Territórios

No Dia da Água, Manaus registra queda na cobertura e 45% de desperdício

Dados mostram que Manaus reduziu a cobertura de água e mantém perdas de 45% na distribuição, evidenciando desafios estruturais persistentes mesmo com aumento nos investimentos

Manaus, 22 de março de 2026 – Neste domingo (22/03/2026) é comemorado o Dia Mundial da Água. Levantamento do Vocativo baseado nos rankings nacionais de saneamento revela um cenário de retrocesso em Manaus: a cobertura de abastecimento diminuiu enquanto quase metade da água tratada se perde antes de chegar à população. Os dados mais recentes apontam que o Indicador de Atendimento Total de Água (ITA) caiu de 97,98% para 97,13%, interrompendo a trajetória esperada de avanço rumo à universalização.

A redução ocorre em um contexto de crescimento populacional, estimado em 2.279.686 habitantes, o que amplia a pressão sobre a rede existente. A meta estabelecida pelo Novo Marco Legal do Saneamento prevê atendimento de 99%, e o recuo afasta a capital desse objetivo, indicando descompasso entre expansão da infraestrutura e demanda urbana.

Meta estabelecida pelo Novo Marco Legal do Saneamento prevê atendimento de 99%. Foto: Divulgação / Águas de Manaus

Cobertura em queda e pressão demográfica

A análise dos dados mostra que, mesmo com altos índices de atendimento, a capital amazonense enfrenta dificuldades para manter a cobertura diante da expansão populacional. O recuo no ITA reflete a incapacidade de ampliação da rede no mesmo ritmo do crescimento urbano, criando lacunas no acesso ao serviço essencial.

Esse cenário é interpretado, do ponto de vista jurídico e regulatório, como um sinal de alerta para o cumprimento das metas nacionais. “A regressão no indicador demonstra que o sistema não acompanha a dinâmica da cidade, comprometendo o planejamento de universalização”, aponta o relatório técnico.

Desperdício estrutural e impacto econômico

O maior ponto de fragilidade identificado está na eficiência operacional do sistema. Manaus registra 45,25% de perdas na distribuição (IPD), o que significa que quase metade da água tratada não chega aos consumidores, sendo desperdiçada em vazamentos ou ligações irregulares.

Além disso, o índice de perdas por ligação (IPL) alcança 693,03 litros por dia, volume mais de três vezes superior ao limite de excelência de 216 litros estabelecido pelo governo federal. Esse nível de desperdício implica também em perda de insumos e energia utilizados no tratamento, ampliando o custo operacional do sistema.

No campo financeiro, o problema se agrava com as perdas no faturamento (IPF), que chegaram a 65,12%, segundo o último dado disponível. Esse índice revela dificuldades na cobrança efetiva pelo serviço prestado, reduzindo a capacidade de investimento e manutenção da rede.

Infográfico: Fred Santana

Investimento elevado, mas insuficiente por habitante

Embora Manaus figure entre as capitais que mais investem em saneamento em termos absolutos, a análise per capita revela um cenário distinto. O investimento médio anual foi de R$ 123,15 por habitante, valor significativamente inferior aos R$ 225,00 estimados pelo PLANSAB como necessários para alcançar a universalização. A diferença indica que o volume total aplicado não acompanha as necessidades reais da população. “O alto investimento absoluto reflete o tamanho da cidade, mas não se traduz em esforço proporcional por cidadão”, destaca o estudo analisado.

Os impactos da baixa eficiência no abastecimento se estendem à saúde pública e à economia. Na Região Norte, onde Manaus concentra grande parte da população, a taxa de afastamento por doenças respiratórias atinge 523,3 casos por mil habitantes, associada a condições inadequadas de saneamento.

A desigualdade também se manifesta na renda: trabalhadores sem acesso pleno ao saneamento recebem, em média, R$ 593,21, enquanto aqueles com acesso aos serviços chegam a R$ 2.950,23. Os dados reforçam a relação entre infraestrutura básica, qualidade de vida e desenvolvimento econômico.

Águas de Manaus

A concessionária Águas de Manaus, responsável pelos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário da capital amazonense desde 2018, tem enfrentado questionamentos recorrentes sobre o desempenho do sistema sob sua gestão. Dados recentes mostram que a cidade permanece com indicadores críticos de saneamento e com elevado volume de reclamações de consumidores, cenário que expõe dificuldades estruturais no setor.

Informações divulgadas pelo Procon Amazonas indicam que, desde 2019, a concessionária aparece de forma constante entre as empresas mais reclamadas pelos consumidores no estado. Naquele ano, a empresa concentrou cerca de 24% dos processos administrativos registrados, ficando atrás apenas da concessionária de energia elétrica e inaugurando uma sequência de resultados semelhantes nos anos seguintes.

Em levantamento referente ao período de janeiro a agosto de 2024, a concessionária ocupou o segundo lugar no ranking estadual de reclamações, com 903 registros, número 17% superior ao contabilizado no ano anterior. O quadro se manteve em 2025, quando o levantamento do Procon-AM relativo ao primeiro quadrimestre do ano apontou a empresa como a mais reclamada do estado, com 791 queixas registradas entre janeiro e abril.

Infográfico: Fred Santana

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