Matiz

Protagonismo feminino não precisa significar isolamento

Diante da onda de violência e feminicídios, é compreensível chamar homens de "feministos" e pedir que se calem. Mas, se você quer que menos mulheres morram, precisa considerar que só o poder político, conquistado por um movimento amplo, sólido e articulado, é capaz de transformar realidades

Manaus, 09 de dezembro de 2025 – O Brasil vive uma onda brutal de violência contra mulheres, com números que crescem ano após ano e revelam um cenário de medo, indignação e luto em todas as regiões do país. Em meio a esse contexto, um debate ganhou força nas redes sociais: diante do feminicídio, homens deveriam se calar e deixar que apenas mulheres se manifestem? A ideia ecoa a exaustão de quem está cansada de pedir para não morrer, mas também levanta uma questão essencial sobre poder, alianças, mobilização e o caminho real para impedir que mais vidas sejam destruídas.

Os números já são parte do nosso doloroso cotidiano. Em 2023, o Atlas da Violência mostrou que 3.903 mulheres foram assassinadas no Brasil, o maior número desde 2018. Isso significa cerca de dez mulheres por dia, sem contar os casos que nunca chegam às estatísticas — e são muitos. A violência está por toda parte: metrópoles, periferias, comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas, cidades pequenas. Do Norte ao Sul, mulheres de todas as idades e origens seguem morrendo em uma guerra que ninguém teve coragem de declarar, mas que está diante dos nossos olhos.

Nesse clima pesado, dolorido e revoltante, surgem nas redes sociais postagem dizendo que os homens deveriam parar de se manifestar contra essa violência. Outros acusam esses homens de serem “feministos”, apenas “lacrando” enquanto continuam se beneficiando do mesmo sistema. E que, por isso, deveriam ficar “quietos”.

Eu entendo a revolta. Entendo a exaustão. Entendo a sensação de viver num país em que o machismo estrutural é tão profundo que muitos dos que posam de progressistas já foram denunciados por agressões, abusos e violências. Mas, apesar de compreender esse sentimento, eu discordo. E discordo porque não estamos falando de simbolismos ou disputas de protagonismo — estamos falando de poder.

A primeira questão é simples: pedir silêncio a todos os homens ignora a dor dos que também perderam mulheres para essa guerra. O que diríamos então a Ari Friedenbach, que perdeu sua filha? A Raul Gazolla, que perdeu sua esposa? A Vitor Belfort, que perdeu sua irmã? Que devem ficar quietos? Que estão “lacrando”? Elas estão tentando sobreviver a algo para o qual não existe nome, nem consolo, nem cura. E transformam essa dor em voz, porque sabem que o silêncio só fortalece quem se beneficia dele.

Dizer a esses homens — e a tantos outros anônimos — que fiquem quietos é, no fundo, exigir que parte da sociedade enterre seu luto junto com suas mulheres. E nenhum país melhora enterrando mais vozes. Quando vejo Ari, Raul e Vitor, eu só consigo pensar: Meu Deus, eu posso ser o próximo. E se o ex-marido da minha namorada não aceitar a separação? E se o namorado da minha sobrinha for um feminicida? E se minha mãe estiver no caminho de um funcionário que não aceitar ser chefiado por mulheres?

Além disso, há um ponto incômodo, mas real: pedir não muda nada. As manifestações recentes repetiram frases como “parem de nos matar”, e é doloroso admitir que isso, sozinho, é inócuo. Não é a primeira vez que gritam isso. Não será a última. Direitos humanos jamais foram conquistados por súplicas — mas por luta, por vezes, armada.

E luta, na história da humanidade, sempre significou mobilização coletiva organizada. Gandhi não libertou a Índia pedindo. O movimento negro nos Estados Unidos não derrubou o segregacionismo pedindo. Nelson Mandela não derrotou o apartheid pedindo.

Todos esses movimentos venceram porque acumularam força social. Porque trouxeram aliados — inclusive homens, brancos, grupos que inicialmente eram vistos como parte do problema. Porque entenderam que mudar estruturas exige mais do que indignação: exige organização.

E isso nos leva ao ponto central: como ninguém aqui quer uma guerra civil, o único tipo de poder capaz de alterar a realidade é o poder político. E estamos às portas de uma eleição. Não é exagero dizer que o que estará em disputa não são apenas cargos — é poder de proteger vidas, poder de mudar leis, poder de garantir estruturas de prevenção, atendimento, investigação, punição e acolhimento.

Quem quiser fazer mais do que pintar cartazes precisa entender que sem ocupar espaços de poder, nada se transforma. E ninguém chega a esse poder sozinho. Não há movimento social vitorioso que tenha existido sem alianças amplas.

Um movimento de mulheres sólido, com agenda real de enfrentamento à violência, só se consolida com o maior número possível de pessoas aderindo à causa — homens incluídos. Não para tomar protagonismo, mas para fortalecer o alcance, ampliar a pressão e dividir responsabilidades. Porque educar meninos para que não se tornem agressores, corrigir comportamentos hostis, enfrentar a masculinidade tóxica e eliminar o terreno onde florescem os chamados “feministos” exige influência dentro das casas, escolas e círculos masculinos — lugares onde muitas mulheres jamais terão acesso direto.

Homem educa homem também. E dizem que o exemplo arrasta. E é preciso educar agora — para que as próximas gerações não repitam esse ciclo interminável.

Mesmo que, a partir de hoje, todos os feminicidas e abusadores fossem presos por quarenta anos, nada disso traria de volta as mulheres que perderam a vida. O que podemos fazer é evitar as próximas mortes. E isso só acontecerá se a sociedade, como um todo, romper com a cultura de desrespeito e violência — e essa mudança não virá se cada um lutar sozinho, ou se metade da população for instruída a calar.

É claro que o protagonismo é das mulheres. É delas o lugar de fala sobre o que vivem, sentem e enfrentam diariamente. Mas protagonismo não é isolamento. Não é expulsar aliados. E não é abdicar de poder. O que realmente transformará esse país não é silêncio — é organização, educação e poder político. Se não fizermos isso agora, o que estaremos plantando não é justiça: são as próximas passeatas.


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