Amazônia

Buscas por desaparecidos só começaram 56 horas após o ocorrido, revela UNIVAJA

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari fez sérias acusações de negligência contra autoridades na condução do caso do desaparecimento do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira e revelou quadro de extremo perigo na região

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA) convocou uma coletiva de imprensa na tarde desta terça-feira (07/06/2022) para falar sobre o desaparecimento do jornalista Dom Philips, correspondente do The Guardian no Brasil, e do indigenista Bruno Pereira da Fundação Nacional do Índio (Funai), ocorrido neste domingo, no Vale do Javari, oeste do Amazonas. A entidade fez sérias acusações de negligência contra autoridades públicas do país na condução do caso.

Segundo o assessor jurídico da UNIVAJA, Yura Marubo, as buscas com efetivo de forças federais só começou às 16h desta terça-feira (07/06/2022), mais de 56 horas depois do desaparecimento da dupla, que foi vista pela última vez na região entre a comunidade Ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte, no Vale do Javari, a oeste do Amazonas.

Marubo afirmou ainda que até esse horário, nenhuma aeronave havia se deslocado até o local. A afirmação contraria a versão das autoridades, de que as buscas haviam começado ainda na segunda-feira (06/06/2022). Segundo o assessor jurídico, as autoridades federais só agiram quando o caso ganhou repercussão internacional, inclusive sob pressão do governo britânico. Ainda segundo o representante, o exército só começou a se movimentar quando foi alvo de ação civil pública pela Defensoria Pública da União (DPU). “O exército só agiu porque foi obrigado”, afirmou o assessor.

Preocupação cresce

Com o passar do tempo, a ausência de novidades e uma série de circustâncias aumenta a preocupação com o destino dos dois desaparecidos. Um dos principais motivos é o fato de Bruno Pereira ser um profundo conhecedor da região, tendo trabalhado por anos à frente da Funai, o que faz a UNIVAJA descartar a hipótese de que ambos estejam perdidos na floresta.

Bruno, no entanto, estava licenciado vivendo em Brasília há mais de um ano, tendo sido deslocado para o Amazonas justamente para acompanhar o jornalista britânico Dom Philips em uma série de entrevistas na região. Seu trabalho à frente da Funai consistia em atribuições que deveriam ser de outros órgãos do poder público.

“A função dele [Bruno] era praticamente de polícia. Ele investigava, prendia, destruia equipamentos apreendidos. Ele fazia a função que deveria ser do estado”, lembrou Yura Marubo. Segundo ele, o incidente chamou a atenção da opinião pública, mas está longe de ser o primeiro da região.

Histórico de perigo

As circunstâncias anteriores ao desaparecimento e o clima de constante tensão também despertam uma série de preocupações. A primeira delas é justamente o destino do sucessor de Bruno na Funai. No dia 07 de setembro de 2019, Maxciel Pereira dos Santos foi morto com dois tiros na cabeça. Ele tinha chefiado por cinco anos a coordenação da Funai do Vale do Jaguari e a base onde ele trabalhava já tinha sido atacada.

Vale lembrar que Bruno Pereira também fora ameaçado durante sua passagem na Funai, antes da sua licença. Segundo Yura Marubo, seu trabalho na região o fez colecionar inimigos, nacionais e estrangeiros. “Com a ausência do Estado, a criminalidade tomou conta da região. Seu trabalho criou inimigos brasileiros, peruanos e colombianos. Antes havia os traficantes e os mineradores, mas agora surgiram também os madereiros”, afirmou.

Negligência

Marubo revelou ainda que aconteceram várias reuniões entre a UNIVAJA e os órgãos de segurança pública do estado e da União, nas quais foram relatadas as ameaças feitas a membros do grupo, funcionários da Funai, incluindo o próprio Bruno Pereira. Segundo ele, nada foi feito de concreto.

Para o assessor da UNIVAJA, o sucateamento dos órgãos de controle e fiscalização ambiental contribuíram para o cenário de extremo perigo no Vale do Javari. Segundo Yura, diversos especialistas em Amazônia que componham os quadros da Funai foram deslocados de suas funções por conveniência política, deixando apenas funcionários inexperientes em funções importantes.

As próprias condições da viagem de Bruno e Dom também foram afetadas com essa falta de estrutura. Segundo Marubo, o barco utilizado pela dupla foi um barco 40 HP, quando o recomendado para a região é o de 200 HP, muito mais veloz, o que ajuda em caso de perseguição por agressores.

2 comentários

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: