Manaus, 02 de dezembro de 2025 – Um final de semana de horror: subitamente, o Brasil registrou uma escalada de violência contra mulheres, com casos que chocam pela brutalidade e frieza. A combinação de homens construídos sob masculinidade tóxica, pressionados por expectativas sociais inalcançáveis e radicalizados por discursos de ódio em redes sem qualquer controle tornam as mulheres alvos fatais.
Pra se ter ideia, apenas nos últimos quatro dias tivemos: No dia 28 de novembro, no CEFET-RJ, um funcionário armado assassinou duas mulheres que ocupavam cargos de chefia, alegando não conseguir lidar com autoridade feminina. Em 29 de novembro, em São Paulo, uma mulher foi arrastada por metros por um ex-companheiro que não aceitava a rejeição, sofrendo amputação de ambas as pernas. E no dia 30, em Juruá, no Amazonas, uma menina indígena de 12 anos foi vítima de estupro coletivo, em sua própria aldeia.
Algoritmo da misoginia
Para entender o problema no mundo real, antes é necessário entendê-lo no mundo virtual. Estudos indicam que as redes sociais amplificaram e transformaram as formas de violência contra mulheres, sobretudo no plano simbólico e psicológico.
A pesquisa Technology‑facilitated sexual violence: a review of virtual violence against women, publicado em 2022 na plataforma Research, Society and Development) concluiu que a internet e as plataformas digitais facilitaram práticas de assédio, coerção sexual e humilhação, permitindo que o discurso misógino se propagasse rapidamente e com baixo controle.
Segundo os autores, esse ambiente virtual contribui para criar uma cultura de hostilidade contra mulheres, reforçando padrões de desigualdade de gênero e legitimando, de forma simbólica e psicológica, agressões que podem se manifestar também no mundo físico.
Nesse contexto é fundamental entender o chamado movimento RedPill. O movimento surgiu na internet como uma subcultura da chamada “manosfera”, inspirada na metáfora da “pílula vermelha” do filme The Matrix (1999), que simboliza a ideia de “acordar para a verdade”.
Seus adeptos defendem uma visão de mundo em que a masculinidade tradicional estaria ameaçada pela igualdade de gênero e pelo avanço dos direitos das mulheres, interpretando mudanças sociais como ataque à identidade masculina.
O estudo A Holistic Indicator of Polarization to Measure Online Sexism, da Cornell University, analisou fóruns e comunidades online vinculados ao Red Pill e encontrou altos níveis de hostilidade e desumanização de mulheres, mostrando que esses ambientes funcionam como catalisadores de ressentimento, ódio digital e radicalização ideológica.
Esse ambiente de ódio ganha contornos reais na vida cotidiana quando influenciadores que se proclamam redpill propagam não só ideias, mas práticas de dominação. O caso do influenciador Thiago Schutz — conhecido como “Calvo do Campari” — talvez seja hoje o seu exemplo mais cristalino.
Preso em flagrante no dia 29 de novembro de 2025, em Salto (SP), por agredir a namorada e acusado de tentativa de estupro, ele acumula histórico de divulgação de discursos misóginos e de associação declarada com o Red Pill. Segundo os autos, a vítima apresentava múltiplas lesões e relatou que foi agredida após recusar relação sexual.
Esse desdobramento — do ódio digital para a agressão física — deixa clara a concretude do risco. A retórica de dominação, quando amplificada por redes misóginas e internalizada por indivíduos vulneráveis, tem potencial para se converter em violência real, reforçando que o que se vê nas telas não é discurso inocente, mas um caldo ideológico de ódio com consequências reais.
Grande alcance
Enquanto vivenciamos casos aterradores de violência contra a mulher no mundo real, o mundo virtual se torna um lugar tão ou mais hostil para elas. Um estudo recente, intitulado Representações sociais emergentes no universo Red Pill e MGTOW brasileiro, publicado na plataforma E‑Compós, analisou 94 descrições de canais brasileiros no YouTube vinculados a esses movimentos e identificou padrões recorrentes: a mulher vista como “indigna de confiança”, a exaltação da “autoridade masculina”, a valorização do desempenho (sexo e status) e a narrativa de que os homens precisam “desvendar uma verdade oculta” sobre os papéis de gênero.
