Manaus, 20 de setembro de 2026 – O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) contratou duas empresas por R$ 584,9 milhões para executar serviços de melhoramento no pavimento de 123,4 quilômetros da BR-319/AM. Os contratos foram assinados pela Superintendência Regional do DNIT no Amazonas e publicados no Diário Oficial da União (DOU) de sexta-feira, 18.
Os serviços abrangem o trecho entre os quilômetros 346,2 e 469,6 da rodovia, dividido em dois lotes. A maior parcela, de R$ 402,4 milhões, ficou com a LCM Construção e Comércio S.A., para os 86,9 quilômetros entre os km 346,2 e 433,1; outros R$ 182,4 milhões foram contratados com a Construtora Meirelles Mascarenhas Ltda., para os 36,5 quilômetros seguintes, até o km 469,6.

As duas obras têm vigência prevista até 17 de fevereiro de 2029. Segundo os atos publicados pelo DNIT, o objetivo é executar serviços de melhoramento no pavimento, intervenção que vai além da manutenção rotineira e envolve a recuperação da estrutura da pista para as condições previstas no projeto rodoviário.
R$ 917,4 milhões contratados em três meses
Os R$ 584,9 milhões dos dois novos contratos integram um volume maior de recursos destinados à BR-319 em 2026. Entre julho e setembro, o levantamento dos atos publicados no DOU identificou quatro contratos, que juntos chegam a R$ 917,45 milhões para obras e serviços de engenharia na rodovia. O valor corresponde exclusivamente aos quatro contratos e não inclui recursos orçamentários que ainda não estejam vinculados a uma contratação.
Além dos dois contratos assinados em setembro, o DNIT havia contratado em julho, por R$ 3,4 milhões, a elaboração dos projetos básico e executivo para a restauração e adequação da capacidade de um trecho de 61,6 quilômetros, entre os km 52,60 e 114,20. Em agosto, outro contrato, de R$ 329,1 milhões, foi firmado para a elaboração de projetos e execução do remanescente das obras de reconstrução de outro trecho da rodovia.
Além dos contratos, o Governo Federal autorizou em setembro um crédito suplementar de R$ 10 milhões para a ação de construção de trecho rodoviário entre Manaus e a divisa do Amazonas com Rondônia, na BR-319. O recurso foi classificado como investimento no orçamento do Ministério dos Transportes e do DNIT.
A BR-319 liga Manaus à divisa do Amazonas com Rondônia e é uma das principais conexões terrestres entre a capital amazonense e o restante do País. Os atos analisados mostram que os recursos contratados em 2026 envolvem tanto a preparação de projetos de engenharia quanto a execução de obras de recuperação e reconstrução.

Empresas têm histórico de investigações
A LCM Construção e Comércio S.A. passou a integrar, em dezembro de 2025, um processo administrativo instaurado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para apurar suspeitas de cartel em licitações de obras e serviços de engenharia rodoviária. A investigação, que abrange fatos ocorridos entre 2016 e 2024, envolve 16 empresas e 15 pessoas físicas e teve origem em elementos identificados pelo Cade em licitações do DNIT e da Codevasf.
Segundo o Cade, entre as estratégias sob investigação estão propostas de cobertura, supressão de propostas e acordos para subcontratação de empresas que participaram dos mesmos certames. Reportagem publicada em dezembro de 2025 pelo UOL informou que a LCM era apontada na investigação como líder do grupo, mas essas informações correspondem a uma apuração ainda em curso, e não a uma condenação administrativa definitiva.
A Construtora Meirelles Mascarenhas Ltda. também aparece em registros anteriores relacionados a obras rodoviárias. Em junho de 2021, o Ministério Público Federal recomendou à empresa a correção de pendências apontadas pelo Ibama em um projeto de recuperação de área degradada associado ao funcionamento de um canteiro de obras e de uma usina de mistura betuminosa na Terra Indígena Araçá, em Roraima; em 2009, o TCU havia classificado como “outras irregularidades” problemas na execução de contrato da empresa na BR-1
Riscos ambientais e impactos projetados
A BR-319 atravessa uma das áreas mais preservadas da Amazônia Central. No raio de 5 quilômetros da rodovia, 88% da cobertura ainda é de vegetação nativa, percentual que supera 98% no chamado Lote C. Modelagens ambientais citadas nos estudos apontam que a pavimentação pode acelerar a abertura da fronteira agrícola, com projeções de até 170 mil km² de desmatamento acumulado até 2050 em determinados cenários.
Os impactos projetados não se limitam à perda de floresta. Estudos apontam aumento das emissões de carbono, alterações na drenagem e no regime de chuvas e agravamento da poluição atmosférica associada às queimadas. A Nota Técnica nº 2044/2024 do Ministério do Meio Ambiente estima que o desmatamento adicional relacionado à pavimentação poderá representar 8 bilhões de toneladas de CO₂ emitidas até 2050.
Pesquisas recentes também acrescentaram uma dimensão de biossegurança ao debate. Estudos metagenômicos realizados em 61 pontos do interflúvio Purus-Madeira identificaram genes associados à virulência, toxinas e resistência a antibióticos em microrganismos do solo. Segundo os pesquisadores, a abertura da floresta, a movimentação de terra e o aumento do fluxo humano podem alterar a circulação desses agentes e ampliar riscos de transbordamento zoonótico (spillover).
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