Territórios

Amazônia reúne piores índices de água e saneamento do Brasil

Região Norte registrou a maior taxa nacional de afastamento por doenças respiratórias, com 523,3 casos por mil habitantes, associada à falta de água tratada para higiene básica

Manaus, 22 de março de 2026 – Neste domingo, 22, é comemorado o Dia Mundial da Água. Dados dos rankings nacionais de saneamento expõem uma realidade persistente: a Região Norte se consolidou como o epicentro da exclusão hídrica no Brasil, reunindo os piores indicadores de acesso, eficiência e investimento.

Levantamento com base no Ranking do Saneamento 2026 e 2025, elaborados pelo Instituto Trata Brasil, além do estudo “Benefícios Econômicos e Sociais da Expansão do Saneamento” (2022), revela que, enquanto o país tenta avançar rumo à universalização, municípios amazônicos enfrentam retrocessos. E mesmo estando na maior bacia hidrográfica do planeta, a maioria mantêm grande parte da população fora da rede de abastecimento.

O cenário nacional já indica fragilidade: o Indicador de Atendimento Total de Água (ITA) caiu de 93,91% em 2023 para 93,55% em 2024, interrompendo a trajetória de expansão. Entre os 100 maiores municípios do país, 11 ainda possuem cobertura inferior a 80%, evidenciando desigualdades estruturais que se aprofundam especialmente na região amazônica.

Cobertura limitada e retrocessos

Na Região Norte, os dados revelam um quadro mais crítico, com cidades operando em níveis de atendimento muito abaixo do mínimo esperado. Porto Velho (RO) apresenta o pior índice do país, atendendo apenas 30,74% da população em 2024, número inferior aos 35,02% registrados no ano anterior, configurando uma regressão no acesso ao serviço essencial.

Outros municípios também apresentam níveis severamente reduzidos de cobertura. Ananindeua (PA) atende 39,39% da população, enquanto Santarém (PA) registra 44,93% e Rio Branco (AC) alcança 46,74%. Mesmo capitais com maior estrutura, como Manaus, apresentam recuo, com o índice caindo de 97,98% para 97,13%, sinalizando dificuldades em manter a expansão da rede diante da demanda crescente.

No Amapá, Macapá registra atendimento de 76,05%, ainda distante de patamares considerados adequados. “Os dados mostram que o avanço jurídico em direção à universalização não se traduz na realidade concreta dessas cidades”, aponta o relatório técnico que embasa a investigação.

Ilustração: Fred Santana

Desperdício massivo e infraestrutura deficiente

Além da limitação no acesso, a água tratada na Região Norte enfrenta perdas significativas antes de chegar à população. Em Belém (PA), o Indicador de Perdas na Distribuição (IPD) atinge 58,96%, enquanto Santarém (PA) registra 57% e Boa Vista (RR) chega a 57,75%, revelando um padrão de desperdício superior à média nacional de 41,51%.

Esse nível de perda significa que mais da metade da água captada e tratada não chega às torneiras, sendo dissipada em vazamentos ou irregularidades na rede. Em termos físicos, o problema é ainda mais expressivo: Belém apresenta Perdas por Ligação (IPL) de 1.058,04 litros por dia, enquanto Macapá registra 755,44 litros, ambos muito acima do limite de excelência de 216 litros definido pela regulamentação federal.

No panorama nacional, a média de perdas por ligação é de 625,13 litros diários, o que reforça a dimensão do desperdício sistêmico. “Trata-se de um ralo hídrico e financeiro que compromete a eficiência do sistema e a capacidade de expansão”, destaca o estudo.

Baixo investimento e impacto social direto

A limitação de recursos financeiros aparece como um dos principais fatores para a manutenção desse cenário. O PLANSAB estabelece que seriam necessários R$ 225,00 por habitante ao ano para garantir a universalização, mas 53 dos 100 maiores municípios brasileiros investem menos de R$ 100,00 por pessoa.

Na Região Norte, os dados evidenciam casos extremos. Rio Branco (AC) investiu apenas R$ 8,99 por habitante, o menor valor entre todas as capitais, enquanto o estado de Roraima não apresentou registros de investimento em saneamento básico em 2024. Em Belém (PA), houve uma redução significativa, com os aportes caindo de R$ 336 milhões em 2020 para R$ 14,6 milhões em 2024.

Os efeitos dessa realidade são observados na saúde pública e nas condições de vida. A Região Norte registrou a maior taxa nacional de afastamento por doenças respiratórias, com 523,3 casos por mil habitantes, associada à falta de água tratada para higiene básica. Além disso, a incidência de doenças de veiculação hídrica permanece acima da média nacional.

A desigualdade econômica também se reflete no acesso ao saneamento. Trabalhadores com acesso aos serviços recebem, em média, R$ 2.950,23, enquanto aqueles sem acesso ganham R$ 593,21. “A ausência de infraestrutura básica impõe barreiras estruturais ao desenvolvimento econômico e social da região”, aponta a análise dos dados.

Ilustração: Fred Santana


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