Amazonas

Covid-19: em quarenta dias de 2021, Manaus tem quase a mesma quantidade de mortes de 2020

Só nos primeiros dias de 2021, número de casos aumentou em 56%

Manaus tem quase a mesma quantidade de mortes por Covid-19 nos primeiros dias de 2021 do que em todo o ano passado. É o que revela levantamento da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), apresentado em transmissão nas redes sociais nesta segunda-feira (08/02) e disponível no site do órgão. Se a média de óbitos seguir acima de cem, como tem sido registrado ao longo de janeiro, a cidade deve ultrapassar essa marca nos próximos dias.

Em todo o ano de 2020, a capital do Amazonas registrou 82.675 casos da doença. Só entre primeiro de janeiro e esta segunda-feira (08/02), já foram diagnosticados 45.288 ocorrências, ou seja, 56%, mais da metade de todo o ano passado. Em relação aos óbitos, Manaus teve, ao longo de 2020, 3.388 mortes. Nos primeiros 40 dias de 2021, são 2.959 mortes, 429 mortes a menos do que em todo o período de 13 de março (data da primeiro caso confirmado na cidade) até 31 de dezembro.

Segundo a FVS-AM, em dezembro de 2020, a média de óbitos no Amazonas era de 17 por dia. Em meados de 2021, o número saltou para 126 por dia. Embora os números de Manaus sejam impressionantes, algumas regiões do interior também passam por dificuldades. São Gabriel da Cachoeira (a 852 km de Manaus), cidade com maior população indígena do país, também sofre neste momento com aumento no número de mortes pela doença.

A falta de medidas de monitoramento de casos e a variante P.1, detectada na cidade, são apontados como fundamentais nessa explosão de casos e óbitos.

Sinais ignorados

Embora esse aumento exponencial tenha sido observado no final de dezembro, os sinais de piora vinham sendo observados bem antes disso. Após o primeiro pico de casos, registrado entre abril e maio de 2020, o número de internações pela doença caiu consideravelmente entre agosto e setembro, quando chegou a registrar 185 pessoas internadas, entre leitos clínicos e de unidades de terapia intensiva (UTI). Foi quando alguns defenderam a tese de que Manaus atingira a chamada “imunidade de rebanho” pela doença, conceito completamente rechaçado por especialistas.

Porém, na metade de outubro, surgiram os primeiros sinais de perigo, quando esse número internados dobrou. Dois meses depois, em dezembro, triplicou, chegando a exatos 555 em 22 de dezembro. Essa época de maior movimentação no comércio para as compras de Natal, além das próprias festas e confraternizações de final de ano, é considerada crítica para a disseminação do novo coronavírus.

Mesmo ciente da situação, a ponto de cancelar a edição especial de novembro do Festival Folclórico de Parintins justamente por causa do aumento de casos, o governo do Amazonas relutou em adotar medidas de restrição de movimentos. Só no dia 23 de dezembro, com a nova onda já consolidada, o governador Wilson Lima suspendeu atividades econômicas, mas voltou atrás por pressão de empresários. Foi necessária intervenção da justiça para que atividades não-essenciais fossem suspensas.

As variantes

Outra explicação apontada para esse cenário é a chamada variante P.1, identificada pela primeira vez em 05 de janeiro no Japão em viajantes vindos do Amazonas. Essa versão do novo coronavírus possui mutações que especialistas acreditam ser capazes de tornar o vírus mais transmissível e de escapar da imunidade produzida por outras infecções do novo coronavírus. Não por acaso outros países como a África do Sul e a Inglaterra possuem variantes com as mesmas características e passam por dificuldades semelhantes.

“O perfil epidemiológico do Reino Unido se assemelha ao de Manaus, tanto em casos quanto em óbitos. São cenários que podem ser explicados por uma série de fatores, detre elas, as novas variantes”, explicou Cristiano Fernandes da Costa, diretor-presidente em exercício da FVS-AM. Atualmente a Grã-Bretanha luta para conter outra variante, a B.1.1.7, que possui características similares à da P.1.

Cenário propiciou surgimento da P.1

Muitos ainda questionam se a variante deu origem ao novo aumento de casos ou se foi o aumento de casos que gerou a nova variante. Diversos cientistas tem alertado que locais onde o vírus circula livremente são mais propícios para o surgimento de versões do vírus que são mais transmissíveis e escapam de imunidade. O mais provável é que ambas as situações estejam associadas.

“[Essa situação é causada] um pouco pela variante e mais, eu diria bem mais, pelo o aumento violento de casos por conta de tudo que vimos acontecer no fim de ano, com a população e as autoridades sanitárias despreocupados com a pandemia. Obviamente que o surgimento de novas variantes é facilitado quando vc faz o que Manaus fez, deixar o vírus correr livremente”, explicou Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz.

Foto: Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom)

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