Amazonas Opinião

A fanfic de parte da imprensa amazonense

A Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) da Polícia Civil do Amazonas anunciou nesta terça-feira (31/05/2022) a solução para o crime do assassinado da servidora federal Silvanilde Ferreira Veiga (58 anos). E, após a exposição precipitada da filha e do genro como possíveis participantes do crime, parte da imprensa amazonense teve de noticiar a prisão do que tudo indica ser o verdadeiro assassino, que aparentemente agiu sozinho e por motivações pessoais. O caso só mostra que, para fazer jornalismo sério, é preciso mais do que um selo.

O caso

Silvanilde foi morta no último dia 21 de maio, em seu apartamento, localizado em um condomínio no bairro Ponta Negra, zona oeste de Manaus. Ao contrário do que muitos veículos de imprensa do estado noticiaram, o vigilante Caio Claudino de Souza, 25, foi preso pela autoria do crime.

De acordo com o delegado Ricardo Cunha, titular da DEHS, a prisão ocorreu na casa do infrator, no bairro Coroado, zona leste de Manaus. “Caio foi chamado para reforçar a segurança do condomínio onde a vítima morava, porque seriam realizadas festas de grande dimensão no local. Na ocasião do crime ele estava sob efeito de entorpecentes e planejava roubar os pertences da vítima. Ele também tentou transferir dinheiro da conta de Silvanilde por meio do Pix. Caio roubou o aparelho celular da mulher, que posteriormente foi jogado nas proximidades do bairro onde o crime ocorreu”, disse.

A delegada Marília Campello acrescentou que Silvanilde foi alvejada com mais de 12 golpes de arma branca, atingindo, inclusive, a sua garganta, o que ocasionou a sua morte. O suspeito do crime, segundo a delegada, negou a participação de outras pessoas no crime.

“Havia muitas suposições sobre a autoria do crime, no entanto, o indivíduo foi ouvido pelas equipes policiais e negou qualquer ligação com outros possíveis autores. Ele disse que agiu na intenção de subtrair bens da vítima para comprar entorpecentes”, disse a delegada. Caio responderá por latrocínio e ficará à disposição da Justiça.

O que nos cabe investigar

Como é de costume de boa parte da imprensa amazonense, o crime dominou as manchetes e noticiários por semanas, ainda que o valor de interesse público da notícia fosse mínimo. Claro, a morte trágica e violenta de uma servidora pública é algo muito importante, mas não menos do que a de uma moradora de rua ou trabalhadora informal.

O valor da vida não pode ser mensurado pelo emprego da vítima. Ou se dá o mesmo peso para todos ou para nenhum. Nesse caso, o papel da investigação cabe apenas à polícia, não à imprensa. Se o jornalista quer usar seu tempo pra investigar algo, que faça onde tem possibilidade de fazê-lo sem atrapalhar a investigação, como o uso de verbas pelo poder público. Ou de empresas que conduzem estudos clínicos fraudulentos com medicamentos em seres humanos.

Irresponsabilidade

Na ânsia por audiência e visualizações, muitos veículos divulgam sem qualquer filtro ou apuração, conteúdos e suspeitas repassadas por membros da polícia e ministério público que não tem qualquer compromisso com a ética jornalística, até porque não são jornalistas. Isso quando não estão interessados nos olofotes para promover suas carreiras. A Operação Lava Jato cansou de fazer isso, por exemplo, e vimos o que aconteceu.

Diversas notícias falaram sobre uma suposta dívida da filha de Silvanilde de R$ 300 mil para quitar dívidas da empresa do namorado. O empréstimo estaria comprometendo a renda de Silvanilde, já que o genro não realizou o pagamento das parcelas como fora acordado. E só. A informação ficou solta, fazendo com que o leitor fosse induzido automaticamente a criar teorias sobre a participação da filha no assassinato. Até na minha família eu ouvi coisas do tipo.

Outros quatro veículos gastaram seu tempo pra ressaltar o tamanho dos depoimentos de filha e namorado, como se isso, de alguma forma, pudesse configurar algo suspeito. Agora, que o crime aparentemente foi solucionado, como fica a situação do casal? Encerrado o caso e comprovada sua inocência (o que por si só é um absurdo, já que o ônus da prova é de quem acusa), vão processar esses veículos de imprensa? Deveriam. E os autores das matérias deveriam – eles sim – ir à justiça.

E não, não foram veículos bolsonaristas ou apócrifos quem fizeram as textos com insinuações que atiçam a opinião pública contra pessoas aleatórias com base em achismo, mas veículos “grandes”, “conceituados”, alguns até de alcance nacional. Alguns inclusive exibem em seus cabeçalhos um selo que diz “É Fato! Jornalismo profissional com qualidade”. Risível se não fosse trágico.

O estado democrático de direito não escolhe dia ou hora pra ser colocado em prática. Ele vale pra todos, do juiz federal ao sem teto, em todo momento, mesmo quando trabalhamos por audiência e engajamento na internet. Se um familiar pode ter participação em um crime, cabe à polícia e não à imprensa trazer provas irrefutáveis disso, visto que é o policial que responderá se estiver errado.

Isso significa que, se o jornalista tiver acesso a alguma prova, não pode publicar? É claro que pode. Mas antes de fazer qualquer coisa, é preciso pesar as consequências do que se faz: aquilo é realmente algo concreto? Vai gerar a destruição da reputação de uma pessoa potencialmente inocente? Você vai se responsabilizar pelo seu material? Se você não sabe a resposta, fique em silêncio. O jornalista não está acima da lei. A integridade física e moral das pessoas está acima dele.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: