Um estudo internacional divulgado nesta quinta-feira (29/06/2025) revelou que as mudanças climáticas provocadas pela ação humana aumentaram em 2,5 vezes a probabilidade de ocorrência de inundações extremas como a que atingiu a bacia do rio Juruá, no Oeste da Amazônia, em 2021. O evento afetou mais de 43 mil pessoas e causou prejuízos estimados em US$ 16,7 milhões — dos quais, cerca de US$ 10 milhões estão diretamente ligados às mudanças climáticas.
O trabalho é fruto da parceria Ciência para Serviços Climáticos Brasil (CSSP-Brasil), que reúne cientistas de instituições como o Cemaden, o INPE, a Universidade de Viena (Áustria) e a Universidade de Oxford (Reino Unido). A pesquisa foi publicada no International Journal of Disaster Risk Reduction e traz dados alarmantes sobre o aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos na Amazônia.
Segundo o artigo, 61% da probabilidade da enchente de 2021 pode ser atribuída diretamente às alterações climáticas, fazendo com que um fenômeno que antes se repetia a cada 107 anos passe a ocorrer a cada 42 anos. A precipitação registrada entre dezembro de 2020 e março de 2021 foi 48% maior do que a média histórica, o que resultou em inundações que atingiram 25 km² de áreas urbanas e 1.150 km² de pastagens.
A análise utilizou uma combinação de dados de satélite, pluviômetros e bancos nacionais como o Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos e o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres. A abordagem também levou em consideração impactos socioeconômicos, incluindo mobilidade urbana comprometida e contaminação de solos agrícolas essenciais à subsistência das populações ribeirinhas.
No entanto, os próprios autores do estudo alertam que os números ainda subestimam a realidade. “O estudo evidenciou gargalos relacionados à coleta, padronização e integração dos dados sobre impactos”, afirma Renata Pacheco Quevedo, coautora do trabalho. Ela destaca a ausência de registros sobre danos à saúde mental da população, como aumento de hospitalizações por ansiedade e depressão, que geram sobrecarga ao sistema de saúde pública.
A pesquisadora também enfatiza que a análise conservadora ainda assim revelou impactos severos em 22 municípios abrangidos pela bacia do Juruá, em áreas altamente dependentes das dinâmicas do rio para transporte, alimentação e produção. “Os resultados nos fizeram refletir sobre a urgência de aproximar a ciência da tomada de decisões políticas. Sem uma ação coordenada e baseada em evidências, esses impactos continuarão a ser socializados, contribuindo para o empobrecimento do país como um todo”, concluíram Renata Quevedo e Liana Anderson, outra autora do estudo.
A pesquisa reforça o alerta de cientistas para que os governos adotem medidas preventivas eficazes e políticas públicas que incorporem dados científicos atualizados, especialmente em regiões vulneráveis como a Amazônia, onde os efeitos da crise climática já são visíveis e devastadores.
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