Manaus, 23 de janeiro de 2026 – O mundo entrou em uma fase de falência hídrica sistêmica, na qual o consumo humano de água ultrapassou a capacidade de renovação dos recursos naturais. O alerta consta no relatório Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era. O estudo foi publicado pela Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) e aponta que a escassez atual não se trata de um evento passageiro, mas de um estado estrutural de insolvência. O cenário afeta diretamente cidades, governos e populações em todos os continentes.
O documento indica que 75% da população mundial vive hoje em países classificados como inseguros ou criticamente inseguros em relação à água. Além disso, cerca de 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano, comprometendo o abastecimento doméstico, a produção de alimentos e a saúde pública.
A falência também se expressa no acesso desigual aos serviços básicos. Aproximadamente 2,2 bilhões de pessoas ainda não possuem acesso à água potável gerida de forma segura, enquanto 3,5 bilhões vivem sem serviços adequados de saneamento. O relatório aponta que, mesmo em regiões onde os volumes brutos de água permanecem estáveis, a poluição e a degradação ambiental reduzem a parcela efetivamente utilizável do recurso.
Segundo a análise da UNU-INWEH, a diferença entre crise e falência é central para compreender a gravidade do cenário atual. Enquanto crises são temporárias e reversíveis, a falência hídrica envolve danos permanentes, como aquíferos compactados e geleiras derretidas, que não se regeneram em escalas de tempo humanas.

O “Dia Zero” como expressão urbana da falência hídrica
O relatório identifica o chamado “Dia Zero” como a face urbana mais visível da falência hídrica global. O termo descreve o momento em que os sistemas municipais deixam de fornecer água encanada à maior parte da população. Cidades como São Paulo, Cidade do Cabo, Chennai e Teerã aparecem como exemplos de centros urbanos que chegaram ao limite de seus sistemas de abastecimento.
De acordo com o estudo, esses episódios não ocorreram apenas por secas extremas, mas por anos de sobre-alocação dos recursos, crescimento acelerado da demanda e insuficiência de investimentos em fontes diversificadas de água. Em todos os casos analisados, o colapso foi precedido por alertas técnicos e períodos prolongados de estresse hídrico, sem mudanças estruturais na gestão.
A UNU-INWEH destaca que o “Dia Zero” não deve ser tratado como um desastre natural isolado, mas como um sintoma de que os sistemas urbanos operam além de sua capacidade de carga hidrológica. Mesmo quando medidas emergenciais evitam o fechamento total das redes, o abastecimento raramente retorna ao padrão anterior, consolidando um regime de racionamento e intermitência.
Esse novo normal urbano altera profundamente a relação das cidades com a água. A dependência de soluções emergenciais, como caminhões-pipa e poços improvisados, passa a integrar o cotidiano de milhões de pessoas. O relatório aponta que, nesses contextos, o abastecimento torna-se mais caro, instável e desigual.
Desigualdade social e limites da governança hídrica
A falência hídrica global afeta de forma desigual diferentes grupos sociais, funcionando como um acelerador da injustiça social. Segundo o relatório, populações de maior renda conseguem mitigar temporariamente a escassez por meio de infraestrutura privada, enquanto comunidades vulneráveis enfrentam acesso precário e custos elevados. Em muitos assentamentos informais, a ausência de água encanada configura um “Dia Zero” permanente.
Mulheres, jovens e crianças em comunidades marginalizadas estão entre os mais impactados pela degradação da qualidade da água e pela falta de saneamento. O relatório aponta que a insegurança hídrica amplia riscos sanitários e impõe cargas adicionais de trabalho e exposição a doenças. Pequenos agricultores também são afetados, tendo seus direitos de acesso frequentemente preteridos em favor de grandes usuários.

O estudo conclui que as instituições responsáveis pela gestão da água permanecem organizadas para um mundo de abundância que já não existe. A governança baseada em respostas emergenciais tem se mostrado insuficiente diante de um cenário de insolvência estrutural. A incapacidade de reconhecer esses limites compromete a segurança hídrica presente e futura.
Segundo a UNU-INWEH, as próximas Conferências da ONU sobre Água, previstas para 2026 e 2028, serão decisivas para redefinir a agenda global. O relatório indica que tratar a água como um recurso finito e sujeito a limites físicos será determinante para a sobrevivência dos sistemas urbanos e das sociedades modernas.
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