Manaus, 06 de março de 2026 – Os primeiros sinais de que algo estava fora do lugar surgiram silenciosamente dentro da própria Fundação Amazonprev, meses antes de a Polícia Federal entrar em cena. Relatórios internos registraram um problema incomum para um fundo que administra bilhões em aposentadorias de servidores: centenas de milhões de reais aplicados em bancos privados sem registros formais de aprovação.
Enquanto técnicos da fundação tentavam reconstruir o caminho das decisões, órgãos de controle passaram a levantar suspeitas sobre os investimentos. Em dezembro de 2025, reportagens do Vocativo já haviam revelado que o Ministério Público do Amazonas investigava aplicações milionárias feitas no ano anterior e marcadas por falhas de governança e lacunas documentais.
Nesta sexta-feira (06/03/2026), a suspeita ganhou dimensão policial. A Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Sine Consensu, que investiga suspeitas de irregularidades na aplicação de cerca de R$ 390 milhões pertencentes ao Regime Próprio de Previdência Social do Estado do Amazonas, administrado pela Fundação Amazonprev. A apuração mira decisões de investimento realizadas entre junho e setembro de 2024, que, segundo os investigadores, podem ter ocorrido em desacordo com normas federais de governança e gestão de recursos previdenciários.
Policiais federais cumprem sete mandados de busca e apreensão, além de medidas de afastamento de servidores de funções públicas. Uma das diligências ocorre na sede da fundação, localizada no bairro Praça 14 de Janeiro, zona sul de Manaus. Em nota, a corporação informou que a investigação envolve suspeitas de gestão temerária e corrupção relacionadas à aplicação de recursos em Letras Financeiras de bancos privados.
Entre os investigados estão André Luis Bentes de Souza, ex-diretor de Previdência da fundação; Claudinei Soares, ex-gestor de recursos e coordenador do Comitê de Investimentos (COMIV); e Cláudio Marins de Melo, diretor de Administração e Finanças. Também aparece na investigação o empresário Sávio Loyola e Silva, citado após movimentações financeiras consideradas atípicas identificadas durante a apuração.
A Amazonprev afirmou, em nota, que está colaborando com as investigações. A fundação informou que dois servidores efetivos citados na operação foram afastados de suas funções, enquanto o terceiro investigado, que ocupava cargo em comissão, não integra mais os quadros da instituição desde 2024.
Alertas internos antecederam investigação
Meses antes da operação policial, relatórios internos da própria fundação já apontavam inconsistências na documentação que justificava parte das aplicações financeiras investigadas. Os primeiros registros formais surgiram em setembro de 2024, quando o Comitê de Investimentos (COMIV) identificou a ausência de documentos que comprovassem a autorização de investimentos milionários.
O relatório técnico registrou que não havia atas de reunião ou deliberação da diretoria que autorizassem a compra de R$ 50 milhões em Letras Financeiras do Banco Master e R$ 250 milhões do C6 Bank. A ausência desses registros indicava falhas no processo de governança interna da fundação e levantou dúvidas sobre o fluxo de decisões administrativas.
No mesmo período, outras operações de investimento apresentavam documentação regular. A compra de R$ 50 milhões em Letras Financeiras do Banco Daycoval, realizada em agosto de 2024, constava na Ata 213/24, enquanto a aplicação de R$ 40,7 milhões no BTG Pactual, registrada em setembro, aparecia vinculada à Ata 214/24.
Nos meses seguintes, o próprio comitê voltou a registrar as inconsistências. Em relatórios de outubro e novembro de 2024, o COMIV afirmou que as aplicações no Banco Master e no C6 Bank “carecem de maiores esclarecimentos sobre o processo decisório”, indicando que as justificativas administrativas ainda não haviam sido apresentadas.
Em dezembro daquele ano, a situação permanecia sem solução. O relatório do comitê reiterou que as operações estavam “pendentes de maiores informações”, reforçando a dificuldade da fundação em reconstruir o fluxo de aprovação dos investimentos.

Dificuldades de monitoramento e mudança de custódia
As inconsistências documentais ocorreram paralelamente a dificuldades operacionais para acompanhar os ativos financeiros. Em outubro de 2024, a Amazonprev iniciou um processo de portabilidade de custódia para a XP Investimentos, com o objetivo de obter maior transparência sobre a posição dos títulos.
A justificativa apresentada pela fundação era a necessidade de gerar extratos atualizados e documentação sobre os ativos financeiros, indicando que até então havia limitações no acompanhamento das aplicações realizadas em instituições privadas.
Especialistas ouvidos nos relatórios internos apontaram que Letras Financeiras são títulos de renda fixa utilizados por bancos para captar recursos de longo prazo. Apesar de considerados instrumentos do mercado financeiro, esses papéis possuem baixa liquidez, o que dificulta a retirada antecipada do investimento antes do vencimento.
Nesse contexto, a ausência de registros formais de aprovação para operações que somavam centenas de milhões de reais passou a ser vista internamente como um problema de governança institucional, já que decisões dessa magnitude normalmente precisam constar em atas de deliberação da diretoria ou do conselho.
