Humanidades

Brasil registra 305 mil ligações abusivas por minuto, diz Idec

Brasil registra 305,7 mil ligações abusivas por minuto e mais de 1 bilhão por mês, com 161 bilhões de chamadas curtas em 2025 e 126 bilhões de robocalls acumuladas, levando à rejeição de chamadas desconhecidas, o que já afeta também contatos de serviços de saúde com pacientes

MANAUS (AM) – O Brasil atingiu um novo patamar no volume de telemarketing abusivo, com média de 305,7 mil ligações por minuto, segundo estudo divulgado em março de 2026 pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec). O levantamento, que analisa dados entre junho de 2022 e 2025, revela que a prática ocorre de forma massiva em todo o país, impulsionada pelo uso irregular de dados pessoais e pela fragilidade das regras atuais.

A pesquisa mostra que 92% dos consumidores não possuem qualquer relação com as empresas que realizam as chamadas. “O que vemos hoje é um sistema que ainda permite o uso de dados pessoais sem consentimento claro e informado”, afirma a coordenadora do programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do Idec, Julia Abad. A especialista explica que esse modelo sustenta práticas invasivas que impactam diretamente a rotina da população.

Entre junho de 2022 e dezembro de 2024, o país registrou mais de 1 bilhão de ligações abusivas por mês, o equivalente a 743 chamadas por habitante no período. Em 2025, foram contabilizadas 161,16 bilhões de chamadas curtas, com duração de até seis segundos, usadas principalmente por robôs para validar números ativos.

Chamadas automáticas dominam sistema de telemarketing. Ilustração: Fred Santana
Volume industrial e impacto social

O levantamento aponta que cerca de 24,1 bilhões dessas chamadas curtas chegaram efetivamente aos consumidores, mesmo com mecanismos de bloqueio em vigor. “O volume excessivo de chamadas tem provocado perda de tempo produtivo e mudanças de comportamento”, diz o Idec no relatório. A entidade destaca que a população passou a evitar atender números desconhecidos.

Esse comportamento já afeta inclusive serviços essenciais. O estudo relata dificuldades de equipes de saúde em localizar pacientes devido à rejeição generalizada de ligações telefônicas. Em casos extremos, consumidores chegaram a receber 65 chamadas em um único dia útil, evidenciando a intensidade do problema.

O documento também identifica a consolidação de um sistema automatizado. Já são mais de 126 bilhões de ligações robóticas acumuladas, o que reforça o caráter industrial da prática. “Isso deixa de ser apenas incômodo e passa a ser um problema estrutural”, avalia o instituto ao descrever os impactos sociais.

Cerco aos vulneráveis e falhas na regulação

Outro ponto destacado é a exploração de públicos considerados hipervulneráveis, como aposentados e pensionistas. O estudo aponta o uso de dados associados ao INSS e à Dataprev para ofertas agressivas de crédito consignado. Estima-se que mais de 4 milhões de pessoas tenham sido prejudicadas por esse tipo de abordagem.

As práticas envolvem estratégias de indução ao erro. “Há relatos de táticas que não permitem ao consumidor refletir, transformando respostas simples em autorizações financeiras”, aponta o documento. O Idec afirma que há assimetria de informação nesses contatos, o que favorece abusos.

Mesmo com iniciativas da Anatel, Senacon e ANPD, o relatório classifica as ações como insuficientes. A entidade critica a fragmentação das medidas e destaca retrocessos, como a revogação da obrigatoriedade do prefixo 0303 em 2025. Também aponta o arquivamento de 26 processos contra financeiras pela Senacon, sob justificativa de falta de repercussão nacional.

Diante do cenário, o Idec propõe a adoção do modelo opt-in, no qual o consumidor precisa autorizar previamente qualquer contato comercial. A proposta inclui restrição de horários, controle mais rígido sobre robocalls e a criação de uma plataforma nacional de consentimento. “O avanço regulatório passa por uma mudança de lógica: sair de um sistema baseado em invasão para um modelo baseado em consentimento”, afirma Julia Abad.

Idosos estão entre os principais alvos de ligações. Ilustração: Fred Santana
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