Manaus, 30 de janeiro de 2026 — Sempre que um vírus raro, letal e pouco conhecido volta às manchetes, a reação costuma ser imediata: medo. Depois do trauma com a pandemia da Covid-19, o surto de doenças como a MPox e agora com o Nipah, investigado pelas autoridades sanitárias da Índia após a confirmação de novos casos em Bengala Ocidental, gera sempre a pergunta: teremos uma nova pandemia?
O alerta fez países vizinhos apertarem a vigilância em aeroportos, e isso é esperado. Mas, para além do susto inicial, especialistas em virologia e saúde pública chamam atenção para um ponto essencial: o Nipah é, sim, um vírus perigoso — mas não, ele está muito longe de reunir as condições necessárias para causar uma pandemia. Entender isso ajuda a separar risco real de pânico desnecessário.
O Nipah foi identificado pela primeira vez em 1999, na Malásia, durante um surto entre criadores de porcos. Desde então, reaparece de forma esporádica, principalmente em Bangladesh e no leste da Índia. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pode causar desde sintomas leves até inflamações cerebrais graves, mas uma coisa nunca mudou: a dificuldade do vírus em se espalhar de forma sustentada entre humanos.

Perigoso não é sinônimo de contagioso
O virologista Daniel Ferreira Neto costuma explicar o Nipah com uma comparação simples: é um vírus extremo, mas travado. Segundo Neto, o Nipah integra o grupo de patógenos classificados como nível de biossegurança 4, o grau máximo de risco biológico.

Na prática, isso significa que ele é altamente letal, não tem tratamento específico amplamente disponível e só pode ser estudado em laboratórios com contenção rigorosa. “São estruturas pensadas para o pior cenário possível”, explica. “O ar não sai do laboratório, entra. Tudo é feito para evitar qualquer chance de escape.”
Mas esse nível de perigo não se traduz automaticamente em facilidade de transmissão. “O Nipah até pode passar de animais para humanos e, em situações específicas, de uma pessoa para outra”, diz Ferreira Neto. “O problema é que isso exige contato muito próximo. Não acontece de forma casual.”
É aí que o vírus começa a perder força do ponto de vista epidemiológico. Sem transmissão eficiente, ele não consegue formar aquelas cadeias longas de infecção que sustentam epidemias amplas. Para mudar esse cenário, seria preciso algo pouco provável.
“Esse tipo de vírus teria que sofrer mutações muito específicas nos mecanismos que usa para entrar nas nossas células”, explica o virologista. Não é algo que acontece por vontade própria ou em pouco tempo. “Essas mudanças são aleatórias e exigem muitas infecções simultâneas para se consolidarem.”
“Esse tipo de vírus teria que sofrer mutações muito específicas nos mecanismos que usa para entrar nas nossas células”
Daniel Ferreira Neto, virologista
O corpo humano não ajuda o Nipah a circular
A virologista Giliane Trindade, da UFMG, costuma ir direto ao ponto: pandemias gostam de vírus que se espalham pelo ar com facilidade. “A transmissão respiratória é a forma mais eficiente que existe”, explica. “O vírus se replica no trato respiratório superior e é liberado em grande quantidade quando a pessoa fala, tosse ou respira.”
Esse foi um dos segredos — nada secretos — do sucesso do Sars-CoV-2. O Nipah, por outro lado, não joga esse jogo. “Ele não parece ter alta carga viral no trato respiratório superior”, diz Trindade. Em termos práticos, isso significa que ele não sai em grande quantidade pelo nariz ou pela boca. Resultado: a chance de transmissão por aerossóis ou gotículas a longas distâncias é muito menor.
Quando a gravidade vira um freio
Segundo a OMS, os primeiros sintomas do Nipah incluem febre, dor de cabeça, dores musculares, vômitos e dor de garganta. Com a progressão da infecção, podem surgir tonturas, sonolência e alterações neurológicas graves, como encefalite aguda. Em casos severos, há pneumonia atípica, insuficiência respiratória e evolução rápida para coma — às vezes em apenas 24 a 48 horas. A taxa de letalidade varia entre 40% e 75%, dependendo do surto e da estrutura de saúde disponível.
Curiosamente, essa gravidade extrema também atrapalha o vírus. “Essas pessoas ficam muito doentes muito rápido. Elas não seguem circulando, trabalhando, viajando. Ficam hospitalizadas”, explica Trindade. Ferreira Neto reforça: “O contágio exige proximidade, contato com secreções, gotículas. Isso impede que o vírus se espalhe silenciosamente”. A OMS aponta que a maioria dos sobreviventes se recupera bem, mas cerca de 20% podem ter sequelas neurológicas de longo prazo. Em alguns casos raros, há recaídas tardias.
Quando o ambiente muda, os vírus aparecem
Os especialistas explicam que o surgimento recorrente do Nipah não é aleatório e nem um “azar biológico”. Ele está ligado, de forma direta, às mudanças provocadas pelo ser humano em ambientes naturais. “O desmatamento é uma invasão de habitats que são reservatórios naturais de muitos vírus”, afirmou o virologista Daniel Ferreira Neto. Segundo ele, quando florestas são destruídas ou fragmentadas, animais silvestres acabam forçados a dividir espaço com humanos e animais domésticos, criando pontes para a transmissão de vírus antes restritos à natureza.
No caso do Nipah, os principais reservatórios conhecidos são morcegos frugívoros. Ferreira Neto explica que, ao perderem fontes naturais de alimento ou abrigo, esses animais passam a circular mais perto de áreas urbanas, plantações e criações de animais. “Quando acontece essa troca forçada de ambiente, esses vírus acabam ganhando mais terreno nos hospedeiros humanos”, disse. O risco não está apenas no contato direto, mas na criação de novos caminhos para o vírus.
A virologista Giliane Trindade amplia esse raciocínio ao lembrar que as regiões tropicais concentram a maior biodiversidade do planeta — e, junto com ela, a maior diversidade de vírus. “É nessa faixa do planeta que estão as florestas tropicais e a maior circulação de vírus zoonóticos”, explicou. Segundo ela, isso não significa que essas áreas sejam um problema em si, mas que o risco aumenta quando esses ecossistemas são pressionados por desmatamento, expansão urbana ou avanço da fronteira agrícola.
Os especialistas também chamam atenção para um obstáculo central: muitas das regiões mais vulneráveis à emergência de vírus zoonóticos estão em países com menos recursos econômicos, sistemas de saúde frágeis e baixa capacidade de fiscalização ambiental. “A ciência já sabe onde estão essas áreas de risco. O problema é transformar esse conhecimento em políticas públicas consistentes”, disse Trindade.
“A ciência já sabe onde estão essas áreas de risco. O problema é transformar esse conhecimento em políticas públicas consistentes”
Giliane Trindade, virologista
Nesse contexto, o Nipah surge como um exemplo claro de alerta, mas não de pânico. Ele mostra como a degradação ambiental pode abrir portas para vírus perigosos, mas também como características biológicas e clínicas podem limitar sua disseminação. Para os especialistas, proteger florestas, investir em vigilância e fortalecer sistemas de saúde continua sendo a forma mais eficaz de evitar que ameaças locais se transformem em crises globais.
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