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O jornalismo declaratório e a pergunta: “Isso aí vai engajar?”

Uma das maiores pragas da profissão, o jornalismo declaratório anula o papel crítico da imprensa. E quando ele passa a operar em parceria com o vício do engajamento a todo custo das plataformas, o resultado é extremamente perigoso. E ainda cria o mito de que engajamento é sinônimo de lucro para os veículos

Manaus, 25 de janeiro de 2026 – O jornalismo está morrendo. E não é por falta de audiência, mas por excesso de submissão a uma pergunta que passou a orientar decisões editoriais, enquadramentos e prioridades de cobertura: isso aí vai engajar?

Que fique absolutamente claro: o problema não é buscar leitores, visualizações ou alcance. Audiência é fundamental para qualquer atividade humana. O problema é quando o engajamento deixa de ser consequência e passa a ser critério central, substituindo o interesse público pela lógica das plataformas.

Nas redações a pergunta raramente é formulada em voz alta. Ela aparece de forma silenciosa, embutida em reuniões de pauta, na escolha do destaque, no tempo dedicado à apuração ou na decisão de publicar uma fala sem checagem. Quando o jornalismo começa a responder primeiro ao algoritmo e só depois à realidade, algo essencial se perde.

Pesquisas acadêmicas já apontam esse deslocamento. Estudos sobre o impacto das métricas de audiência mostram que a priorização do engajamento influencia diretamente a seleção de pautas, o enquadramento das notícias e a autonomia editorial, enfraquecendo critérios clássicos de qualidade jornalística. O jornalismo passa a ser moldado não pelo que importa, mas pelo que circula melhor.

E há uma novidade ainda mais perigosa em vigor. O encontro entre a lógica dos algoritmos e uma das maiores pragas do jornalismo em todos os tempos: o jornalismo declaratório.

Quando a mediação vira reprodução

O jornalismo declaratório não é apenas uma escolha narrativa. Ele representa uma renúncia parcial da função mediadora do jornalismo. A notícia deixa de ser fruto de apuração, verificação e contextualização para se tornar, majoritariamente, a reprodução da fala de uma fonte — quase sempre poderosa, estratégica ou interessada.

Nesse modelo, o fato perde centralidade. O que importa é a declaração enquanto evento. Não se pergunta se ela é verdadeira, consistente ou relevante do ponto de vista do interesse público, mas se ela é publicável, compartilhável e rapidamente consumível.

Sozinho, isso já é um problema conhecido e amplamente debatido na literatura acadêmica. O jornalismo declaratóriotende a naturalizar versões, reduzir o contraditório e enfraquecer o papel crítico da imprensa. Mas o quadro se agrava quando ele passa a operar em simbiose com a lógica do engajamento.

A declaração vira atalho. É rápida, barata, emocional e rende cliques. Em um ecossistema orientado por métricas, ela se transforma na matéria-prima perfeita.

O engajamento como sistema de recompensa

As plataformas digitais introduziram um elemento novo na prática jornalística: a recompensa mensurável e imediata. Curtidas, compartilhamentos, comentários e alcance funcionam como um sistema contínuo de feedback. A cada publicação, um retorno. A cada retorno, um incentivo para repetir o formato.

Do ponto de vista científico, já se sabe que mecanismos de recompensa intermitente — exatamente como os das redes sociais — estimulam a liberação de dopamina e reforçam comportamentos repetitivos. Não é necessário falar em “dependência” formal para reconhecer padrões de busca constante por estímulo.

No jornalismo, isso se traduz em decisões guiadas menos por relevância social e mais pela expectativa de reação. A pergunta silenciosa passa a comandar a pauta: isso vai engajar?

Quando a resposta é “sim”, a publicação acontece — mesmo que falte contexto, checagem ou apuração adequada. É nesse ponto que o jornalismo declaratório deixa de ser apenas um problema editorial e se transforma em algo mais perigoso.

A droga perfeita do ecossistema digital

O jornalismo declaratório funciona como uma droga psicotrópica de ação rápida dentro da lógica do engajamento. Ele oferece estímulo imediato com baixo custo de produção. Declarações são fáceis de obter, rápidas de publicar e carregadas de conflito, emoção e indignação — exatamente os elementos que mais circulam nas plataformas.

Além disso, deslocam a responsabilidade. O veículo deixa de responder pelo conteúdo e passa a se proteger na fórmula: “quem disse foi a fonte”. O jornalismo se exime da mediação crítica e se apresenta como mero canal.

