Manaus, 06 de maio de 2026 – A rodovia BR-319, eixo estratégico que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), entrou em uma nova fase de intervenções entre esta segunda, 4, e terça-feira, 5, com a retomada de licitações públicas e a formalização de um contrato emergencial de R$ 41 milhões sem concorrência. A empresa escolhida para executar serviços considerados urgentes no trecho inicial da estrada, a LCM Construção e Comércio S.A., foi alvo investigações da Polícia Federal em 2025 sobre suspeitas de fraudes em contratos rodoviários.
Na edição do Diário Oficial da União (DOU) desta segunda-feira, 4, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) firmou o Contrato nº 243/2026, no valor de R$ 41.057.369,06, com a LCM, por meio de dispensa de licitação, com base no artigo 75, inciso VIII, da Lei nº 14.133/2021. A justificativa oficial foi a necessidade de atender a uma situação emergencial, com foco na recuperação de “pontos críticos” entre os quilômetros 0,00 e 178,50 da rodovia, saída de Manaus. O contrato foi assinado em 27 de abril de 2026 e tem vigência até 16 de março de 2027.
Já na edição do DOU desta terça, 5, foi oficializada a reabertura de dois pregões eletrônicos voltados ao melhoramento do pavimento em outros segmentos da BR-319. Os editais nº 90128/2026 e 90130/2026 abrangem trechos entre os quilômetros 250,7 e 433,1, somando 182,4 quilômetros, com previsão de abertura de propostas em 20 de maio de 2026. A sequência de atos administrativos indica uma tentativa de acelerar intervenções estruturais após uma semana marcada por suspensões de licitações na mesma rodovia.

Contrato emergencial e histórico da empresa
A LCM Construção e Comércio S.A., contratada para o trecho emergencial, é uma construtora fundada em 2014, com sede em Belo Horizonte (MG), especializada em obras de infraestrutura rodoviária. Estruturada como sociedade anônima de capital fechado, a empresa tem como principal dirigente o empresário Luiz Otávio Fontes Junqueira, apontado como responsável pela expansão da companhia em contratos públicos federais.
Nos últimos anos, a LCM consolidou presença no mercado de obras rodoviárias, operando por meio de filiais e sociedades de propósito específico (SCPs), como a vinculada ao contrato da BR-319 identificado nos documentos oficiais. Esse modelo permite atuação simultânea em diferentes trechos e projetos, especialmente em contratos com o próprio DNIT.
Dados públicos indicam que a empresa acumulou bilhões de reais em contratos federais, beneficiando-se da reconfiguração do setor de infraestrutura após a saída de grandes empreiteiras tradicionais. Esse crescimento a posicionou entre as principais executoras de obras rodoviárias no país, com forte dependência de recursos públicos.
Apesar da expansão, tanto a empresa quanto seu principal dirigente passaram a figurar em investigações recentes. Em julho de 2025, Luiz Otávio Fontes Junqueira foi alvo da Operação Route 156, da Polícia Federal, que apura suspeitas de direcionamento de licitações e desvio de recursos públicos em contratos de manutenção rodoviária. Durante a operação, agentes realizaram buscas e apreensões, incluindo veículos, documentos e outros bens.
De acordo com as informações da investigação, há indícios de irregularidades em processos licitatórios, como possível simulação de concorrência e movimentações financeiras consideradas atípicas. As apurações ainda estão em andamento e não houve conclusão definitiva sobre os fatos.

Licitações reabertas e pressão ambiental
Enquanto o contrato emergencial avançava, o DNIT retomou os processos licitatórios para outros trechos da BR-319, ampliando o escopo das intervenções planejadas. Os segmentos contemplados pelos novos editais estão localizados em áreas de alta sensibilidade ambiental, o que adiciona complexidade à execução das obras.
Paralelamente, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) intensificou a fiscalização na região, com base em imagens de satélite, aplicando termos de embargo em áreas de desmatamento sem responsáveis identificados em municípios como Tapauá e Boca do Acre. As áreas interditadas somam dezenas de hectares e foram destinadas à regeneração florestal.
A presença do Ibama é reforçada pelo fato de que sua superintendência no Amazonas está localizada no km 01 da BR-319, praticamente no ponto inicial da rodovia. A simultaneidade entre a execução de obras, a retomada de licitações e o avanço de medidas de controle ambiental evidencia um cenário de atuação estatal intensa e sobreposta na região.
Nesse contexto, a contratação da LCM para um dos trechos mais sensíveis da estrada ocorre ao mesmo tempo em que a empresa mantém contratos ativos com o poder público e permanece no radar de investigações federais relacionadas justamente ao setor de infraestrutura rodoviária.
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