Territórios

Mesmo com alertas, ANP autoriza expansão do projeto da Eneva em Silves

Com decisão da ANP publicada no Diário Oficial, o Projeto Azulão avança no Amazonas. A ampliação da infraestrutura de gás ocorre sob questionamentos técnicos sobre impactos ambientais, ausência de consulta indígena e avaliação de efeitos cumulativos

Manaus, 11 de fevereiro de 2026 – A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) deu um novo passo na expansão do Projeto Azulão, no interior do Amazonas. O avanço acontece mesmo com estudos ambientais e manifestações jurídicas apontam potenciais riscos ambientais e impactos sociais, especialmente sobre comunidades indígenas.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) declarou de utilidade pública áreas necessárias à construção do Gasoduto Cluster 8 de Azulão, no município de Silves (AM), conforme a Resolução nº 993/2026, publicada no Diário Oficial da União em 10 de fevereiro.

O ato autoriza a instituição de servidão administrativa sobre imóveis privados para viabilizar a logística de escoamento de gás natural do Campo do Azulão. A área diretamente afetada soma 21,22 hectares, ao longo de um traçado de 16.084,02 metros, abrangendo exclusivamente propriedades particulares, conforme delimitado no documento oficial.

A medida reconhece o empreendimento como de utilidade pública, permitindo a construção, operação e manutenção do gasoduto. Ao mesmo tempo, impõe à Eneva S.A., ou a empresas por ela controladas, a obrigação de buscar a liberação das áreas por meio de negociação direta com proprietários e possuidores dos imóveis, priorizando acordos considerados amigáveis.

Duto de exploracao de gas instalado pela empresa Eneva em região que esta em processo de homologação de Terra Indigena. Silves, Amazonas, Brasil. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

Ampliação da logística de gás

O gasoduto integra a infraestrutura necessária ao funcionamento do Cluster 8 de Azulão, conjunto de poços produtores que compartilham sistemas de coleta e transporte de gás. A resolução da ANP estabelece que a servidão administrativa não transfere a posse da terra, mas impõe restrições permanentes ao uso das áreas afetadas, impedindo construções ou atividades que comprometam a segurança e a operação da tubulação.

Na mesma edição do Diário Oficial, o governo federal também enquadrou a Unidade de Liquefação de Gás Natural do Parque dos Gaviões, no Maranhão, no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (REIDI). Embora situado fora do Amazonas, o empreendimento faz parte da estratégia integrada da Eneva para o aproveitamento de gás natural em diferentes regiões do país.

Os projetos de gás da companhia contam com estimativa de investimentos superiores a R$ 1,01 bilhão, valor que evidencia a dimensão econômica da operação. A ampliação da logística no Amazonas, com o gasoduto em Silves, insere o estado nesse eixo estratégico de produção e transporte energético.

Impactos a povos indígenas e meio ambiente

O Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (EIA-RIMA) do Complexo Azulão, apresentado ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), identifica impactos ambientais nos meios físico, biótico e socioeconômico associados às atividades de produção e escoamento de gás natural. O documento aponta alterações sobre a vegetação, a fauna e o uso do solo, além de efeitos sobre populações humanas inseridas na área de influência do empreendimento, propondo medidas de mitigação e monitoramento.

Apesar dessas previsões, o Ministério Público Federal (MPF) sustenta que o licenciamento ambiental estadual não avaliou de forma adequada os impactos sobre povos indígenas e comunidades tradicionais potencialmente afetados. Em pedido encaminhado à Justiça Federal, o órgão aponta a ausência de um Componente Indígena específico no EIA-RIMA e a falta de consulta livre, prévia e informada, conforme estabelece a Convenção 169 da OIT, além de questionar a competência do órgão estadual para conduzir o licenciamento.

Caminhões de transporte de gas são vistos transitando emna rodovia AM 363. A região que esta em processo de homologação de Terra Indigena sofre com o interesse de exploração de gas e petroleo por parte da empresa Eneva em area conhecida como Campo do Azulao. Silves, Amazonas, Brasil. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

O MPF também destaca que os estudos não analisam de forma aprofundada os impactos indiretos e cumulativos decorrentes da ampliação da infraestrutura logística, como abertura de acessos e intensificação do fluxo de pessoas e equipamentos. Segundo o órgão, esses fatores podem gerar pressões adicionais sobre territórios indígenas, modos de vida tradicionais e áreas ambientalmente sensíveis.

Análise técnica elaborada pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) converge com essas críticas ao afirmar que o EIA-RIMA utilizou dados desatualizados sobre a presença indígena na região de Silves e Itapiranga. O documento ressalta a ausência de comprovação de processos formais de consulta às comunidades potencialmente impactadas e aponta riscos socioculturais associados à expansão do projeto.

Com a declaração de utilidade pública, o Projeto Azulão avança para uma nova etapa regulatória no Amazonas, combinando investimentos de grande porte com questionamentos técnicos e jurídicos sobre seus possíveis efeitos ambientais e sociais na região.


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