Amazonas

Estudo da proxalutamida no Amazonas é contestado pela comunidade científica internacional

Depois de se tornar alvo de investigação pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), o estudo da proxalutamida em pacientes com a Covid-19 em Manaus está sendo contestado na revista científica Science

Depois de se tornar alvo de investigação pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), o estudo da proxalutamida em pacientes com a Covid-19 no Amazonas está sendo contestado pela comunidade científica internacional. Em matéria na revista científica Science, tanto o medicamento, quanto o ensaio realizado na rede hospitalar Samel são alvos de desconfiança e questionamentos.

Os resultados provisórios do estudo, anunciados em uma entrevista coletiva em março, levaram o presidente Jair Bolsonaro a promover a proxalutamida como uma cura milagrosa e estimulou os médicos brasileiros a administrar medicamentos semelhantes aos pacientes.

Mas muitos cientistas estão cautelosos. Não bastasse a investigação no Conep, os principais periódicos médicos rejeitaram um artigo sobre o estudo, e seu autor principal, Flavio Cadegiani, um endocrinologista da empresa de biotecnologia Applied Biology, que é sócia da Samel, já havia anunciado medicamentos contra a Covid-19 ineficazes, como a ivermectina e a azitromicina. E para muitos pesquisadores, as afirmações sobre a proxalutamida simplesmente parecem implausíveis.

“Esses resultados são bons demais para ser verdade”, disse Eric Topol, vice-presidente executivo do Scripps Research Translational Institute. “Quase não há intervenções médicas na história da medicina que tenham essa magnitude de benefício, nem menos com a Covid-19”, afirma, em entrevista à Science. A publicação também contesta o fato da Applied Biology ser uma empresa de tratamento de queda de cabelo com sede na Califórnia, onde Cadegiani é diretor clínico.

Os detalhes do ensaio ocorrido em Manaus também é alvo de dúvidas. Numerosos pesquisadores, incluindo Topol e o farmacêutico clínico de doenças infecciosas da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, alertam que o número de mortes no estudo é surpreendente. No grupo do placebo, a taxa de mortalidade foi de 49,4%, o que fez o medicamento parecer melhor, mas é muito maior do que os menos de 10% de pacientes com a Covid-19 hospitalizados que morreram nos Estados Unidos. 

A velocidade em que os resultados foram divulgados, também é suspeita. Pra se ter uma ideia, o estudo começou no início de fevereiro e já teve resultados provisórios divulgados em março. “[Recrutar] e monitorar cerca de 600 pacientes em um estudo em menos de 30 dias é inacreditável”, diz Ana Carolina Peçanha, pneumologista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Cadegiani e a diretoria da Samel alegam que as críticas derivam do fato de que Bolsonaro e outras autoridades elogiaram a droga. Nas notas divulgadas na imprensa, os autores do estudo afirmam que os jornalistas “politizam” a questão, mas não respondem as críticas feitas ao ensaio.

Os resultados completos do estudo feito em Manaus foram enviados para o The New England Journal of Medicinena, mas artigo foi rejeitado. Quando Cadegiani perguntou o motivo, Eric Rubin, o editor-chefe da revista, respondeu por e-mail: “É simples – os resultados são inesperadamente bons. Por serem bons, os revisores acharam que os dados precisavam de uma revisão primária”, justificou. Outra revista especializada, a Lancet, também rejeitou o artigo.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: