Manaus, 22 de março de 2026 – A violência contra mulheres no Brasil revela um recorte pouco explorado pelas estatísticas oficiais: o impacto da religião na experiência da agressão e na decisão de denunciar. Levantamento indica que mulheres evangélicas estão mais expostas à violência de parceiro íntimo.
Outro dado relevante é que essas vítimas recorrem majoritariamente à igreja como primeira resposta, o que pode contribuir para a subnotificação dos casos e dificultar a atuação do Estado no enfrentamento da violência. Apesar dos números preocupantes, há uma mudança no comportamento das vítimas, sinalizando um processo ainda tímido, mas claro de ruptura nos ciclos de violência.
A violência invisível dentro da fé e a distância do Estado
Os dados da pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram que 42,7% das mulheres evangélicas já sofreram violência por parceiro íntimo ao longo da vida, índice superior aos 35,1% registrados entre mulheres católicas. A prevalência do chamado controle coercitivo — caracterizado por isolamento, vigilância e dominação psicológica — atinge 49,7% nesse grupo.
O estudo indica que metade das mulheres evangélicas vive ou viveu sob regimes de controle psicológico severo, um padrão que restringe a autonomia sem necessariamente deixar marcas físicas e dificulta a identificação da violência, reduzindo as chances de denúncia formal.
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (2025), conduzida pelo Instituto de Pesquisa DataSenado em parceria com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, expõe o caminho percorrido pelas vítimas após a agressão. Realizado bienalmente desde 2005, o levantamento é uma das principais bases para formulação de políticas públicas e subsidiou a criação da Lei Maria da Penha.
Os dados mostram que a resposta à violência ocorre majoritariamente fora do sistema de justiça: 57% das mulheres procuram a família e 53% recorrem à igreja. Em contraste, apenas 28% buscam Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e 11% acionam o Disque 180, evidenciando um descompasso entre a rede institucional e a confiança das vítimas.
Esse padrão consolida o papel dos espaços informais como primeira linha de defesa. A rede de amigos é acionada por 52% das vítimas, reforçando a centralidade das relações pessoais na mediação da violência doméstica e reduzindo o acesso inicial aos canais formais.
A segmentação por religião aprofunda essa dinâmica. Entre mulheres evangélicas, 69% recorrem à igreja como primeiro apoio, enquanto entre católicas esse índice é de 48% e, entre mulheres sem religião ou de outras crenças, 30%. No caso das católicas, o apoio familiar predomina, sendo buscado por 59% das vítimas.
A coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência, Maria Teresa Prado, destaca o papel dessas instituições. “A igreja funciona para parte das mulheres como espaço de aconselhamento, mediação e acolhimento imediato diante da crise. Os dados colocam as instituições religiosas entre os atores que efetivamente intermediam o primeiro atendimento às vítimas dentro de determinados recortes sociais”, afirma.
Os dados também indicam que a maioria das vítimas busca reagir à violência: apenas 5% não tomaram nenhuma atitude após o episódio. O principal entrave não é a inação, mas o direcionamento dessa busca para redes informais, onde nem sempre há encaminhamento ao sistema de justiça. A pesquisa ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais em todo o país, com amostra probabilística, margem de erro de 0,69 ponto percentual e nível de confiança de 95%, garantindo representatividade nacional.
Subnotificação, redes informais e a ruptura possível
A predominância da igreja como porta de entrada ajuda a explicar o padrão de subnotificação da violência de gênero. Segundo o DataSenado, 53% das vítimas recorrem à igreja e 57% à família, enquanto apenas 28% procuram delegacias e 11% acionam o Disque 180, o que limita a entrada desses casos nos registros oficiais.
Esse cenário se conecta a evidências qualitativas que indicam que, em determinados contextos, a orientação religiosa pode priorizar a mediação e a manutenção do vínculo conjugal, influenciando o acesso das vítimas aos canais formais, sobretudo em casos de violência psicológica e controle coercitivo.
Apesar disso, os dados apontam mudanças no comportamento das vítimas. Se em 2013 mulheres evangélicas apresentavam maior permanência em relações abusivas, levantamentos mais recentes — como os do relatório “Visível e Invisível (5ª edição)” — indicam que as taxas de ruptura se aproximam das observadas no conjunto da população feminina.
Retrocessos via poder público
O relatório “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil” insere essa mudança em um contexto mais amplo de disputa social, marcado por reações a avanços nos direitos das mulheres, descritas pelo conceito de backlash. Esse movimento se expressa em discursos e práticas que reforçam padrões tradicionais de gênero e influenciam a percepção social da violência.
A análise aponta que esse cenário extrapola o ambiente doméstico e se conecta a dinâmicas institucionais e culturais mais amplas. Discursos públicos hostis às pautas de igualdade de gênero contribuem para a formação de um ambiente permissivo à violência e dificultam o avanço de políticas de proteção.
O relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública menciona o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no contexto dessa análise. O documento reúne avaliações que classificam o período de sua gestão como de “retrocesso democrático” e degradação institucional, associando esse ambiente ao tensionamento do debate público e à naturalização de discursos considerados misóginos.
A análise também destaca o desfinanciamento de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres durante sua administração, indicando que a redução de recursos para serviços de acolhimento e prevenção pode estar associada ao agravamento da violência de gênero nos anos recentes.

Violência estrutural e apagão estatístico
Os dados indicam que a violência letal contra mulheres permanece elevada e estável no país. Entre 2013 e 2023, foram registradas 47.463 mulheres assassinadas, sendo 3.903 vítimas apenas em 2023, com taxa de 3,5 mortes por 100 mil mulheres. Enquanto os homicídios gerais caíram 2,3% entre 2022 e 2023, a letalidade feminina permaneceu inalterada, indicando limites das políticas de segurança no enfrentamento da violência de gênero.
Outro ponto crítico é o “apagão estatístico” das Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). Em 2022, 4.172 mortes de mulheres sem causa definida superaram os homicídios registrados, levantando suspeitas de subnotificação. Com uso de técnicas de machine learning, estima-se que a taxa real de homicídios femininos em 2023 pode ter sido 17,1% maior, elevando o índice de 3,5 para 4,1 mortes por 100 mil mulheres.
O relatório “Elas Vivem: A Urgência da Vida” (2026), da Rede de Observatórios da Segurança, aponta crescimento de 9,0% na violência contra mulheres nos nove estados monitorados, com registros passando de 4.181 em 2024 para 4.558 em 2025. O avanço foi puxado pela região Norte, com destaque para o Amazonas, que registrou aumento de 69,4% (de 604 para 1.023 casos), e o Pará, com alta de 76,0% (de 388 para 683). São Paulo mantém o maior volume e lidera em feminicídios, com 173 casos em 2025.
As qualificadoras somam 5.358 registros, com predominância de tentativas de feminicídio e agressões físicas (1.798 casos). A violência sexual registrou 961 casos, crescimento de 59,6%, atingindo principalmente crianças e adolescentes, que representam 56,5% das vítimas — índice que chega a 78,4% no Amazonas.
O relatório também mostra que, em 56,1% dos casos, o agressor era parceiro, ex-parceiro ou familiar. A ausência de medidas protetivas é expressiva em estados como Pará e Maranhão, onde mais de 88% das vítimas não estavam protegidas. O uso de armas brancas em feminicídios em estados como Rio de Janeiro e Pernambuco reforça a proximidade entre vítima e agressor e o caráter doméstico da violência.
Texto originalmente publicado na Revista Cenarium
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