Quando esse modelo se consolida, cria-se um ciclo de reforço. Quanto mais engajamento, mais declarações. Quanto mais declarações, menos investigação. Quanto menos investigação, mais espaço para versões interessadas, distorções e desinformação. O jornalismo deixa de filtrar e passa a amplificar.

Nesse cenário, ele não informa — repercute.

Quando o modelo contamina o poder público

Essa lógica não se restringe às redações. Autoridades públicas aprenderam a operar no mesmo ecossistema. Policiais, políticos e agentes do Estado passam a performar para as redes, ajustando discursos à lógica do vídeo curto, da frase de efeito e da viralização.

Em áreas sensíveis — como investigações criminais, violência ou mortes envolvendo crianças — os riscos são graves. Declarações precipitadas, imprecisas ou falsas podem comprometer apurações, moldar a opinião pública de forma irreversível e produzir danos reais.

O caso do delegado Fábio Silva, na investigação inicial do homicídio do menino Manuel, ilustra esse desvio. Declarações públicas sobre a cena do crime circularam amplamente em vídeos nas redes, mas foram posteriormente corrigidas por laudos periciais que apontaram asfixia mecânica, e não facadas. Segundo o próprio delegado, o alto engajamento teria influenciado a exposição pública do caso.

Aqui, o engajamento deixa de ser efeito colateral e passa a ser motivação. E exatamente por isso a imprensa, por mais tentador que seja, não pode ceder a esse impulso.

O ruído como novo padrão de notícia

A consequência mais profunda dessa combinação não é apenas a má informação, mas a erosão do interesse público. Assuntos complexos, que exigem tempo, dados e paciência, perdem espaço para narrativas episódicas, declarações performáticas e fatos periféricos — desde que engajem.

O público não deixa apenas de ser informado. Ele passa a ser treinado a consumir ruído. A lógica da reação substitui a lógica da compreensão.

Esse processo também se reflete na cobertura política. Dados observáveis mostram que, em janelas recentes de 48 a 72 horas, a imprensa atualizou com maior frequência a caminhada liderada por Nikolas Ferreira do que temas mais sensíveis relacionados ao Banco Master e ao aparecimento de seu nome em investigações. A diferença de volume não é prova de intenção, mas revela prioridades editoriais moldadas por incentivos de circulação.

Quando a pergunta que organiza a pauta é isso vai engajar?, o risco não é errar uma manchete — é reorganizar o próprio sentido do jornalismo.

Engajamento não é dinheiro — e volume não é sustentabilidade

A crença de que mais engajamento significa mais faturamento é uma simplificação perigosa. E falsa! Curtidas e compartilhamentos não são necessariamente receita. São, no máximo, indicadores intermediários que só se convertem em dinheiro quando existe um modelo de negócio consistente.

Estudos sobre economia do jornalismo mostram que o crescimento de audiência não acompanha, de forma proporcional, o crescimento de receita publicitária. Plataformas digitais capturam a maior parte do valor, enquanto os veículos assumem o custo da produção. O resultado é conhecido: sites com milhões de visualizações operando no limite financeiro.

Ao mesmo tempo, pesquisas indicam que audiências menores, porém fiéis, tendem a sustentar melhor modelos baseados em assinatura, apoio direto ou financiamento recorrente. O que importa não é o volume bruto de engajamento, mas sua qualidade.

Confundir engajamento com valor econômico é correr numa esteira: muito movimento, pouco avanço. Importante lembrar que, a meu ver, o problema do financiamento do jornalismo é muito mais complexo e deveria ter outra saída, como já foi explicado aqui. Mas, em linhas gerais, a lógica explicada aqui é válida.

Quando tudo vira performance

A obsessão pelo engajamento transforma o jornalismo em performance e a notícia em estímulo. O declaratório vira atalho, o algoritmo vira editor e a investigação passa a ser vista como custo — lenta, cara e pouco “performática”.

A pergunta isso vai engajar? não é, em si, ilegítima. O problema é quando ela se torna a primeira — e às vezes a única — pergunta feita. Quando isso acontece, o jornalismo não morre de uma vez. Ele se esvazia aos poucos, até restar apenas a circulação de falas, ruídos e reações.

No fim, o risco não está em engajar pouco, mas em confundir atenção com relevância. Porque quando o jornalismo passa a competir apenas por cliques, ele deixa de cumprir sua função mais básica: ajudar a sociedade a entender a realidade — e não apenas reagir a ela.


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