Manaus, 06 de julho de 2026 – Uma varredura em microdados da segurança pública do Amazonas, divulgada pela Rede de Observatórios da Segurança no relatório Pele Alvo, revelou que as mortes por intervenção policial migraram expressivamente para o interior do estado ao longo de 2025, impulsionadas por uma política oficial de “combate a facções”. O diagnóstico aponta que, das 43 mortes registradas no território amazonense, 62,8% ocorreram fora da capital, espalhando-se por dezesseis municípios. O avanço da violência letal de Estado consolida o perfil racial mais desproporcional do Brasil, atingindo 96% de vítimas negras e impondo um apagamento estatístico total sobre a população indígena.
Os dados integram um diagnóstico sobre a letalidade policial em Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo durante 2025. Ao todo, os estados monitorados contabilizaram 4.330 mortes decorrentes de intervenção policial, o maior número da série histórica do estudo e um crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior. Desconsiderando os casos sem informação sobre raça ou cor, 86,3% das vítimas eram negras, evidenciando, segundo os pesquisadores, a permanência de profundas desigualdades raciais na atuação letal das forças de segurança.

Violência avança para o interior do Amazonas
Embora o número absoluto de mortes no Amazonas tenha permanecido estável, o relatório identifica uma alteração significativa na distribuição territorial da violência. Enquanto Manaus respondeu por 37,21% das ocorrências, os municípios do interior concentraram 62,8% dos casos, resultado de um crescimento de 35% em relação ao ano anterior. Em 2025, os registros deixaram de se concentrar em dez municípios e passaram a alcançar 16 cidades.
Entre os municípios citados pelo levantamento está Coari, responsável por 16,3% das mortes decorrentes de intervenção policial, apesar de representar apenas 1,6% da população do estado. O relatório também destaca Benjamin Constant, onde cinco pessoas morreram em ações policiais nos últimos dois anos, em uma região onde aproximadamente metade da população é indígena.
Os pesquisadores Fabio Candotti e Tayná Boaes afirmam que a interiorização representa a principal novidade observada na série histórica do Amazonas. Eles explicam que, em 2018, apenas 18% das mortes decorrentes de intervenção policial ocorriam no interior, percentual que passou a crescer nos anos seguintes, tornou-se maioria em 2023 e chegou a 63% em 2025.
“A principal novidade está no processo de interiorização da letalidade policial. Em 2018, apenas 18% dessas mortes foram registradas em municípios do interior. Desde então, essa proporção cresceu, tornou-se maioria em 2023 e chegou a 63% em 2025, alcançando 16 municípios”, afirmam os pesquisadores.
Segundo o estudo, a maior parte dessas cidades possui menos de 50 mil habitantes, reunindo pequenos centros urbanos e milhares de comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas. Os autores observam que são localidades onde normalmente existem poucos registros de homicídios, o que torna a expansão da letalidade policial um fenômeno que merece acompanhamento.
A pesquisa também confronta os dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas com o monitoramento diário de notícias realizado pela Rede de Observatórios desde 2024. De acordo com os pesquisadores, foram identificados 32 homicídios cometidos por policiais divulgados pela imprensa em 2025, dos quais 19 ocorreram no interior.
Os pesquisadores destacam diferenças entre os registros oficiais e os casos encontrados no acompanhamento jornalístico. Eles informam que Ipixuna apareceu com duas mortes monitoradas pela Rede, embora o município não constasse nos dados fornecidos pela Secretaria de Segurança Pública, enquanto em Coari, que registrou oficialmente sete mortes, apenas uma ocorrência foi localizada nas notícias publicadas ao longo do ano.
“Os dados do nosso monitoramento não permitem relacionar o aumento da letalidade policial com a interiorização de facções e a intensificação do ‘combate’ contra elas”, afirmam os pesquisadores.
Segundo eles, entre as 14 ocorrências monitoradas no interior, apenas cinco envolveram apreensão de drogas. Em apenas duas situações houve operações integradas com apreensão de grandes quantidades de drogas e armas em embarcações, enquanto os demais casos reproduziam versões oficiais frequentemente baseadas em denúncias, flagrantes e relatos de troca de tiros.