Risco financeiro e investigações externas
O cenário ganhou novos contornos ao longo de 2025, quando surgiram dúvidas sobre a situação financeira do Banco Master, uma das instituições que receberam recursos da Amazonprev. O COMIV registrou em relatórios rumores sobre dificuldades do banco após o Banco Central negar a venda da instituição ao Banco BRB.
A crise culminou em novembro de 2025, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, encerrando as atividades da instituição após a identificação de irregularidades graves em seu funcionamento.
A consultoria externa Actuarial Assessoria avaliou o impacto da situação e registrou que o valor aplicado no banco “pode ser integralmente perdido”. A análise levou a própria fundação a iniciar procedimentos de habilitação de crédito no processo de liquidação.
Relatórios internos indicaram que a aplicação não possuía cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Em dezembro de 2025, o valor do risco associado aos ativos do Banco Master estava atualizado em R$ 59.834.259,56.
Apesar disso, documentos da fundação afirmaram que o fundo previdenciário FPREV Executivo permaneceria superavitário mesmo diante de uma eventual perda total do investimento.
Reportagens anteciparam suspeitas
Antes mesmo da operação policial, reportagens do Vocativo já haviam revelado parte das inconsistências relacionadas às aplicações da Amazonprev. Em dezembro de 2025, o site noticiou a abertura de investigação pelo Ministério Público do Amazonas (MPAM) para apurar duas aplicações milionárias realizadas em 2024.
As portarias publicadas pelo MP apontaram suspeitas de gestão temerária, falhas de controle interno e possível descumprimento das normas que regem investimentos previdenciários. O órgão requisitou documentos completos que justificassem as operações, incluindo autorizações formais e registros administrativos. A investigação também solicitou informações sobre ex-dirigentes que atuaram no período dos aportes, entre eles Maria Neblina Marães, Cláudio Marins e Marcelo Soares Cavalcante.
Reportagem citada pelo MP indicava ainda inconsistências na cronologia das decisões administrativas. Documentos técnicos sobre o investimento foram assinados por Ary Renato Vasconcelos de Souza, então novo presidente da fundação, embora a aplicação tivesse sido realizada em 6 de junho de 2024, quando Maria Neblina Marães ainda ocupava a presidência da autarquia.
Segundo a apuração jornalística mencionada nas portarias, “a aplicação se deu após o Comiv receber e-mail da diretoria solicitando cotação e possível aquisição de letras financeiras”, mas não havia registro público dessa decisão nos sistemas da fundação.
Tribunal de Contas também abriu processo
A repercussão das suspeitas levou o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) a admitir, em fevereiro de 2026, um processo para examinar os investimentos da Amazonprev no Banco Master e no C6 Bank. A representação foi apresentada pelo Ministério Público de Contas (MPC), que apontou possíveis “vícios de aplicação” na destinação de recursos previdenciários. O processo busca verificar se a escolha das instituições financeiras respeitou critérios técnicos de segurança, liquidez e rentabilidade.
O TCE também passou a avaliar se os recursos foram aplicados em um momento em que o Banco Master já enfrentava fragilidade financeira e reputacional, circunstância que poderia ter exposto o patrimônio previdenciário a riscos elevados. A decisão de abrir o processo ocorreu após a conselheira-presidente Yara Lins considerar que havia indícios suficientes para que a denúncia fosse formalizada. Com isso, gestores responsáveis pelas operações passaram a ser obrigados a apresentar justificativas técnicas sobre as decisões de investimento.
Movimentações financeiras e intermediários
Além das decisões administrativas, a investigação também analisa movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo a empresa ALFA A Consultoria e Gestão de Frota Ltda., que realizou transferências para investigados no caso.
As corretoras Terra Investimentos e Mirae Asset aparecem na apuração como intermediadoras das aplicações financeiras. Segundo os relatórios analisados, essas instituições foram utilizadas de forma reiterada nas operações, sem demonstração de critérios objetivos para escolha ou comparação de custos e riscos.
As informações sobre essas transações passaram a integrar o conjunto de dados examinados pela Polícia Federal na Operação Sine Consensu, que busca reconstruir o fluxo de decisões e identificar possíveis responsabilidades administrativas e criminais.
Justiça suspendeu repasses ao banco
Em meio às investigações, a Justiça do Amazonas determinou em 5 de fevereiro de 2026 a suspensão do repasse de consignados de servidores e segurados da Amazonprev ao Banco Master. A decisão foi assinada pelo juiz Leoney Figliuolo Harraquian, da 2ª Vara da Fazenda Pública de Manaus, atendendo a um pedido cautelar apresentado pela própria fundação e pelo Governo do Estado.
Na decisão judicial, o magistrado destacou o risco de prejuízo coletivo para os segurados do regime previdenciário. “Eventual perda das Letras Financeiras em questão recairia diretamente sobre a coletividade dos segurados e, sobretudo, dos beneficiários do regime, que dependem da integridade do fundo para a percepção de benefícios de natureza alimentar”, escreveu o juiz.
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