Humanidades

Big Techs lucram com anúncios usados em golpes durante a Black Friday

Dossiê indica que anúncios pagos aparecem em posições de grande destaque em plataformas como Google e Meta, onde direcionam usuários para páginas clonadas, formulários falsos e sites que capturam senhas

Manaus, 28 de novembro de 2025 – As plataformas digitais Google e Meta têm monetizado anúncios usados em golpes durante a Black Friday, segundo o dossiê “Golpes Patrocinados”, produzido pelo Projeto Brief e pelo Sleeping Giants Brasil, divulgado nesta quinta-feira, 27.

O documento afirma que campanhas fraudulentas são exibidas, impulsionadas e monetizadas antes de serem removidas, permitindo que criminosos atinjam milhares de consumidores durante o período de maior volume de compras do ano.

Anúncios fraudulentos se misturam à publicidade legítima

O dossiê indica que anúncios pagos aparecem em posições de grande destaque em plataformas como Google e Meta, inclusive no topo dos resultados de busca, onde direcionam usuários para páginas clonadas, formulários falsos e sites que capturam senhas e códigos de autenticação. Segundo o documento, “primeiro as plataformas exibem e monetizam anúncios criminosos; depois removem parte deles, quando o dano já ocorreu”.

Uma das constatações apresentadas é que o modelo de anúncios de ambas as empresas — baseado em segmentação algorítmica, automação de moderação e “baixa fricção” para criação de contas pagas — favorece a operação de fraudes em larga escala. O documento destaca que as ferramentas de publicidade oferecem exatamente o que os golpistas precisam: alcance massivo, pagamento integrado, segmentação fina e pouca verificação prévia.

O documento reúne ainda menções a documentos internos da Meta, que indicariam que até 70% dos novos anunciantes promoviam golpes, produtos ilegais ou conteúdos de baixa qualidade. Outra referência citada mostra que a empresa teria faturado cerca de US$ 16 bilhões em 2024 com anúncios fraudulentos — valor que corresponderia a aproximadamente 10% da receita anual, de acordo com informações atribuídas à Reuters.

No caso do Google, o material cita episódios em que anúncios fraudulentos pagos levam consumidores a sites maliciosos. Nesses casos, segundo o dossiê, impressões e cliques são cobrados normalmente, mesmo quando direcionam para páginas de roubo de credenciais.

Black Friday amplia circulação de golpes e prejuízos

A Black Friday é apontada no documento como um período que intensifica o problema, por reunir grande volume de buscas e forte interesse em promoções. O dossiê descreve que “golpistas aproveitam momentos de alta demanda para impulsionar anúncios com ofertas irreais, produtos inexistentes ou benefícios falsos”.

O levantamento reúne ainda estatísticas de vitimização que ajudam a contextualizar o cenário. Uma pesquisa citada revela que 33,4% da população adulta, cerca de 56 milhões de brasileiros, foi vítima de algum golpe financeiro online no último ano. Entre as modalidades mais comuns estão compras não entregues (quase 30 milhões de pessoas) e transferências falsas via PIX e boletos, que atingiram mais de 24 milhões de consumidores e geraram prejuízos superiores a R$ 28 bilhões.

Essas perdas, segundo o documento, se refletem em famílias que deixam de usar meios digitais de pagamento por medo, aposentados que perdem benefícios em um clique e jovens endividados após tentarem aproveitar ofertas aparentemente legítimas. O dossiê aponta que a insegurança digital afeta também a economia ao reduzir a confiança no comércio eletrônico.

Além dos prejuízos individuais, o documento menciona que golpes já superam furtos e roubos de rua como principal ameaça patrimonial no país, segundo levantamentos citados.

O dossiê também reúne casos em que a AGU notificou ou acionou plataformas para retirada de anúncios que imitavam serviços públicos e usavam indevidamente símbolos oficiais. Entre eles estão golpes relacionados ao Bolsa Família, ao CPNU e a serviços previdenciários, que usavam imagens manipuladas ou páginas falsas.

O levantamento inclui ainda decisões judiciais, como liminares do Tribunal de Justiça de São Paulo, que determinaram a remoção imediata de links fraudulentos patrocinados no Google Ads.

Outro conjunto de dados citados aborda o uso crescente de deepfakes por fraudadores, que utilizam imagens manipuladas de autoridades públicas, celebridades e médicos para dar credibilidade a anúncios de produtos inexistentes, curas falsas e investimentos fraudulentos. Pesquisas do NetLab/UFRJ mapeadas pelo dossiê identificaram conteúdos desse tipo circulando amplamente em campanhas patrocinadas.


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