Manaus, 24 de novembro de 2025 – A COP30 terminou sob forte frustração de organizações climáticas, especialistas e representantes de comunidades tradicionais, que classificaram o encontro como incapaz de entregar o mínimo necessário diante da emergência climática.
A avaliação predominante é que a conferência falhou em apresentar um plano concreto para eliminar combustíveis fósseis e garantir financiamento robusto para adaptação, ampliando o abismo entre a linguagem diplomática e a realidade de países vulneráveis.
As críticas começaram com a 350.org. Ilan Zugman, diretor para América Latina e Caribe, sublinhou que lideranças comunitárias fizeram apelos claros durante a conferência. “Em Belém, povos indígenas, comunidades tradicionais e lideranças da linha de frente deixaram um recado claro: ação climática real significa acabar com os combustíveis fósseis e garantir o financiamento que as comunidades precisam para sobreviver”, comentou.
Mesmo com esse apelo, Zugman acredita que a falta de avanços no texto final beneficiou justamente o setor causador dos maiores problemas. “A falta de compromissos concretos no texto final da COP30 mostra quem ainda se beneficia do atraso: a indústria fóssil e os ultra-ricos”, disse.
O diretor-adjunto de Políticas e Campanhas da 350.org, Andreas Sieber, considerou o resultado insuficiente e distante do necessário. “Belém não tropeçou – a verdade é que a COP30 foi conduzida para um resultado aquém do necessário”, afirmou.
Sieber também criticou a condução das negociações. “O presidente Lula e a ministra Marina Silva mostraram liderança real ao enfrentar os combustíveis fósseis, mas a equipe de negociação da Presidência recuou para decisões a portas fechadas, sufocando o espírito multilateral que poderia ter elevado a ambição.”, explicou.
A francesa Fanny Petitbon, coordenadora da equipe da 350.org na França, destacou incoerências de países desenvolvidos. “Em Belém, as nações ricas expuseram uma hipocrisia insuportável: cobram ambição justamente dos que menos contribuíram para a crise, enquanto se recusam sistematicamente a pagar sua dívida climática”, afirmou. Ela também demonstrou preocupação com a lentidão no financiamento. “O compromisso de triplicar o financiamento para adaptação é fraco, vago e chega perigosamente tarde.”, declarou.
Faltaram avanços consistentes
A Oxfam Brasil reforçou a mesma percepção de insuficiência. Viviana Santiago, diretora-executiva da organização, avaliou que a COP30 decepcionou quem esperava avanços consistentes. “A COP30 ofereceu um fio de esperança, mas muito mais decepção, já que a ambição dos líderes globais continua aquém do que é necessário para um planeta habitável”, avaliou.
Santiago também criticou a postura das nações ricas em relação à adaptação. “As nações ricas se recusaram a fornecer o financiamento crucial para adaptação”, disse. E concluiu destacando uma contradição central. “Os países ricos falam em eliminar progressivamente os combustíveis fósseis, mesmo enquanto planejam uma grande expansão do petróleo e gás”, completou.
Do Pacífico, região já afetada pela elevação do nível do mar, Fenton Lutunatabua lamentou a falta de medidas objetivas. “O Mecanismo de Ação de Belém é um avanço, sim, mas sem uma transição verdadeira dos combustíveis fósseis, continuamos parados no tempo”, afirmou.
Lutunatabua também destacou o risco imposto às comunidades mais expostas. “A declaração final da COP30 não traz um plano para acabar com os fósseis, nem assegura financiamento suficiente para as comunidades na linha de frente”, disse.
Críticas também vieram do campo da tecnologia e governança digital. O jurista e auditor de tecnologia Sthefano Cruvinel apontou que o setor digital permanece sem escrutínio adequado. “Hoje, o mundo opera sob a crença conveniente de que digital é sinônimo de sustentável”, comentou.
Cruvinel também alertou para a falta de métricas no setor. “Não há neutralidade climática possível enquanto uma das indústrias mais poderosas do mundo opera sem um sistema de aferição claro, auditável e comparável”, explicou.

O que diz o documento final da COP30
O documento aprovado em Belém, o Global Mutirão, reforça compromissos já assumidos no Acordo de Paris, afirma a centralidade dos direitos humanos, reconhece a necessidade urgente de limitar o aquecimento a 1,5°C e destaca a importância de ampliar a cooperação internacional.
Também foram anunciados mecanismos como o Acelerador Global de Implementação e a Missão Belém para 1,5°C, além de projetar a mobilização de US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 para apoiar países em desenvolvimento.
Apesar das reafirmações e da retórica de cooperação, o documento não estabelece prazos para eliminação dos combustíveis fósseis e não define valores concretos para financiamento de adaptação, o que sustentou a onda de críticas de organizações, especialistas e comunidades vulneráveis.
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