Amazonas Covid-19

Dois anos de pandemia no Amazonas: a paz dos cemitérios

O dia 13 de março de 2022 marca dois anos da confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Amazonas. O primeiro resultado positivo aconteceu dois dias depois da declaração da emergência pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e marcou, da maneira mais trágica possível, a história do estado.

O momento atual é inegavelmente melhor. Os números hoje são muito mais administráveis do que nas três ondas da doença, seguindo uma tendência mundial de surgir uma luz no horizonte da pandemia. No entanto, ela ainda não acabou. E o mais importante: é preciso preservar na memória do que aconteceu aqui e punir os responsáveis.

Os números do Amazonas, especialmente Manaus, ainda impressionam o mundo, como já mostramos aqui em diversas oportunidades. Foram nada menos do que 578.096 casos oficiais e 14.141 mortes. Mas isso é apenas o que os órgãos oficiais conseguiram captar. O número real é, com certeza, drasticamente maior, diante da baixa quantidade de testes realizados no país e no estado.

Mas a condição atual é consideravelmente melhor. Na segunda e pior onda da doença, no primeiro trimestre de 2021, chegamos a ter 100 mortes e 200 sepultamentos em Manaus em um único dia, além de 2200 pessoas internadas, fato que causou a tragédia do Colapso do Oxigênio na capital do Amazonas. Hoje, temos apenas 41 pessoas internadas e vários dias sem óbitos no estado.

Se a situação melhorou, é preciso deixar claro o papel da vacinação pra entender a nossa tragédia. Com apenas 2.530.473 de pessoas com esquema vacinal completo, ou 60% da população total do estado, ainda há 40% ou 1.683.085 que ainda podem ser infectadas. No entanto, apesar de tantas flexiblizações e vida praticamente normal, a recente terceira onda da doença, em janeiro, não fez nem de longe o mesmo estrago em vítimas fatais do que janeiro de 2021.

Um dos motivos, é claro, é a vacinação, que salva milhares de vidas todos os dias. Isso é indiscutível. Mas só ela não explicaria o motivo da nossa tranquilidade atual. Há apenas três explicações plausíveis: 1) A chamada imunidade híbrida (ter Covid-19 e ser vacinado com uma ou duas doses) está segurando o vírus; 2) Esse grupo de suscetíveis está sendo protegido pelos demais e medidas como as máscaras; 3) A maior parte dos suscetíveis morreu nas duas ondas anterior;

Parece muito seguro afirmar que o Amazonas só se encontra hoje em uma situação tranquila porque, além de termos vacinas, dezenas de milhares de mortes evitáveis aconteceram. E elas aconteceram por incompetência e omissão. E não cabe aqui culpar apenas o presidente Jair Bolsonaro, que tem sim, muita responsabilidade pelo que aconteceu. Mas veja, se Bolsonaro foi presidente do país todo, por que só o Amazonas sofreu tanto?

As autoridades públicas do estado (governo, prefeitura, legislativo e judiciário) tem papel central nessa tragédia. Eles são os responsáveis, ao sempre se omitir diante da crise, postergando medidas como testagem em massa, lockdown e exigência de comprovação de vacina para frequentar locais públicos. E eles precisam responder por isso. Vale lembrar sempre que, no auge da primeira onda, o governador do Amazonas se envolveu em um escândalo de corrupção.

Não sabemos quando a pandemia, de fato, vai acabar. E uma vez acabada, quando será seguro tirar máscaras. Não é possível saber se não teremos novas variantes que possam causar novas tragédias. Mas a pior parte é saber que, se isso acontecer, estamos novamente por conta própria. A única constante nessa pandemia foi a incompetência das nossas autoridades. Os números de casos em janeiro deste ano foram impressionantemente altos. Se, por um azar do destino, não tivéssemos vacinas, teríamos tido saudades de janeiro de 2021. Felizmente as temos.

Todos estão cansados. E não vêem a hora de deixar esse pesadelo de lado. Foi compreensível e a alegria das pessoas com o anúncio do retorno do Festival Folclórico de Parintins, ainda que longe da maneira ideal. A boa notícia é que esse dia está chegando, ainda que não seja possível cravar uma data. Mas é sempre importante lembrar o que aconteceu e está acontecendo no Amazonas.

Não vivemos um cenário de vitória da superação diante da adversidade. Somos sobreviventes de um massacre. E um massacre que não precisava ter acontecido, bastava o mínimo de competência. Essa paz que estamos sentindo agora é a paz dos cemitérios.

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