Manaus, 16 de março de 2026 – A presença do crime organizado em territórios indígenas da Amazônia passou a ser mapeada por uma nova ferramenta internacional que revela a dimensão econômica e territorial dessas redes ilegais. Lançado durante a 69ª sessão da Comissão de Entorpecentes das Nações Unidas, o Índice de Vulnerabilidade ao Crime Organizado — Territórios Indígenas estima que atividades ilícitas associadas a facções movimentem cerca de R$ 146 bilhões por ano, infiltradas em cadeias produtivas aparentemente legais no Brasil.
Desenvolvido pelo Centro de Estudos sobre Drogas e Desenvolvimento Social Comunitário (Cdesc) em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o índice analisa como economias ilícitas e fragilidades sociais convergem dentro de territórios indígenas. A ferramenta cruza indicadores territoriais, ambientais, sociais e de segurança para identificar áreas onde a atuação criminosa se torna mais intensa.
A representante do UNODC no Brasil, Elena Abbati, afirmou que a iniciativa busca compreender o fenômeno de forma integrada. “Este índice representa um passo fundamental para compreendermos de forma integrada e baseada em evidências os desafios enfrentados pelos povos indígenas diante do crime organizado”, afirmou.
Segundo Abbati, o objetivo é permitir respostas públicas mais direcionadas. Ao mapear as vulnerabilidades territoriais e cruzar dados de violência, pressões ambientais e condições sociais, ela explicou que o estudo pretende apoiar políticas que combinem repressão qualificada, prevenção e fortalecimento comunitário.
A secretária nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos, Marta Machado, destacou que a ferramenta reforça uma abordagem territorial das políticas públicas. “O Brasil avança no desenho e implementação de políticas públicas orientadas por evidências e de base territorial”, disse.
De acordo com Machado, o índice permite identificar com mais precisão onde o crime organizado exerce pressão sobre comunidades indígenas e onde políticas sociais e de desenvolvimento podem atuar para reduzir vulnerabilidades.

A economia ilícita e a convergência criminal na Amazônia
O relatório aponta que o crime organizado opera hoje por meio de cadeias econômicas complexas, nas quais atividades ilegais se misturam a setores aparentemente formais da economia. Entre os principais fluxos citados estão a comercialização ilegal de ouro, combustíveis e tabaco, além do tráfico internacional de drogas.
Esse sistema funciona, segundo o estudo, por meio de um fenômeno chamado convergência criminal, quando diferentes atividades ilícitas compartilham a mesma estrutura logística e territorial. Pistas clandestinas de pouso, rotas fluviais e sistemas de comunicação utilizados pelo tráfico de drogas também são empregados em crimes ambientais como o garimpo ilegal e a extração de madeira.
A secretária Marta Machado afirmou que o índice ajuda a compreender como essas dinâmicas se conectam dentro de um mesmo território. Para ela, o diagnóstico territorial permite identificar regiões onde políticas de prevenção, justiça e proteção social podem atuar simultaneamente para reduzir a influência dessas redes.
O estudo também destaca a Rota do Solimões, corredor transnacional que conecta regiões produtoras de cocaína no Peru e na Bolívia ao interior da Amazônia brasileira. O sistema hidroviário do rio Solimões funciona como eixo logístico para o transporte da droga em direção a centros de distribuição e mercados internacionais.
Dados de apreensões da Polícia Federal em 2023 indicam que, proporcionalmente, a Amazônia Legal registrou níveis de apreensão de cocaína superiores aos de outras regiões do país. O relatório aponta que esse padrão reflete o uso intensivo da malha fluvial para o transporte de drogas por redes criminosas transnacionais.
Territórios vulneráveis e pressão sobre comunidades indígenas
A pesquisa também revela que a questão indígena no Brasil possui forte concentração geográfica na Amazônia. Dos 1.693.535 indígenas identificados no Censo de 2022, cerca de 51,2% vivem na Amazônia Legal, sendo o Amazonas o estado com maior população indígena, com 490.900 pessoas.
A estrutura demográfica dessas populações também chama atenção dos pesquisadores. Enquanto a idade mediana nacional da população indígena é de 25 anos, dentro das terras indígenas ela cai para 19 anos, indicando uma população majoritariamente jovem.
Cerca de 56,1% dos indígenas têm menos de 30 anos, o que, segundo o relatório, aumenta a pressão sobre territórios que frequentemente enfrentam limitações de infraestrutura, serviços públicos e oportunidades econômicas. Nesse cenário, comunidades jovens podem se tornar mais expostas a coação, recrutamento ou influência de organizações criminosas.
O índice também registra 1.241 incidentes de violência contra o patrimônio indígena em 2024. Entre esses casos, 230 envolveram invasões de terras, exploração ilegal de recursos naturais e danos diretos ao patrimônio das comunidades.
Segundo o relatório, territórios que ainda se encontram em etapas iniciais de reconhecimento e demarcação apresentam níveis mais elevados de vulnerabilidade. A regularização fundiária aparece como um fator que reduz a exposição dessas áreas a pressões externas e atividades ilícitas.
Outro desafio identificado é o desalinhamento territorial entre limites administrativos e terras indígenas, que dificulta a coleta de dados e a definição de responsabilidades institucionais. O documento cita como exemplo a Terra Indígena Kaxarari, que se estende entre o município de Lábrea, no Amazonas, e Porto Velho, em Rondônia.
Para os autores do estudo, essas lacunas territoriais afetam a produção de estatísticas sobre saúde, segurança e desenvolvimento, tornando mais difícil o monitoramento das condições de vida e dos impactos do crime organizado nessas áreas.
Ao integrar dados sociais, ambientais e de segurança, o Índice de Vulnerabilidade ao Crime Organizado — Territórios Indígenas pretende oferecer uma base técnica para orientar políticas públicas e ações de proteção territorial. A ferramenta busca identificar regiões onde pressões ambientais, economias ilícitas e fragilidades sociais convergem, criando ambientes favoráveis à atuação de redes criminosas.

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