Os autores também observam que, nas notícias analisadas, 12 ocorrências foram descritas como confrontos armados. Eles ressaltam que apenas um caso registrou policial ferido, situação envolvendo um homem com graves problemas de saúde mental que teria utilizado uma faca.

Perfil das vítimas e ausência de indígenas
O relatório mostra que o perfil das vítimas permaneceu praticamente inalterado em relação aos anos anteriores. Todos os mortos registrados em 2025 eram homens, em sua maioria jovens de até 29 anos, repetindo um padrão observado em diferentes estados brasileiros.
Ao analisar a identificação racial, entretanto, o Amazonas apresentou o índice mais elevado entre todas as unidades federativas acompanhadas pela pesquisa. Dos casos com informação disponível, 96% das vítimas foram classificadas como negras, percentual superior ao registrado em Pernambuco (94,4%) e na Bahia (93,9%).
Apesar desse resultado, os pesquisadores afirmam que persistem problemas importantes na qualidade das informações produzidas pelo poder público. Eles observam que apenas cinco vítimas tiveram escolaridade registrada, 22 possuíam profissão identificada e somente 25 receberam algum tipo de classificação racial.
“Pelo terceiro ano seguido, em um território com 12% da população autodeclarada indígena, não há um único corpo reconhecido como tal”, afirmam Candotti e Boaes.
Os pesquisadores explicam que, entre os 25 registros raciais, 22 vítimas foram classificadas como pardas e duas como negras, sem qualquer identificação de pessoas indígenas. Eles relacionam esse cenário ao que definem como uma antiga política estatal de “empardecimento”, que, segundo a análise apresentada no relatório, dificulta a identificação estatística da violência direcionada aos povos originários.
“Trata-se de um dos efeitos atuais de uma velha e colonial política estatal de ‘empardecimento’, que dificulta o debate público sobre o racismo específico praticado contra os povos originários, além de alimentar o medo do reconhecimento da própria identidade”, afirmam.
O estudo chama atenção para o caso de Benjamin Constant, município onde quase metade da população é indígena e que registrou cinco mortes decorrentes de intervenção policial nos últimos dois anos. Os autores também citam dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, segundo os quais o Amazonas alcançou, no mesmo período, o maior número de homicídios de indígenas do país, conforme informações publicadas pelo IPEA em 2026.
Em âmbito nacional, o relatório identifica um padrão semelhante de desigualdade racial. Entre os nove estados analisados, pessoas negras apresentaram, em média, quatro vezes mais chances de morrer em ações policiais do que pessoas brancas. Em Pernambuco, esse risco relativo chegou a ser 11 vezes maior.
O documento também aponta que 310 crianças e adolescentes morreram em decorrência de intervenções policiais nos estados monitorados durante 2025, enquanto pessoas de até 29 anos representaram 64,8% das vítimas, totalizando 2.804 mortes.
Outro aspecto destacado pela pesquisa é a qualidade dos registros oficiais. Maranhão e Ceará apresentaram os maiores percentuais de vítimas com raça ou cor classificada como “não informada”, alcançando 54,9% e 57,5%, respectivamente. Segundo o relatório, a melhora na identificação racial ao longo dos anos revelou crescimento da proporção de vítimas negras, indicando que a ausência dessas informações dificulta a compreensão das desigualdades produzidas pela violência estatal.
Ao comentar a realidade amazonense, Candotti e Boaes afirmam que o avanço da letalidade para municípios do interior exige maior fiscalização sobre a atuação policial. Eles defendem que o fortalecimento das estruturas de controle institucional e da cobertura jornalística acompanhe a expansão das operações para regiões distantes dos grandes centros.
“Cada vez mais ‘equipadas’ por grandes investimentos públicos, as polícias precisam ser, também, objeto de maiores controles e fiscalizações no interior pelos Ministérios Públicos (estadual e federal) e pelos veículos de comunicação”, afirmam.
Os pesquisadores acrescentam que organizações locais continuam reivindicando investimentos em políticas públicas voltadas à prevenção da violência contra mulheres e meninas, ao enfrentamento de pequenos roubos e furtos e à redução do uso abusivo de álcool e outras drogas, demandas que, segundo eles, recebem menos atenção do que as estratégias baseadas no confronto armado.
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