Engrenagens

Não é impressão sua: as chuvas em Manaus estão ficando mais intensas

Tempestade deste domingo em Manaus está alinhada a estudos que mostram ao longo dos últimos anos o aumento da intensidade das chuvas na Amazônia, impulsionado por mudanças no Atlântico, Pacífico e padrões atmosféricos regionais.

Manaus, 08 de dezembro de 2025 – A tempestade que provocou rajadas de 55 km/h e acumulados de até 78 mm durante a madrugada, voltou a expor a vulnerabilidade de Manaus a eventos de chuva intensa. O evento reforçou uma tendência já observada em estudos científicos climatológicos recentes que mostram: as chuvas na região estão ficando mais intensas.

A Prefeitura contabilizou 68 ocorrências atendidas, incluindo alagamentos, desabamentos, erosões, tombamentos de árvores e deslizamentos em diferentes regiões da cidade. Os maiores volumes foram registrados nos bairros Colônia Antônio Aleixo, Cidade de Deus, Puraquequara, Santa Luzia e Santa Etelvina, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Entre as ocorrências atendidas, foram registradas: dez alagamentos, sendo nove na zona Leste e um na zona Norte; 29 tombamentos de árvores, sendo quatro na zona Centro-Oeste, 11 na zona Leste, cinco na zona Sul, quatro na zona Oeste e cinco na zona Centro-Sul; duas erosões, sendo uma na zona Sul e uma na zona Norte; Oito desabamentos na zona Sul; 12 destelhamentos, sendo oito na zona Leste, um na zona Sul, um na zona Norte, um na zona Centro-Oeste e um na zona Centro-Sul; Três riscos de desabamento na zona Leste; um deslizamento de terra na zona Leste; e dois bueiros danificados na zona Leste.

Tendência preocupante

Estudos publicados na Communications Earth & Environment, em 2024, e na Revista Brasileira de Ciências Ambientais, em 2025, apontam que áreas da Amazônia vêm apresentando aumento consistente em indicadores como Rx1day, R95p e SDII, sugerindo que episódios de chuva forte se tornaram mais frequentes e mais intensos. Esses trabalhos analisaram dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e destacaram tendências relevantes em estações próximas a Manaus, onde a variabilidade climática regional tem se refletido em tempestades com volumes semelhantes aos registrados neste fim de semana.

O meteorologista Djanir Sales, mestre em clima e ambiente pela UEA/INPA, afirma que o comportamento recente da chuva na capital é compatível com o que tem sido observado nos últimos meses. Segundo ele, o regime pluviométrico vem registrando valores acima da média desde junho devido a padrões oceânicos e atmosféricos que favorecem maior entrada de umidade sobre o norte da Amazônia.

“O regime de chuvas em Manaus tem apresentado valores acima da média desde junho”, explicou Sales. Ele destacou que a configuração do Atlântico Tropical Norte tem desempenhado um papel direto no aumento da umidade. “A maior entrada de umidade do Atlântico Tropical Norte tem contribuído para esse aumento de chuva”, comentou.

Sales observou que as anomalias de temperatura da superfície do mar no Atlântico Tropical Norte estão mais fracas do que no ano anterior, o que influencia o comportamento da Zona de Convergência Intertropical. “A redução das anomalias do Atlântico Tropical Norte diminui o deslocamento da Zona de Convergência Intertropical para o norte”, disse. Segundo ele, essa menor migração mantém o corredor de umidade mais próximo da região. “A posição mais ao sul da Zona de Convergência Intertropical favorece a entrada de umidade sobre o norte da Amazônia”, afirmou.

Outros sistemas atmosféricos

O meteorologista também citou contribuições de outros sistemas atmosféricos característicos deste período. “A Alta da Bolívia e as incursões de frentes frias no sul do país modulam os cavados no Nordeste”, destacou. Ele acrescentou que a interação desses fenômenos forma um corredor úmido que se estende da Amazônia ao Sudeste. “Esse corredor de umidade associado à Zona de Convergência do Atlântico Sul também contribui para as chuvas na região”, disse.

Outro fator presente na configuração atual é o resfriamento das águas do Pacífico. Sales explicou que esse fenômeno se intensificou nos últimos meses e vem apresentando efeitos perceptíveis desde novembro. “O Pacífico tem mostrado um padrão de resfriamento que começou a influenciar a atmosfera nas últimas semanas”, comentou. Ele afirmou que esse resfriamento não impede a formação de nuvens na Amazônia. “Esse padrão não inibe a formação de nuvens e acaba antecipando o período chuvoso que normalmente começa em dezembro”, afirmou.


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