Manaus, 14 de fevereiro de 2026 – Dois episódios. Poucos dias de intervalo. Duas mulheres. O mesmo tribunal virtual. Uma coincidência triste e perturbadora.
Um homem matou os próprios filhos e se matou. Uma mulher, devastada por perdas recentes, bebeu e foi exposta e ridicularizada nas redes. Em nenhum dos dois casos a violência partiu delas. Mas, curiosamente, foram elas que viraram rés no tribunal da internet.
O horror nosso de cada dia
No dia 11 de fevereiro de 2026, em Itumbiara, o então secretário municipal Thales Naves Alves Machado matou os dois filhos dentro de casa e, em seguida, tirou a própria vida. Antes do crime, o assassino publicou mensagens nas redes sociais mencionando uma suposta traição da esposa e pedindo “respeito”. Segundo relatos, a mulher já teria manifestado desejo de separação e até ela própria, sido traída. Nada indica que ele estivesse sendo surpreendido por uma ruptura inesperada.
E aqui está um ponto que precisa ser dito com clareza: pelas próprias palavras do autor, a separação não era descrita como tragédia insuportável. Ele falava em inevitabilidade. O que parecia insuportável não era o fim do casamento, mas a ferida na vaidade. O que o desestabilizou não foi a perda afetiva, mas a perda de controle. Não foi o amor, foi a posse.
Vivemos em uma cultura onde a maioria dos homens ainda foram socializados a acreditar que a companheira (namorada, esposa, ficante ou até mesmo, interesse afetivo) é extensão de sua masculinidade. Para eles, as mulheres são parte da sua identidade, território emocional sob domínio, patrimônio simbólico. Quando essa ideia de propriedade é ameaçada, não se fala em frustração — fala-se em “falta de respeito”. A palavra é reveladora. Respeito, nesse contexto, significa obediência, permanência, submissão silenciosa.
A reação pública ao assassinato deveria ter sido inequívoca: indignação diante de um homem que decidiu exterminar a própria família. Em vez disso, parte significativa do debate digital deslocou o foco para a conduta da esposa. A suposta traição virou eixo interpretativo, quase um atenuante informal. Como se a honra masculina tivesse peso equivalente à vida de duas crianças.

Não se trata de defender infidelidade (que por sinal nem sequer está confirmada). Trata-se de recusar a perversão lógica que transforma uma frustração conjugal em explicação socialmente palatável para a barbárie. O homem matou, mas o tribunal moral improvisado preferiu examinar a vida íntima da mulher. A pergunta deixou de ser “como ele foi capaz?” e passou a ser “o que ela fez?”. É a engrenagem estrutural funcionando sem constrangimento.
Dias antes, em Manaus, outro episódio expôs uma faceta igualmente cruel dessa cultura. Uma mulher de 40 anos foi filmada em evidente desorganização emocional após ingerir bebida alcoólica. Relatos posteriores indicam que ela enfrentava uma sequência de eventos trágicos nos últimos anos, incluindo um acidente grave e perdas de familiares durante a pandemia da Covid-19 e consequentes surtos. Luto acumulado, instabilidade emocional e afetiva. Não houve violência da parte dela. Nenhum registro de uso de arma de fogo e postagem cínica nas redes sociais. Houve apenas dor e sofrimento.
Ela perdeu entes queridos. Suportou ausência, saudade, ruptura de rotina, talvez insegurança material. Carregou o peso do luto pelo tempo que conseguiu. Chegou ao limite humano de quem já aguentou demais. E, ao invés de reagir com agressividade contra inocentes, colapsou sobre si mesma. Bebeu. Desorganizou-se. Chorou. Falou desconexamente. Foi filmada.
O vídeo, gravado dentro de uma delegacia e amplamente disseminado nas redes sociais, transformou dor em espetáculo. Frases recortadas viraram meme. Expressões fragilizadas viraram chacota. Felizmente, ela deu a “sorte” de ser uma mulher branca com alguma projeção social, o que motivou a pressão de entidades de direitos humanos. A Justiça do Amazonas determinou a remoção das imagens, reconhecendo o óbvio: a violação de direitos. Mas, antes disso, a sentença social das mesmas hienas que atacariam a mãe de Itumbiara dias depois já havia sido executada.
Enquanto homens que explodem em violência recebem diagnósticos informais e tentativas de compreensão — “estava desesperado”, “não aguentou a pressão” — mulheres que desmoronam emocionalmente recebem escárnio. Ele é contextualizado. Ela é ridicularizada. Ele é interpretado. Ela é julgada.
A pedagogia da culpa
Os comentários que circularam nos dois casos revelam uma pedagogia constante: o corpo feminino é sempre território de inspeção moral. Julga-se a roupa, o tom de voz, a fidelidade, a forma de reagir, a maneira de sofrer. Se ele matou, ela provocou. Se ele perdeu o controle, ela falhou antes. O agressor vira consequência; a mulher vira causa.
Esse mecanismo protege algo mais profundo: a complacência e cumplicidade coletiva com a violência masculina como fenômeno estrutural. É mais confortável discutir a traição do que discutir posse. É menos ameaçador falar em “falta de respeito” do que falar em masculinidade fundada no controle. A culpa feminina funciona como anestésico social.
A pergunta incômoda
Há uma reflexão inevitável diante desses dois episódios. Um homem colapsou — segundo sua própria narrativa — porque sua vaidade foi atingida. Porque a mulher não permaneceu sob sua órbita. Porque a ideia de perda de posse foi insuportável. Uma mulher colapsou depois de anos suportando perdas reais, físicas, irreversíveis. E não matou ninguém.
Quantas pessoas a batizada pelas hienas das redes sociais de “dama de verde” poderia “justificar” atirar a sangue frio se utilizássemos a mesma lógica indulgente aplicada a homens violentos? A pergunta não busca equivalência, mas exposição do absurdo. Nenhuma dor autoriza matar. Mas por que, culturalmente, parece haver maior disposição para compreender o homem que extermina do que a mulher que apenas desaba?
Os dois episódios, tão próximos no tempo, funcionam como um raio-X moral. Em Itumbiara, duas crianças foram assassinadas pelo pai. Em Manaus, uma mulher em sofrimento virou entretenimento. Nenhuma dessas mulheres puxou o gatilho. Nenhuma cometeu violência. Ainda assim, ambas foram julgadas com severidade implacável.
A crueldade maior não está apenas no crime ou na exposição. Está na reação coletiva que insiste em procurar, no corpo feminino, a explicação para brutalidades masculinas. Enquanto essa inversão continuar automática, estaremos não apenas sendo injustos — estaremos perpetuando a raiz do problema. E a raiz, ao contrário do que muitos comentários sugerem, não veste saia.
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