Manaus, 29 de março de 2026 – Manaus concentra alguns dos indicadores mais alarmantes do país quando o assunto é juventude, saúde e segurança. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 mostram que a capital amazonense lidera o ranking de iniciação sexual precoce e enfrenta níveis elevados de violência sexual, gravidez na adolescência e absenteísmo escolar por medo, compondo um cenário que expõe falhas estruturais em políticas públicas.
O levantamento, realizado pelo IBGE em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação, ouviu adolescentes de todo o Brasil e revela que, embora os jovens estejam iniciando a vida sexual mais tarde em nível nacional, a realidade em Manaus segue na direção oposta. Entre os estudantes sexualmente ativos da capital, 44,7% tiveram a primeira relação sexual aos 13 anos ou menos, o maior índice entre todas as capitais brasileiras.
Esse dado contrasta com a tendência nacional, onde a proporção de adolescentes que já iniciaram a vida sexual caiu de 37,5% em 2015 para 30,4% em 2024. Mesmo assim, a redução não representa maior proteção. Entre os jovens brasileiros sexualmente ativos, o uso de camisinha na última relação caiu para 57,2%, indicando aumento da exposição a riscos, cenário que se agrava em contextos como o de Manaus.
Violência sexual atinge jovens cada vez mais cedo
O dado mais grave revelado pela pesquisa está relacionado à violência sexual. No Brasil, cerca de 1,1 milhão de adolescentes relataram já ter sofrido relação sexual forçada, sendo que 66,2% dessas vítimas tinham 13 anos ou menos no momento da violência. No Amazonas, a situação se destaca negativamente: 14,0% dos escolares afirmaram ter sofrido violência sexual, colocando o estado entre os mais afetados.
A pesquisa também desmonta a ideia de que a violência parte majoritariamente de desconhecidos. Entre as vítimas, 26,6% identificaram o agressor como um membro da própria família, o que evidencia a dimensão doméstica do problema. Além disso, 18,5% dos estudantes relataram assédio sexual, índice que sobe para 26,0% entre as meninas, indicando maior vulnerabilidade feminina.
Esse cenário de violência dialoga diretamente com os dados de iniciação sexual precoce e com a falta de proteção observada entre adolescentes. A combinação desses fatores revela um ambiente em que parte significativa dos jovens está exposta a relações não consentidas ou desprotegidas desde muito cedo.
Gravidez precoce e desigualdade aprofundam vulnerabilidades
No campo da saúde reprodutiva, os números também são críticos. Enquanto a média nacional de gravidez na adolescência entre meninas sexualmente ativas é de 7,3%, o Amazonas registra 14,2%, o maior índice do país. A desigualdade social aparece como fator determinante: estudantes de escolas públicas têm oito vezes mais chances de engravidar do que aquelas da rede privada.
Em paralelo, cresce o uso da contracepção de emergência. 42,1% das adolescentes já utilizaram a pílula do dia seguinte, muitas vezes sem orientação profissional. A maioria (63,7%) acessa o medicamento diretamente em farmácias, o que indica um padrão de uso desvinculado de acompanhamento em saúde.
Esse quadro ocorre em um contexto de redução das ações educativas. O acesso a informações sobre HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis caiu 10,7 pontos percentuais desde 2019, enquanto a orientação sobre como obter preservativos gratuitamente atingiu apenas 56,1% dos estudantes. O impacto é mais intenso entre adolescentes de 13 a 15 anos, justamente o grupo mais exposto à iniciação precoce e ao sexo desprotegido.
Medo afasta estudantes das escolas e agrava riscos
A insegurança aparece como outro eixo central da crise. No Brasil, 12,5% dos estudantes deixaram de ir à escola por medo no trajeto, mas no Amazonas esse percentual sobe para 17,7%, o maior do país. Dentro das próprias escolas, o problema também cresce: 13,7% dos alunos faltaram por não se sentirem seguros no ambiente interno, um aumento de quase três pontos percentuais desde 2019.
A violência interpessoal se manifesta também em conflitos físicos. Nacionalmente, 11,2% dos estudantes se envolveram em brigas, com maior incidência entre meninos (15,8%). O Amazonas registrou o maior aumento do país nesse indicador, com alta de 4,7 pontos percentuais.
O uso de armas nesses conflitos, embora menos frequente, chama atenção. 3,9% dos estudantes relataram uso de armas de fogo em brigas, enquanto 5,2% mencionaram armas brancas, índices que mais que dobram entre os meninos. Esses dados reforçam a presença de violência no cotidiano escolar e seu impacto direto na permanência dos alunos.
A exposição a riscos também se estende ao trânsito. Mesmo sendo menores de idade, 34,2% dos estudantes brasileiros afirmaram ter conduzido veículos motorizados recentemente. Além disso, 33,8% raramente ou nunca usam cinto de segurança, e 27,2% já estiveram em veículos cujo motorista havia ingerido álcool, evidenciando comportamentos recorrentes de risco.

Descubra mais sobre Vocativo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

