Manaus, 07 de janeiro de 2026 – Os movimentos recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, envolvendo Venezuela, Groenlândia e Colômbia, revelam uma estratégia marcada por cálculo de ganhos, reafirmação de áreas de influência e uso político da política externa para consumo doméstico. A avaliação é da professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, que interpreta as ações como parte de uma lógica transacional e de reposicionamento geopolítico dos EUA no cenário global.
A especialista afirma que a operação militar conduzida na Venezuela, que resultou na abdução de Nicolás Maduro, funciona como um marco simbólico e estratégico para o governo americano. “O Trump é um transacional. Ele entende a lógica a partir do que ele está vendo de ganhos e perdas”, comentou. Segundo ela, enquanto houver expectativa de retorno político, econômico ou estratégico, a tendência é de continuidade das ações, mesmo com riscos diplomáticos. “Enquanto ele tiver perspectiva de ganhos, ele vai continuar fazendo as ações que achar que têm que serem feitas”, disse.
Denilde observa que o governo Trump parece confortável em “esticar a corda” no plano internacional, mas avalia que a escalada tende a permanecer mais no campo retórico. “A situação parece que vai ficar num nível mais retórico do que numa ação tanto pelos países, China e Rússia, quanto pelo próprio governo americano”, explicou. Para ela, a captura de Maduro já funciona como um “troféu” interno, suficiente para sinalizar força ao eleitorado e abrir espaço para novas pressões sobre Caracas.
Venezuela como pivô estratégico e disputa com China e Rússia
Na leitura da especialista, a Venezuela ocupa posição central nessa ofensiva por concentrar interesses econômicos, energéticos e geopolíticos. “A Venezuela é o pivô dessa confluência, é um país que tem reservas, a maior reserva de petróleo, tem minerais que são importantes, e tem aliados extra regionais importantes”, afirmou. Ela acrescenta que o foco americano também busca limitar a atuação de China e Rússia na região. “A investida é para impedir que Rússia e China estejam presentes também estrategicamente na economia venezuelana”, disse.

Segundo Denilde, as exigências do governo americano ao país passam por pontos já conhecidos da retórica de Washington. “As demandas passam exatamente pelo combate ao tráfico de drogas, a garantia de que o Irã não está atuando no país, a pressão sobre Cuba e a abertura do mercado de petróleo”, explicou. Ela destaca que esses elementos vêm sendo reiterados publicamente como justificativa das ações.
A reação de Pequim e Moscou, até agora restrita ao campo diplomático, também dependerá dos próximos passos internos da Venezuela. “Como a China e a Rússia irão reagir vai depender de como vai ser o governo venezuelano de transição”, afirmou. Para a professora, o equilíbrio entre interesses chavistas e americanos será determinante. “Ainda temos uma série de desdobramentos que podem acontecer a partir do que pode levar ao pós-Maduro”, disse.
“A investida é para impedir que Rússia e China estejam presentes também estrategicamente na economia venezuelana”
Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM
Retorno a uma lógica do século XIX
Denilde chama atenção para uma mudança explícita na política externa e de defesa dos Estados Unidos. “Os Estados Unidos assumem que o mundo está dividido em áreas de influência”, afirmou. Segundo ela, o hemisfério ocidental passa a ser tratado como área central de domínio americano, em uma lógica que remete a práticas do século XIX e amplamente usadas ao longo do século XX. “É uma política em que os americanos usam a força militar para intervir nos países da região para garantir seus interesses estratégicos”, explicou.
Esses interesses, segundo a especialista, incluem tanto o acesso a recursos naturais quanto a contenção de atores externos. “Parte dessa política define que os Estados Unidos agirão para impedir a presença de países extra-regionais que possam ameaçar esses interesses”, afirmou. Nesse contexto, países com menor capacidade de articulação internacional tendem a ficar mais vulneráveis. “Países que não têm condições de criar coalizões externas estarão com maior dificuldade de evitar qualquer tipo de intervenção direta”, disse.
A Colômbia, segundo Denilde, entra nesse tabuleiro por razões diferentes da Venezuela. “A Colômbia é relevante pelo tamanho, pela capacidade de produção de cocaína e pela hostilidade do governo Trump com o governo Petro”, explicou. Ela destaca que o processo eleitoral colombiano pode abrir espaço para uma estratégia distinta. “Os Estados Unidos podem fazer maior ingerência para conseguir uma mudança do governo via processo eleitoral”, afirmou.
Já a Groenlândia aparece como um ativo estratégico de longo prazo. “Os americanos entendem que a Groenlândia passa a ser uma área importante de domínio para a defesa frente a qualquer investida russa”, disse. Além do fator militar, Denilde ressalta o peso econômico. “É um território com capacidade de exploração de minerais que hoje são recursos estratégicos”, afirmou, destacando que, nesse caso, o acesso a minerais ganha centralidade maior do que o petróleo venezuelano.
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