única contra a Covid-19.

Nas duas noites do Boi Manaus (22 e 23), aproximadamente dez mil pessoas passaram pelo sambódromo. O Circuito Cultural Manaus 352 anos, também alusivo ao aniversário da capital, recebeu mais de 15 mil pessoas em sete dias na Avenida do Samba. E não pára por aí. O prefeito David Almeida já anunciou que este ano a cidade terá o maior Natal da sua história. Mas afinal, já é momento para isso?

Ainda há risco

Mesmo com metade da população com esquema de vacinas completo, ainda há riscos. De acordo com o “Vacinômetro” municipal, 11% da estimativa do público vacinável em Manaus, mais de 210 mil pessoas, ainda não receberam a primeira dose da vacina. O Sistema Municipal de Vacinação (SMV) indicava que 279.479 pessoas já haviam passado dos prazos. Isso significa que quase meio milhão de pessoas em toda cidade ainda podem se infectar com o coronavírus e desenvolver quadros graves da Covid-19.

“O primeiro e mais importante ponto, diz respeito ao novo coronavírus, sabidamente imprevisível e capaz de surpreender dramaticamente, como temos visto ao longo da pandemia. O segundo, se deve ao grande número de pessoas não vacinadas ou com esquema incompleto. Em outras palavras, estamos falando de novas oportunidades não apenas para maior disseminação viral, como também para novas mutações”, lembra o epidemiologista e pesquisador da Fiocruz/Amazônia.

“Eu não liberaria o evento. A vacinação não é garantia de que não vai haver transmissão. A pessoa pode estar vacinada e ainda carregar o vírus até o sistema imune dela responder. Essa pessoa responde de maneira muito mais rápida e eficiente de quem não está vacinado, mas se ela estiver em uma área de grande risco de transmissão, ela pode tanto se contaminar quanto contaminar outras pessoas, levando o vírus para as suas casas”, alerta Mel Markoski, bióloga, professora de biossegurança da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e membro da Rede Análise Covid-19.

“Levando em conta que metade da cidade ainda não está vacinada, metade da cidade ainda pode desenvolver sintomas mais severos. Nesse momento, o ideal é evitar. Faz um evento simbólico e espera até a cobertura vacinal completa alcance 80% da população”, sugere Mel.

“Assim como não faz sentido falar em Lockdown nesta fase da epidemia (franca desaceleração) em Manaus, também não faz sentido falar em amplos relaxamentos, o que inclui atividades que geram intensa aglomeração como o Boi Manaus, mesmo com os supostos protocolos e precauções. Por último, o fato de as vacinas não serem infalíveis e milagrosas, em um contexto de extrema vulnerabilidade como é o caso de Manaus, o que aconteceu em 2020 e 2021, não parece ter sido suficiente para que autoridades sanitárias e população tivessem mais cautela”, explica Jesem.

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