Neste Dia Mundial do Jornalismo, o Vocativo reflete sobre os rumos da imprensa e faz uma proposta urgente. No momento em que as mudanças climáticas se tornam uma realidade implacável e a extrema direita ameaça democracias ao redor do mundo, nossa profissão nunca foi tão importante. Porém, com a precarização e a falta de financiamento, ela nunca esteve sob risco tão grande. E diante do fracasso dos modelos atuais, é hora de buscar algo novo: um Fundo Público de Apoio ao Jornalismo.
Em meio a um cenário global de desinformação, ascensão da extrema direita e pressões econômicas, o país enfrenta um desafio estrutural: garantir um jornalismo independente, plural e comprometido com o interesse público. Atualmente, grande parte do jornalismo investigativo brasileiro depende de financiamentos de ONG’s e fundações estrangeiras. E isso é extremamente problemático.
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É necessário reconhecer que essas organizações contribuíram para manter trabalhos jornalísticos relevantes em operação. No entanto, seus critérios de financiamento e prioridades temáticas, bem como histórico controverso (para dizermos o mínimo) levantam questões éticas e estratégicas que não podem ser ignoradas.
Por um lado, este tipo de entidade tende a privilegiar pautas ligadas a direitos de minorias, diversidade, questões ambientais e denúncias de empresas nacionais que violam leis. Por outro, investigações sobre realidades locais amplas, contextos políticos específicos ou questões macroeconômicas de soberania nacional permanecem, muitas vezes, fora do radar.
O problema é que de nada adianta, por exemplo, apurar irregularidades na atuação de uma empresa norte-americana em um país sem identificar a atuação de empresas locais ou políticas públicas nacionais que permitem essas práticas. Da mesma forma, a cobertura de direitos de minorias ou questões ambientais, embora importante, frequentemente não se conecta com políticas econômicas ou decisões governamentais que sustentam os problemas.
As reportagens desses fundos, além de escassas e com critérios obscuros de seleção, concentram-se majoritariamente em empresas pontuais, enquanto políticos locais e empresas que atuam contra interesses do cidadão brasileiro recebem atenção limitada. Há uma proibição tácita de tratar sobre política vinda nestes editais que é incompreensível.
Vale lembrar que no Brasil, estrangeiros não podem ser detentores majoritários de veículos de comunicação, já que a Constituição Federal limita a participação de capital estrangeiro em empresas jornalísticas e de radiodifusão sonora e de sons e imagens a até 30%, sempre exigindo controle editorial e decisório de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos.
A restrição está ligada à proteção da soberania nacional e à preservação da identidade cultural e informativa do país, evitando que interesses externos influenciem diretamente a produção e difusão de conteúdos que moldam a opinião pública. Esse controle busca garantir que os meios de comunicação, considerados estratégicos para a democracia e a formação da cidadania, permaneçam sob direção nacional, equilibrando liberdade de mercado com interesses de Estado.
Que fique claro: ninguém está dizendo que tais iniciativas devem ser extintas ou que essas organizações devem ser expulsas do país. O problema está na dependência dela. Um Fundo Nacional Público de Jornalismo, gerenciado por regulamentação e ente público legalmente constituído, devidamente protegido de ingerência política casual, permitiria equilibrar essa cobertura.
O jornalismo está para a sociedade como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) está para a administração pública: trata-se de algo único, sui generis. Ele precisa ser independente do Estado, mas igualmente independente da iniciativa privada, já que precisa ter a capacidade de investigar ambos. Somente com financiamento que não esteja amarrado a interesses empresariais nem políticos será possível tratar, sem viés e sem amarras, de causas estruturais e problemas coletivos.
O exemplo da COP30
Esse editorial vem de uma decisão recente. Peço aqui licença para ao mesmo tempo justificar o texto e a atual cobertura do site. Como podem ter notado, o Vocativo diminuiu sua cobertura. E isso terá caráter permanente. E isso acontecerá por falta de financiamento. Infelizmente não é possível monetizar os famosos “tapinhas nas costas”.
Mesmo sendo um dos veículos que mais produziu conteúdo original sobre meio ambiente na Amazônia nos últimos anos cinco anos, o site ficará de fora da cobertura da COP30, em Belém. Mesmo premiado e reconhecido, o site foi sistematicamente preterido até exaurir seus recursos. Agora é torcer para as iniciativas de cunho identitário que milagrosamente sempre são contempladas consigam fazer um trabalho melhor.
