Humanidades

Violações no Grok não são erro, mas modelo de negócio, diz pesquisadora

Denúncias de imagens sexualizadas associadas ao Grok trouxeram à tona riscos da IA generativa e a resposta do Estado brasileiro ao caso. Pesquisadora alerta que essa estratégia é intencional e faz parte do modelo de negócios da rede adquirida pelo bilionário Elon Musk

Manaus, 15 de janeiro de 2026 – O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) solicitou ao governo brasileiro a suspensão do funcionamento do Grok, modelo de inteligência artificial da xAI, empresa do bilionário Elon Musk. O pedido acontece após denúncias de geração de imagens sexualizadas de mulheres e crianças ocorridas na plataforma X, atigo Twitter, nos últimos dias. O caso reacendeu o debate sobre os limites da autorregulação das plataformas digitais e a capacidade do Estado de responder a riscos associados à IA generativa.

Para a pesquisadora Andressa Michelotti, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o caso vai além de falhas técnicas pontuais e expõe escolhas estruturais do próprio modelo de negócio. Segundo a especialista em regulação de plataformas digitais, o funcionamento do Grok está alinhado a uma estratégia deliberada da empresa.

“No caso do Grok especificamente, o modelo da plataforma é desenvolvido para ser assim”, explicou. A pesquisadora destacou que, embora a inteligência artificial generativa apresente limitações inerentes à tecnologia, o diferencial do Grok está na intencionalidade. “Não se tratam de falhas pontuais, mas de algo intencional”, afirmou.

Andressa Miechelotti ressaltou que o modelo de negócio do X e do Grok busca deliberadamente se diferenciar de concorrentes por meio da disseminação de conteúdos controversos. “É um modelo de negócio interessado em disseminar esse tipo de conteúdo para angariar mais usuários, ganhar mercado e se diferenciar da concorrência”, comentou. De acordo com ela, essa postura reflete diretamente as decisões estratégicas de Elon Musk à frente da plataforma. “Esse é o produto que o Elon Musk desenvolveu e que ele quer que seja dessa forma”, disse.

Autorregulação e respostas a crises

A pesquisadora afirmou que a forma como plataformas digitais reagem a crises envolvendo violações de direitos varia conforme interesses econômicos, políticos e institucionais. “Cada plataforma responde às crises de maneira diferente, interpretando-a à sua forma”, explicou. Ela destacou que o tipo de direito violado, a jurisdição e a pressão pública influenciam diretamente as respostas adotadas.

No caso específico do X, Andressa Michelotti apontou um comportamento fora do padrão observado em outras Big Techs. “Depois que Musk assumiu o Twitter, transformando-o em X, houve essa diferenciação em relação ao comportamento das outras plataformas”, afirmou. Segundo ela, a empresa passou a ignorar solicitações judiciais e a minimizar demandas da imprensa. “Faziam pouco caso das demandas da imprensa, respondendo aos jornalistas com emojis”, relatou.

A pesquisadora ponderou que, embora outras plataformas também ajam conforme seus interesses, o caso do X é singular. “O Musk é um caso peculiar”, disse. Ainda assim, ela destacou que, em determinadas situações, empresas do setor atuam de forma coordenada. “Em alguns momentos alinham-se aos interesses da indústria como um todo, priorizando a sobrevivência setorial acima da plataforma individual”, explicou.

“Depois que Musk assumiu o Twitter, transformando-o em X, houve essa diferenciação em relação ao comportamento das outras plataformas”

Andressa Michelotti, pesquisadora da UFMG

Regulação da IA no Brasil

O episódio envolvendo o Grok ocorre em meio ao debate sobre a regulação da inteligência artificial e dos mercados digitais no Brasil. Para Andressa Michelotti, o desfecho ainda está em aberto. “O tema ainda está em debate”, afirmou. Segundo ela, há uma disputa entre modelos de governança voltados à proteção de direitos e propostas mais alinhadas aos interesses das plataformas.

A pesquisadora alertou para o peso do lobby das empresas de tecnologia durante a tramitação das propostas legislativas. “O lobby das plataformas vai pesar quando o encaminhamento não estiver de acordo ao interesse delas”, disse. De acordo com sua análise, as Big Techs tendem a se manter afastadas quando as regras favorecem seus negócios. “As plataformas não costumam intervir quando a regulação for favorável aos negócios delas”, afirmou.

Paralelamente, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) anunciou que convocará representantes do X para prestar esclarecimentos sobre mudanças nos termos de uso da plataforma. A preocupação está relacionada ao uso de dados e publicações dos usuários para treinar o Grok, o que pode representar riscos à privacidade e à proteção de dados, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A agência informou que investiga o cumprimento da legislação desde julho e que poderá adotar medidas adicionais caso identifique riscos significativos aos usuários.


Descubra mais sobre Vocativo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.