Manaus, 16 de fevereiro de 2026 – O naufrágio da lancha Lima de Abreu XV, nas proximidades do Encontro das Águas, em Manaus, reacendeu o alerta sobre a alta incidência de acidentes fluviais no Amazonas. Duas mortes foram confirmadas e sete pessoas seguem desaparecidas, segundo o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM). O episódio ocorre em um estado que concentra 35,8% das mortes por acidentes de transporte por água registradas no Brasil entre 2000 e 2024.
As equipes de resgate percorreram mais de 10 quilômetros rio abaixo neste domingo (15/02) em busca das vítimas. As buscas foram suspensas no início da noite e devem ser retomadas na manhã de segunda-feira (16/02/2026). Entre as vítimas fatais estão a criança Samila de Souza Oliveira, de três anos, a estudante de Odontologia Lara Bianca Bezerra Lopes, 22 anos e o músico Fernando Grandêz, de 39 anos.
Os passageiros viajavam na lancha rápida Lima de Abreu XV, que saiu de Manaus com destino ao município de Nova Olinda do Norte. O naufrágio ocorreu na região do encontro dos rios Negro e Solimões e 71 pessoas foram resgatadas por outra embarcação que passava pelo local. O condutor da embarcação foi detido no início da noite e as investigações estão sendo feitas para apurar as causas do naufrágio.
Cinco adultos atendidos na rede estadual de saúde já receberam alta, conforme informou a Secretaria de Estado de Saúde (SES). O comandante-geral do CBMAM, coronel Orleilso Muniz, explicou que a operação enfrenta obstáculos naturais característicos da região.

“Existem muitos fatores que complicam a operação, os fatores hidrodinâmicos do Encontro das Águas, correntes de arrasto, diferença de densidade de um rio para o outro, formação de redemoinho, além dos fatores meteorológicos. Hoje, por exemplo, caiu uma chuva torrencial e praticamente inviabilizou a operação na parte da tarde”, ressaltou.
Ele detalhou que a interação entre as águas dos rios Negro e Solimões cria um ambiente de difícil previsibilidade. Segundo o comandante, a combinação de correntes intensas e mudanças climáticas momentâneas exige cautela redobrada das equipes, especialmente em operações submersas.
Estado concentra mais de um terço das mortes do país
Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostram que o Amazonas registrou 608 das 1.696 mortes por acidentes de transporte por água no Brasil entre 2000 e 2024. Os registros estão classificados no código CID-10 V90, que identifica acidentes com embarcações que resultam em afogamento ou submersão.
Do total contabilizado no estado ao longo de 24 anos, 24 mortes ocorreram em Manaus. No mesmo intervalo, o país registrou 1.696 óbitos na mesma categoria, o que dimensiona a concentração proporcional do Amazonas nas estatísticas nacionais.
Imagens relacionadas ao episódio mostram o chefe do Executivo municipal conduzindo a embarcação nas águas do Rio Negro, sem uso visível de colete salva-vidas. Também não há informações públicas disponíveis sobre habilitação náutica para pilotar esse tipo de embarcação, em um contexto de reiterados alertas sobre cumprimento das normas de segurança.
Relatórios da Marinha do Brasil indicam que, entre 2017 e 2021, foram registrados 1.171 acidentes e incidentes de navegação distribuídos pelos distritos navais do país. O 9º Distrito Naval, responsável pela fiscalização no Amazonas e em áreas da Amazônia Ocidental, integra esse levantamento, que aponta volume significativo de ocorrências em águas interiores.
Falhas humanas e negligência estão entre causas
Estudo intitulado “Acidentes com embarcações na região amazônica: identificação de causas e alternativas de prevenção” aponta que, na Amazônia, os acidentes fluviais estão frequentemente associados a falhas humanas, negligência e condições inadequadas das embarcações. A pesquisa contou com apoio do Governo do Amazonas e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).
O coordenador do estudo, doutor em Engenharia Oceânica Jassiel Fontes, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), explicou que os resultados foram obtidos por meio de revisão bibliográfica criteriosa. “Com isso, os resultados da pesquisa podem contribuir na governança e na tomada de decisões, visando a implementação de estratégias de prevenção de acidentes na região amazônica”, afirmou o pesquisador em declaração publicada no site da Fapeam.
Segundo ele, o objetivo é oferecer subsídios técnicos que fortaleçam políticas de prevenção e segurança na navegação. O naufrágio no Encontro das Águas ocorre, assim, em um cenário já marcado por indicadores oficiais e pesquisas acadêmicas que apontam a recorrência e a gravidade dos acidentes fluviais no estado.
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