Nos últimos anos, o chamado “jornalismo de soluções” ganhou espaço de forma avassaladora dentro dos círculos de comunicação em todo o mundo, passando a ser critério informalmente obrigatório nos editais de financiamento. A ideia parece sedutora: em vez de falar apenas de problemas, o jornalismo passaria a mostrar também as iniciativas que tentam resolvê-los. À primeira vista, soa como uma prática positiva, capaz de contrabalançar o excesso de más notícias que castigam nossa saúde mental e oferecer esperança ao público. Mas o Vocativo – mantendo o mais absoluto e profundo respeito pelos colegas que abraçaram essa causa – não adota nem adotará essa abordagem. E é hora de falar dos motivos disso.
O primeiro deles é sobre a pedra fundamental do jornalismo. Nossa função é investigar, esclarecer e denunciar, pautados sempre pelo máximo rigor, para que a sociedade cobre e se mobilize em torno dos fatos. Ao assumir o papel de mostrar “soluções”, o risco é trocar a denúncia das causas estruturais por uma espécie de vitrine de boas intenções, mas que muitas vezes são desprovidas de análise crítica. Em um país como o Brasil, onde há séculos há um problema crônico de jornalismo, com uma mídia hegemônica distante do interesse público, ignorante dos problemas reais do cidadão, onde predomina a visão do mercado financeiro, esse viés pode se tornar extremamente perigoso.
Outro ponto é que a noção de solução precisa ser analisada com muito cuidado. No Amazonas, por exemplo, onde vivem mais de 4,3 milhões de pessoas, quase 20% da população ainda não tem acesso à água encanada. Diante de um problema dessa magnitude, seria honesto dizer que a resposta está em pequenas iniciativas locais? Seria retratar esforços desesperados por sobrevivência como algo positivo? A meu ver, não. Eu faço a seguinte provocação: se a “solução” proposta pelo jornalista não serve pra ele próprio e seus filhos, então não é solução. Simples assim.
A verdadeira solução só poderá vir de um Estado forte e eficiente, capaz de planejar políticas públicas de alcance universal, aplicando corretamente os recursos que já recolhe da sociedade, priorizando o bem coletivo. Evidentemente, a iniciativa privada ética e inovadora e uma sociedade civil atuante têm papéis fundamentais. Mas sozinhas, ou tratadas como protagonistas absolutas, elas não dão conta da complexidade dos desafios.
O risco do jornalismo do chamado soluções é justamente esse: legitimar, ainda que de forma não intencional, a ideia de que o Estado não é vital e pode se retirar de cena, que basta deixar o mercado ou comunidades locais encontrarem alternativas. Esse discurso, que se aproxima perigosamente da retórica neoliberal do “estado mínimo”, ignora que a base das desigualdades brasileiras é estrutural e só pode ser enfrentada com políticas públicas robustas.
Diante da crise climática global, esse conceito pode ser ainda mais problemático. É absolutamente impossível imaginar que sua reversão possa ocorrer sem a liderança do Estado. Nenhuma comunidade isolada, por mais engajada e inovadora que seja, conseguirá reduzir emissões, planejar infraestrutura resiliente ou implementar políticas públicas de alcance nacional ou internacional.
Há ainda outro problema: neste contexto, os líderes em emissões são justamente os maiores representantes do setor privado, no Brasil e no mundo. Ou seja, aqui, este setor, olhando de uma perspectiva global, têm se mostrado mais parte do problema do que da solução. E década após década, este mesmo setor têm se empenhado mais em propaganda positiva de ações pontuais e ínfimas do que em reverter os estragos causados por eles mesmos. Enquanto isso, a destruição do clima avança sem freio.
Exatamente por isso que as ações climáticas efetivas exigem coordenação entre governos, regulamentação rigorosa, financiamento estratégico e fiscalização constante — responsabilidades que só o Estado pode assumir em escala compatível com a gravidade da crise. Obviamente, não de forma isolada.
O Vocativo acredita que o jornalismo precisa continuar sendo incômodo, insistente, atento aos problemas e às responsabilidades. Sim, jovens, o Vocativo continuará sendo o chato da sala. Não nos cabe substituir governos, nem vender esperança fácil. Cabe mostrar onde falhamos, por que falhamos e quem tem poder de mudar essa realidade. Só assim será possível exigir que a solução verdadeira aconteça: aquela que vem do encontro entre Estado, sociedade e iniciativa privada devidamente regulamentada, cada qual consciente de seu papel.
É importante reforçar: o posicionamento do site não desmerece colegas que praticam o jornalismo de soluções de boa fé. O Vocativo reconhece o valor de iniciativas bem apuradas, com evidência e rigor, que buscam inspirar mudanças concretas. Este posicionamento é, acima de tudo, sobre o risco estrutural dessa abordagem quando se transforma em narrativa dominante ou quando minimiza o papel do Estado. O Vocativo respeita o trabalho desses profissionais, mas seguirá firme e forte no jornalismo de problemas.
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