Por Cecilia Amorim, Maria Clara Prudêncio, Mickael Marques Nobre, Flavio Sousa e Lylian Rodrigues
O avanço da crise climática na Amazônia tem aprofundado desigualdades sociais já existentes e ampliado a vulnerabilidade de populações periféricas em centros urbanos. Essa é a constatação da série especial “Vulneráveis do Clima”, produzida pela InfoAmazonia em parceria com veículos e instituições jornalísticas da região, como o Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá (Unifap), Agência Carta Amazônia, Pulso Amazônico, Voz da Terra e Vocativo.
As duas reportagens mais recentes da série, produzidas em Belém (PA) e Vitória do Jari (AP), revelam que o impacto dos eventos climáticos extremos é desproporcional sobre populações empobrecidas, em especial mulheres negras, indígenas e ribeirinhas que vivem em áreas de risco.
Belém: promessas da COP30 enfrentam desconfiança
A capital do Pará, que sediará a Conferência do Clima da ONU (COP30) em novembro de 2025, tem cerca de 10% de sua população vivendo em áreas de risco de inundações, alagamentos e erosão. O governo estadual anunciou obras de drenagem e urbanização em 12 canais da cidade como parte do “legado da COP”, mas moradores relatam desconfiança, lentidão nas obras e remoções forçadas.

Os bairros mais afetados, como Guamá e Terra Firme, convivem com alagamentos crônicos, agravados por décadas de ocupação desordenada, falta de saneamento e obras inacabadas, como o projeto de macrodrenagem do canal do Tucunduba, iniciado em 1996. Famílias como a de João da Costa Vale e Maria de Nazaré Duarte relatam perdas materiais, doenças e insegurança permanente.
Especialistas ouvidos alertam que, sem educação ambiental, gestão territorial e regularização fundiária, as intervenções podem intensificar a vulnerabilidade ao invés de reduzi-la. A ausência de indenizações adequadas e reassentamento digno é outro ponto crítico.
Vitória do Jari: mulheres lideram famílias em áreas de alto risco
No município de Vitória do Jari, no sul do Amapá, a realidade é marcada por desemprego, urbanização desordenada e eventos extremos recorrentes, como a enchente de 2022 e os incêndios de 2023. Nessa cidade, 56% dos domicílios localizados em áreas de risco são chefiados por mulheres, segundo análise exclusiva da InfoAmazonia com dados do IBGE e do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
Com o fechamento de uma grande fábrica na região, muitas mulheres, como Sebastiana dos Santos, Eliete Lima e Luzia Ferreira, assumiram sozinhas o sustento da família. Elas enfrentam enchentes, falta de estrutura e riscos de incêndio, mas resistem a sair do território, por vínculos de pertencimento, identidade e sobrevivência.
A urbanização das áreas de ressaca, o desaparecimento de práticas tradicionais de construção ribeirinha e o alto custo das madeiras dificultam a adaptação às mudanças climáticas. “As inundações têm relação com a cheia dos rios, mas também com a influência da maré, um processo que inicia no oceano”, explica a geóloga Valdenira Ferreira.
Desigualdade climática
A série mostra como o racismo ambiental e a desigualdade de gênero se cruzam com a emergência climática na Amazônia. Os dados, relatos e contextos revelam que os efeitos das mudanças do clima não são sentidos de forma igual: recaem com mais força sobre quem já vive à margem — tanto geográfica quanto socialmente.
A iniciativa “Vulneráveis do Clima” integra a Rede Cidadã InfoAmazonia, que tem como objetivo produzir e distribuir conteúdos socioambientais com olhar local e colaborativo. A produção das reportagens conta com apoio do Instituto Serrapilheira e das Defesas Civis locais, universidades e movimentos comunitários.
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