Engrenagens

Erga Omnes: Dinheiro vivo, Caribe e uma empresa sob suspeita

Empresário declarou que emitiu as passagens para o prefeito e para a primeira-dama, detalhando que o valor aproximado de R$ 34 mil foi pago integralmente em dinheiro em espécie

Manaus, 26 de fevereiro de 2026 – O depoimento do empresário Alcir Queiroga Teixeira Júnior, proprietário da agência Revoar Turismo, adicionou novos elementos à investigação que atinge o prefeito de Manaus, David Almeida, no âmbito da Operação Erga Omnes. A operação apura a infiltração do Comando Vermelho na gestão pública municipal e no Judiciário. O relato foi prestado no dia 20 de fevereiro de 2026, no 24º Distrito Integrado de Polícia, logo após a deflagração da ação policial.

Enquanto outros investigados optaram por permanecer em silêncio, Alcir confirmou que a ex-chefe de gabinete Anabela Cardoso Freitas era sua cliente. Segundo ele, ela era responsável por adquirir passagens não apenas para si, mas também para o prefeito, para a primeira-dama Izabelle Fontenelle e para familiares, como o sobrinho Kássio Almeida. O depoimento consta em pedido de habeas corpus preventivo que chegou a ser protocolado pela primeira dama, a mãe dela, Lidiane Fontenelle e pelo vice-prefeito Renato Júnior (Avante).

Entre os pontos centrais do relato está a viagem realizada em 2025 ao Caribe, com destino a Saint Martin e Saint Barth. O empresário declarou que emitiu as passagens para o prefeito e para a primeira-dama, detalhando que o valor aproximado de R$ 34 mil foi pago integralmente em dinheiro em espécie. Segundo ele, quando as passagens eram destinadas a pessoas vinculadas à Prefeitura de Manaus, os pagamentos ocorriam dessa forma.

Alcir afirmou que os valores eram entregues majoritariamente em cédulas de R$ 50 e R$ 100, com eventuais notas de R$ 20. Questionado sobre a origem do dinheiro, declarou: “não sei se o dinheiro provinha do tráfico de drogas, do crime organizado ou de desvio de verbas públicas”. O uso de dinheiro vivo é apontado no contexto investigativo como elemento relevante por dificultar o rastreamento bancário.

Trecho do depoimento do empresário Alcir Queiroga Teixeira Júnior, proprietário da agência Revoar Turismo. Foto: Reprodução

O empresário também negou ter recebido um depósito único de R$ 1.350.000,00 de Anabela Cardoso Freitas, divergindo de informações atribuídas a relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Ele admitiu, no entanto, ter recebido diversos depósitos fracionados ao longo de meses, que somados poderiam alcançar valores elevados. A investigação registra movimentação financeira de R$ 1.351.942,00 atribuída à ex-chefe de gabinete.

A Polícia Civil descreve a Revoar Turismo como uma possível “empresa de fachada”, apontando que operava na modalidade de “porta fechada”, sem sede física aberta ao público ou site ativo. O relatório policial vinculado ao BO nº 00334853/2025 classifica a agência como “empresa fantasma” e a associa a uma estrutura voltada à lavagem de dinheiro e ao narcotráfico, com atuação na região do Alto Solimões, em Tabatinga.

Uso da Casa Civil

Os desdobramentos da investigação alcançam também a documentação apresentada oficialmente pela Prefeitura de Manaus. A defesa do prefeito no processo TCE nº 11.115/2025 incluiu recibos e bilhetes emitidos pela Revoar Turismo para comprovar que a viagem ao Caribe, realizada entre fevereiro e março de 2025, foi custeada com recursos privados. O material foi encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado do Amazonas pela Casa Civil e pela Procuradoria-Geral do Município (PGM).

Os recibos descrevem a emissão de passagens da Copa Airlines, incluindo registros de upgrade, totalizando valores superiores a R$ 30.500,00. Os cartões de embarque anexados apresentam a marca visual amarela com a expressão “Verificação Pendente”, termo que, em sistemas de bilhetagem aérea, indica que a reserva ainda não foi totalmente processada ou confirmada.

A Polícia Civil havia fundamentado parte de sua conclusão na ausência de registros de emissões pela agência junto às companhias LATAM Airlines e Gol Linhas Aéreas, que informaram não identificar passagens emitidas pela Revoar entre 2021 e 2025. A documentação apresentada ao TCE-AM, no entanto, aponta bilhetes vinculados à Copa Airlines, com localizadores como 1YXQG9 e BGJXLJ.

O ofício nº 108/2025 – GP formalizou a defesa do prefeito no processo administrativo, integrando a documentação encaminhada aos órgãos de controle. Até o fechamento da matéria, não houve manifestação oficial da Secretaria Municipal de Comunicação, da Casa Civil, da PGM ou da assessoria pessoal do prefeito sobre os pontos levantados.

Operação Erga Omnes

A Operação Erga Omnes foi deflagrada para investigar a atuação de uma organização criminosa na administração pública municipal de Manaus. Segundo a Polícia Civil do Amazonas, o grupo teria movimentado aproximadamente R$ 70 milhões em quatro anos, utilizando empresas classificadas como de fachada e agentes públicos para viabilizar logística, acesso a informações e proteção institucional.

O relatório policial menciona “fortes ensejos” de ligação direta entre o grupo investigado e o Comando Vermelho, com atuação na região de Tabatinga, área descrita como dominada pela facção. A Revoar Turismo é apontada como parte dessa estrutura, sendo utilizada, conforme a investigação, para movimentar ativos de origem ilícita e ocultar patrimônio.

O depoimento de Alcir Queiroga Teixeira Júnior passa a integrar o conjunto de elementos analisados no inquérito. As apurações seguem sob responsabilidade da Polícia Civil do Amazonas, com reflexos nas esferas administrativa e judicial, incluindo o acompanhamento por órgãos de controle e eventual responsabilização dos envolvidos, conforme o andamento das investigações.


Descubra mais sobre Vocativo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.