Outros colegas de outros sites também são vítima do mesmo problema, mas que preferem não se manifestar por medo de retaliações. E não há como julgá-los, diante também da precariedade das condições de trabalho de jornalistas independentes, especialmente na Amazônia. O Vocativo não terá esse problema porque desistiu dessas formas de financiamento em agosto deste ano.
Melhor trabalhar normalmente por um salário decente e atualizar quando for possível do que se submeter a processos de lisura questionável. No atual cenário, o Vocativo entende que não há como confiar neste tipo de processo. Só é uma pena que alguns desses processos não ocorram no setor público. Lá alguns seriam prato cheio para o Ministério Público.
O dilema do identitarismo e a fragmentação social
Há outro sério problema que precisa ser abordado, ainda que cause desconforto: identitarismo. O efeito indireto desse tipo de financiamento na fragmentação de movimentos sociais é a deformação de um dos pilares do jornalismo.
Em reportagens financiadas por algumas dessas fundações, por exemplo, é comum que o foco esteja no financiamento de iniciativas que atendam critérios étnicos antes de jornalísticos, tanto de composição de equipe quanto de atuação. O resultado é um jornalismo que trata sintomas, mas raramente aborda causas estruturais. E pior: que apenas retrata estereótipos de selecionadores estrangeiros.
O identitarismo não pode ditar os rumos do jornalismo. Se o jornalismo é, em essência, uma prática para o coletivo, como apenas alguns grupos de algumas temáticas podem ser contempladas? A luta contra opressões – que jamais pode ser confundida com identitarismo – é essencial para garantir uma sociedade justa, inclusa e plural, mas faz parte de um contexto maior e não pode ser um fim em si mesmo. Sem integrar essas pautas a uma análise mais ampla de problemas coletivos, faremos apenas ótimas peças publicitárias.
A urgência de um fundo nacional de jornalismo de caráter público
Diante desse contexto, surge a necessidade de o Brasil criar seu próprio Fundo Nacional de Jornalismo de caráter público. É preciso dar total ênfase à palavra PÚBLICO. Esse fundo viria da taxação de plataformas digitais (para os quais produzimos conteúdo e não somos remunerados) somadas às verbas publicitárias de União, Estados e Municípios, que deveriam servir como forma de democratizar as comunicações, mas hoje em muitos casos servem apenas para conchavos políticos.
Sendo uma verba de caráter pública, é muito mais viável a regulamentação para destinação responsável, sob fiscalização de órgãos de controle, com arcabouço legal definido. Esse fundo permitiria que a cobertura investigativa de veículos independentes priorizasse interesses coletivos, incluindo a atuação de empresas nacionais e estrangeiras, políticas públicas e políticos locais, sem comprometer a diversidade e a inclusão.
Transparência, autonomia e governança
Para funcionar de forma ética e eficiente, o fundo deveria ser gerido por um conselho plural, composto por representantes de órgãos de controle (Tribunais de Conta e Ministério Público), bem como membros da sociedade civil, jornalistas e acadêmicos, garantindo transparência, prestação de contas e autonomia editorial. 3
Políticas claras de inclusão poderiam assegurar a representação de minorias e grupos historicamente marginalizados, sem transformar o identitarismo em critério exclusivo de financiamento. A meta seria produzir jornalismo de interesse público, capaz de investigar causas profundas, fortalecer a democracia e engajar a sociedade em torno de soluções estruturais.
A hora é agora
O jornalismo independente é um pilar essencial de qualquer democracia. É inaceitável que ele dependa majoritariamente de interesses externos que moldam a agenda editorial. A criação de um Fundo Nacional de Jornalismo é uma necessidade ética, estratégica e política.
Neste Dia Mundial do Jornalismo, mais do que celebrar a profissão, é preciso assumir a responsabilidade de financiar, proteger e fortalecer a imprensa de que a sociedade brasileira realmente precisa, garantindo que ela cumpra seu papel de investigação, prestação de contas e fortalecimento da democracia.
Celebrado no dia 28 de setembro, o Dia Mundial do Jornalismo é uma campanha criada em 2018 que desde então vem mobilizando organizações de jornalismo de várias partes do mundo. Trata-se de uma iniciativa criada pela Canadian Journalism Foundation (CJF), com apoio da World Editors Forum (WEF) – que faz parte da World Association of News Publishers (WAN-IFRA), do Projeto Kontinuum e do IFPIM (The International Fund for Public Interest Media).
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