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A visão distorcida da sociedade sobre os povos indígenas no Brasil

Uma extensa pesquisa sobre as percepções da sociedade a respeito dos povos indígenas no Brasil na última década, está sendo lançada esta semana, em meio ao Abril Indígena. A conclusão é de que existe uma gigantesca diferença entre públicos que estão engajados em temas relacionados aos povos indígenas e o público em geral.

Conduzido ao longo de 2021, com a coordenação da pesquisadora Cristiane Fontes, da Amoreira Comunicação, o projeto contou ampla análise documental e 350 entrevistas em profundidade com diferentes segmentos da sociedade brasileira e detalhado mapeamento sobre a evolução das narrativas sobre povos tradicionais nas redes sociais. A íntegra do estudo está disponível no site Narrativas Ancestrais, Presente do Futuro.

Desconhecimento da realidade

As entrevistas com os públicos não engajados, conduzidas pela empresa de pesquisa e de inteligência de mercado Ipsos, revelaram um profundo desconhecimento e distanciamento da importância e da realidade dos indígenas na atualidade e também antagonismo, desinteresse e rejeição aos direitos indígenas, especialmente o direito à terra. 

Esses direitos tendem a ser vistos por esses públicos como em “contraposição” aos direitos de outros segmentos da população geral — a perspectiva, portanto, é de um espaço de disputas em que, “se o outro ganha, sou eu quem perco”. “Esse resultado é preocupante, uma vez que esses públicos são tomadores de decisão na economia e na política brasileira e suas percepções moldam o debate público no Brasil sobre o tema”, diz a coordenadora do projeto.

A conexão dos povos indígenas com o meio ambiente é, em geral, reconhecida pelos públicos não engajados, mas seus modos de vida tendem a ser associados a pobreza, necessidade de auxílios governamentais e carências em geral e não outras maneiras de estar no mundo, cada vez mais valorizadas pelos públicos engajados como respostas à crise climática.

Os públicos não engajados ainda não conhecem ou compreendem a importância de estudos e do reconhecimento internacional por parte de organismos como o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da centralidade dos direitos territoriais dos povos indígenas para a agenda climática. Perguntados sobre o interesse internacional pelos povos tradicionais no Brasil, a maioria não concordou — creditando tal interesse a preocupações com o meio ambiente.

“Quando falamos sobre o protagonismo do Brasil na agenda climática global ainda precisamos dar muito mais visibilidade ao papel dos povos indígenas, assim como ampliar as discussões sobre modelos de prosperidade econômica para o país que incluam a gestão ambiental desses territórios, que já estiveram entre as políticas públicas do país desenvolvidas com apoio da cooperação internacional, assim como levar em consideração a crescente valorização dos indígenas como parte da identidade nacional e do crescente interesse, especialmente entre os mais jovens, pela nossa ancestralidade e em recontar a nossa história, afirma Cristiane Fontes.

Abismo entre engajados e não engajados

Ainda que previsíveis e esperadas, as diferenças entre as percepções dos indígenas e públicos engajados e as dos públicos não engajados são gigantescas.

Entre os públicos engajados, a auto representação, o protagonismo e o processo de ocupação de espaços com vozes dos próprios indígenas a partir de uma organização inédita do movimento indígena, do aumento expressivo de estudantes indígenas nas universidades, da diversidade de influenciadores digitais e comunicadores indígenas nas redes sociais e da emergência de artistas e pensadores indígenas foram descritos como grandes novidades da última década.

Sônia Guajajara, Ailton Krenak, Jôenia Wapichana, Cacique Raoni e Davi Kopenawa foram descritas como as principais vozes indígenas deste período, por motivos que incluem a inserção na vida político-partidária, a publicação de livros icônicos e best sellers com críticas poderosas ao modelo de desenvolvimento da sociedade brasileira e global e as alianças estabelecidas com líderes e artistas no Brasil e internacionalmente.