Outro estudo, Misoginia online: a Red Pill no ambiente virtual brasileiro, publicado na Revista Feminismos, mapeou redes sociais e páginas dedicadas à machosfera, documentando como essas comunidades constroem identidades masculinas baseadas em ressentimento e hostilidade contra mulheres, reforçando a ideia de que a emancipação feminina representa ameaça — e ampliando o alcance desse discurso misógino em escala nacional.
Quando o ódio se materializa
O relatório da ONU de 2024 sobre feminicídios mostra que globalmente cerca de 50 mil mulheres e meninas foram mortas por parceiros íntimos ou familiares — uma morte a cada 10 minutos — e mais de 60% desses crimes ocorreram em casa. No Brasil, em 2024, foram registrados 1.450 feminicídios, mostrando que a violência contra mulheres segue um padrão estruturado e contínuo.
De acordo com o Atlas da Violência 2025, entre 2022 e 2023 o número de homicídios femininos no Brasil cresceu 2,5%, mesmo em um contexto geral de queda nos homicídios no país. Foram registradas 3.903 mortes de mulheres — o equivalente a uma média de dez mulheres assassinadas por dia — o que representa uma taxa média nacional de 3,5 homicídios para cada 100 mil mulheres. O relatório revela ainda que a violência letal atinge de forma desproporcional as mulheres negras: 68,2% das vítimas eram pretas ou pardas no último ano.
Fatores sociais
Mas as redes e o discurso de ódio são apenas o palco. Falta o combustível. E aqui é preciso olhar para outros aspectos. Estudos recentes no Brasil indicam que a precariedade no mercado de trabalho e o desemprego estão diretamente associados ao aumento da violência doméstica.
A pesquisa Job Displacement, Unemployment Benefits and Domestic Violence publicado na revista Review of Economic Studies em 2021 analisou registros administrativos e mostrou que a perda de emprego eleva significativamente os casos de agressão dentro de casa. Segundo o estudo, homens desempregados apresentam aumento no risco de cometer violência doméstica, enquanto mulheres que perdem o emprego ficam mais vulneráveis a serem vítimas.
O levantamento também aponta que a insegurança econômica estrutural, como a expiração de benefícios de seguro-desemprego, contribui para o agravamento da violência. O estudo observa que não se trata apenas da queda de renda, mas da instabilidade e tensão que o desemprego gera dentro das famílias, criando um ambiente propício para conflitos e agressões.
Outro levantamento, Intimate Partner Violence among women living in families with children under the poverty line and its association with common mental disorders during COVID-19 pandemics in Ceará, Brazil publicado na revista Public Health, reforça essa correlação. O estudo revelou que mulheres em famílias economicamente vulneráveis relataram maior incidência de violência por parceiros íntimos, e que a perda de emprego durante a pandemia ampliou a exposição a agressões e o sofrimento psicológico.
Masculinidade tóxica, redes e culpabilização feminina
Desde cedo, meninos recebem mensagens que reforçam que dominar, controlar e impor são formas legítimas de afirmação e de papel social. Essa lógica de controle e dominação exige que um papel tanto para o homem (ser provedor financeiro do lar e da esposa) quanto para a mulher (ser submissa ao homem).
Paralelamente, a doutrinação religiosa fundamentalista fortalece esses papéis de gênero hierarquizados, enquanto as redes sociais oferecem ambientes onde a misoginia se propaga sem freios. Nesse contexto, somam-se as frustrações econômicas, educacionais e sociais — a ausência de empregos, a precarização da formação profissional e a desigualdade persistente — se convertem em ressentimento profundo.
Ou seja, esse cenário não é só incompatível com os princípios básicos de direitos humanos – a mulher deve ter autonomia plena de si mesma – ele também é inatingível. Em uma sociedade que educação não garante bons empregos e os empregos não fecham as contas, resta a raiva e o ressentimento. E isso precisa ser canalizado para algum lugar.
É aqui a face mais cruel desse sistema: ele canaliza essa raiva e esse ressentimento para a mulher. O que une esses episódios não é a violência individual, mas um sistema que educa homens para enxergar o mundo pela lente do poder, da competição e da dominação e a mulher como seu objeto. E é esse sistema que precisa acabar.
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