Contexto

A ascensão da extrema-direita no mundo

No último dia 26 de setembro, a ultraconservadora Giorgia Meloni venceu as eleições e deve se tornar a primeira mulher premiê da Itália no comando do governo pelo partido descendente do fascismo compondo o governo mais à direita desde a Segunda Guerra Mundial. Uma semana depois, Jair Bolsonaro e dezenas de apoiadores também da extrema-direita surpreenderam com uma votação expressiva nas eleições gerais do Brasil no dia 02 de outubro.

A ascenção de grupos e lideranças de extrema-direita têm acontecido em diversas partes do mundo, com consequências para toda a geopolítica mundial. Donald Trump nos Estados Unidos, Recep Erdoğan da Turquia, Viktor Orbán, da Hungria, e Andrzej Duda, da Polônia são alguns dos líderes dessa mesma vertente política que governaram ou ainda governam seus respectivos países. Em comum a todos, alguns pontos fundamentais: uma agenda ultraliberal na economia, forte apelo religioso-nacionalista e discursos contra minorias, em especial a comunidade LGBTQIA+. Alguns, inclusive, usam o mesmo lema: “Deus, pátria, família e liberdade”.

Mas afinal, por que esses grupos políticos têm encontrado tanto apoio popular em países tão distintos pelo mundo todo? O que explica que mesmo governos que tenham enfrentado fortes crises econômicas, como é o caso do Brasil ou péssima gestão da pandemia de Covid-19 (Brasil novamente e EUA), ainda se mantenham com forte aprovação popular? Para responder essas perguntas, o Vocativo conversou com Carolina Pavese, professora de relações internacionais da ESPM São Paulo e Doutora em Relações Internacionais pela London School of Economics.

Crises econômicas

Todos os países citados compartilham características em comum. A primeira delas é que eles ainda são considerados, pelo menos até o momento, democráticos. Além disso, todos atravessam ou atravessaram recentemente uma severa crise econômico-social. Essa instabilidade atinge diretamente as camadas mais pobres de cada país, gerando um forte sentimento de insatisfação.

“A ascenção da extrema-direita acontece em países que têm em comum elementos que refletem a perda de credibilidade na política convencional, a perda de credibilidade da esquerda, da direita, mas também uma crise do modelo econômico e de sociedade neoliberal”, explica Carolina Pavese.

De fato, Brasil (de 2015 até hoje), Itália (pós 2008), EUA (pós 2008) são alguns dos exemplos de nações que enfrentaram sérias crises financeiras que refletiram no estado de bem estar social de suas populações. Com o tempo, o efeito colateral foi o caminho aberto para uma ala política mais radical.

Nesse caso, outro elemento importante entra em cena: imigrantes. Países europeus e os EUA há anos debatem suas políticas migratórias. Nesse contexto, é comum políticos de extrema-direta adotarem um discurso xenofóbico que atribui os problemas sociais como a diminuição de postos de trabalho, a sobrecarga dos serviços públicos e até o aumento na criminalidade à maior presença de imigrantes.

Insatisfação com a política tradicional

Outra questão a ser ponderada é a incapacidade dos atores políticos tradicionais lidarem com problemas sociais. Esse cenário se acentua principalmente com a crise de 2008 – que teve origem nos EUA – onde este modelo neoliberal não consegue mais promover melhora da qualidade de vida da população. As respostas que esses governos deram não satisfizeram as demandas da população em geral em relação aos benefícios econômicos.

“Boa parte da população não acessa os lucros que esse modelo deveria gerar. E isso aumenta o sentimento de insatisfação com esses governos. O que leva a uma busca por alternativas mais extremistas. Mas esses blocos também subestimam as demandas e as questões sociais, culturais e políticas dessas parcelas da população que não compõe a elite. E há sim, uma crise na democracia. Os partidos dominantes, tradicionais, não têm dado resposta a essas mudanças da sociedade que passa a se relacionar de uma forma diferente com a política”, afirma Pavese.

Coordenação internacional

As lideranças políticas de extrema-direita afirmam estarem lutando contra o que chamam de “globalismo”, o que justificaria, segundo eles, suas posições políticas. O ex-presidente dos EUA, Donald Trump e o mentor da extrema-direita no Brasil, Olavo de Carvalho, pregavam publicamente contra o que acreditavam ser essa prática.

A definição do termo globalismo não é precisa, mas seriam basicamente ideias opostas ao conservadorismo, nacionalismo e patriotismo. E na visão desses líderes, esse movimento é, como o próprio nome diz, mundial. Justamente por isso – e apesar de ser contra a existência de uma cadeia global ideológica – a extrema-direita atual é bastante coordenada internacionalmente.

“Esses mesmos movimentos se beneficiam da globalização, ao forjar uma coordenação internacional, criando uma rede de cooperação, de retroalimentação justamente para que haja esse efeito capilar, essa presença maior. Como eles estão isolados de outros partidos nacionais, eles buscam esse respaldo via internacional. É um paradoxo”, explica a professora Carolina Pavese.

Redes sociais

Não há como falar da ascenção da extrema-direita sem mencionar a internet. Foi justamente o compartilhamento de métodos de militância adaptados para novas tecnologias que permitiu, por exemplo, a manipulação em massa da opinião pública durante as eleições presidenciais de 2016 nos EUA e 2018 no Brasil. Essa coordenação internacional só foi possível pela existência da internet, mais precisamente uma parte específica dela.

“As redes sociais são um elemento central da extrema-direita, embora a gente fale pouco sobre isso. A interações desses grupos não-estatais fica muito facilitada com as redes, que permitem uma conexão direta entre eles, sem necessariamente passar pela diplomacia do Estado”, afirma Pavese.

A especialista em relações internacionais lembra que esse tipo de ação conjunta não acontece exclusivamente dentro da extrema-direita. Ela citou ainda os exemplos de movimentos como o MeToo (que trata de abuso sexual), o BlackLivesMatter (racismo) e a Primavera Árabe (emancipação de povos no Oriente Médio).

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