O protagonismo de lideranças indígenas femininas no movimento indígena também foi uma mudança celebrada pelos entrevistados e destaque da análise sobre os conteúdos nas redes sociais. Os resultados da pesquisa sobre o debate nas redes sociais apontam para a centralidade de perfis indígenas e protagonismo crescente de mulheres ativistas, a exemplo de Sônia Guajajara, Célia Xakriabá e Alice Pataxó, cujo perfil passou a ser o com maior alcance potencial no debate sobre povos indígenas no Twitter em 2021, por exemplo.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) foi a organização mais destacada pelos públicos engajados, seguida pelo Instituto Socioambiental (ISA), considerada uma organização descrita como a principal referência e fonte de informação de formadores de opinião de diversos segmentos.

O Acampamento Terra Livre (ATL) foi apontado por esses públicos como o principal evento marco da última década e o que tem gerado algumas das imagens mais icônicas de luta e resistência, como as de indígenas ocupando espaços icônicos da capital política do país.

Já entre os públicos não engajados, a representatividade ainda foi atribuída a organizações como a Funai, as ONGs e lideranças religiosas, raramente foram citados nomes específicos de lideranças indígenas e, entre esses segmentos, a imagem dos povos indígenas foi mais associada à vulnerabilidade e não à força.

Visão distante

A concepção sobre os povos indígenas entre os públicos não engajados é formada a partir de fragmentos de informação na grande imprensa, às vezes, apenas títulos de reportagens, com pouco aprofundamento, e posts nas redes sociais, que a partir de 2018 passam a contar com contranarrativas produzidas pelo presidente Jair Bolsonaro e aliados, como apontam os dados da DAPP/FGV.

Para os públicos engajados, apesar da produção jornalística ainda ser muitas vezes “pouco ou mal contextualizada”, ou “distorcida”, especialmente quando tratam do direito à terra e conflitos fundiários, houve aumento e melhoria da cobertura da grande imprensa nos últimos anos não só, mas principalmente porque o presidente Jair Bolsonaro colocou esse assunto no centro do debate político do país.

Mesmo entre os públicos não engajados foi quase consenso que, sob o governo do atual presidente da República, os ataques de grileiros, garimpeiros e fazendeiros e a vulnerabilidade dos povos indígenas aumentaram ainda mais. Com Jair Bolsonaro reeleito, a regressão prevista para os povos indígenas aponta para um cenário, segundo os entrevistados, de assimilação cultural como possibilidade provável e muito próxima e, até mesmo, de extermínio.

Educação e reparação

Para muitos dos entrevistados dos públicos engajados/interessados, o respeito e a valorização dos povos indígenas pela sociedade brasileira só será possível após longos e massivos investimentos em educação, mudanças radicais no sistema político e reparação do Estado brasileiro.

Como essas são medidas de longo prazo e hoje distantes da realidade do Brasil, a pesquisa também inclui uma série de medidas que podem ser adotadas a curto prazo, entre as quais: ampliar a promoção de encontros, debates políticos e atividades socioculturais de indígenas com não-indígenas; a produção de campanhas e de materiais didáticos, testando diferentes linguagem simples e estéticas e sem jargões e linguagem confrontacional; traduzir e explicar o apoio à causa indígena por meio de vozes relevantes no cenário internacional; expandir o número de apoiadores entre diferentes segmentos da sociedade, a exemplo do que ocorreu com artistas nos últimos anos; e obter compromisso com as pautas indígenas entre candidaturas não indígenas nas próximas eleições.

“Os achados apontam as barreiras, mas também caminhos para avançarmos, apesar de um contexto completamente desfavorável e, de maneira geral, de uma visão bastante atrasada no país e descolada de tendências internacionais sobre não apenas os desafios, mas as novas oportunidades e os novos modelos de prosperidade para a humanidade em tempos de colapso ecológico e crise climática. A pesquisa com os públicos não engajados mostrou que, quanto mais informados, mais conscientes são da diversidade e da complexidade do tema e mais interessados em compreender melhor a realidade dos povos indígenas”, conclui Cristiane Fontes.

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