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Acordo UE–Mercosul avança e acende alerta para a Zona Franca de Manaus

A aprovação preliminar do acordo Mercosul–UE aumenta acesso europeu ao agronegócio brasileiro, mas cria desafios para a indústria e a Zona Franca de Manaus. Especialistas destacam necessidade de planejamento, políticas industriais, inovação e transição energética responsável

Manaus, 10 de janeiro de 2026 – A União Europeia (UE) deu, nesta sexta-feira (09/01/2026), sinal verde preliminar à assinatura do acordo comercial com o Mercosul, após mais de 25 anos de negociações. O movimento, que pode transformar a região na maior zona de livre comércio do mundo, também levanta preocupações quanto aos impactos industriais no Brasil, sobretudo na Zona Franca de Manaus (ZFM).

A decisão, tomada pela maioria dos 27 Estados-membros, abre caminho para a assinatura oficial do tratado na próxima segunda, 12, no Paraguai, mas ocorre apesar de forte resistência de países como França e Irlanda. “Em termos gerais, o acordo Mercosul–União Europeia não é automaticamente bom nem ruim. Ele amplia opções, mas também cria riscos”, comentou Daniel Conceição, professor de Economia no IPPUR/UFRJ e presidente do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD).

Segundo Conceição, os efeitos econômicos dependerão de outros fatores. “O resultado dependerá das escolhas internas estratégicas: política industrial, investimento público, financiamento, compras governamentais e proteção seletiva de setores‑chave”, explicou. Ele insistiu que, sem esse acompanhamento, a abertura pode apenas reforçar um padrão primário-exportador.

O professor também criticou concepções tradicionais sobre comércio internacional. “A ideia de que o Brasil — ou qualquer economia monetariamente soberana — precisa necessariamente de demanda externa para gerar emprego e renda é equivocada”, disse, ressaltando que a demanda pública pode substituir a demanda externa para sustentar emprego, renda e capacidade produtiva.

Especialista alerta para riscos e desigualdades

Gustavo Menon, especialista em Relações Internacionais e Direito Internacional e coordenador do mestrado em Estudos Jurídicos da American Global Tech University (AGTU), destacou que o acordo Mercosul–União Europeia não está isento de riscos para o Brasil e a América do Sul.

“É preciso reconhecer que a abertura comercial pode gerar distorções e aprofundar assimetrias em setores sensíveis de ambos os blocos”, afirmou. Segundo ele, a expansão das exportações europeias de produtos industrializados para a região pode pressionar setores estratégicos da indústria sul-americana, criando desafios de competitividade.

Menon chamou atenção para a resistência enfrentada pelo tratado na Europa, especialmente por produtores agrícolas franceses, que temem impactos sobre a produção doméstica e a renda rural. “As resistências enfrentadas ao longo do processo, especialmente por parte de produtores agrícolas europeus — com destaque para a França — evidenciam o receio de impactos sobre a produção doméstica e a renda rural”, explicou. Ele lembrou que a liberalização será gradual, com prazos que podem chegar a 15 anos, justamente para reduzir choques econômicos e permitir ajustes nos setores mais vulneráveis.

O especialista alertou ainda que os benefícios do acordo não serão automáticos e dependem da capacidade do Brasil e dos países do Mercosul de formular políticas públicas eficazes. “Se bem implementado, o acordo União Europeia–Mercosul pode se tornar um vetor importante de crescimento econômico, aumento da competitividade e integração do Brasil às cadeias globais de valor”, disse, mas enfatizou que o verdadeiro desafio é transformar a abertura comercial em desenvolvimento econômico equilibrado e sustentável, evitando que desigualdades e perdas setoriais se aprofundem.

Pressão sobre a indústria

Na análise de Daniel Conceição, o acordo favorece setores agroexportadores e cadeias ligadas a commodities, enquanto apresenta desafios significativos à indústria nacional. “Ele favorece sobretudo setores agroexportadores e cadeias ligadas a commodities, enquanto pressiona segmentos industriais voltados ao mercado interno e mais expostos à concorrência europeia”, afirmou, listando setores como bens de capital, eletroeletrônicos, autopeças, químicos e farmacêuticos.

Ele destacou que o impacto distributivo do acordo é mais relevante do que seu efeito sobre o PIB, que tende a crescer de forma modesta no longo prazo. “O principal risco social não é a queda do PIB, mas a substituição de empregos industriais mais qualificados por ocupações com menor densidade tecnológica e menor efeito multiplicador”, disse Conceição.

Riscos e oportunidades para a Zona Franca de Manaus

Sobre a Zona Franca de Manaus, o economista alertou que a abertura gradual à concorrência europeia pode reduzir a competitividade de setores industriais dependentes de incentivos fiscais e do mercado interno. “A indústria brasileira, especialmente a voltada ao mercado interno, pode sofrer forte pressão competitiva”, explicou, ressaltando a sensibilidade da ZFM em segmentos como eletroeletrônicos e duas rodas.

Conceição disse que, se as importações europeias se tornarem mais baratas, a competitividade relativa da Zona Franca pode cair, afetando empregos e a economia regional. “Se o acordo baratear importações europeias nesses segmentos, a competitividade relativa da ZFM pode cair, afetando empregos e a economia regional”, comentou.

O professor afirmou também que os efeitos finais dependerão de regras de origem, cronogramas de liberalização e das políticas industriais nacionais. O professor questionou a pertinência do acordo como um instrumento de desenvolvimento no contexto atual. “O acordo pode fazer sentido do ponto de vista diplomático e geopolítico, mas economicamente é fruto de uma lógica dos anos 1990”, afirmou.

Cassiano Trovão, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ressaltou que a sustentabilidade e descarbonização incorporadas ao acordo representam desafios e oportunidades para produção consciente. “O impacto para a indústria brasileira é o ponto mais sensível. O caso da Zona Franca de Manaus é emblemático, pois baseia-se em incentivos fiscais. Se as tarifas de importação caírem drasticamente, a vantagem competitiva da zona franca pode ser enfraquecida”, concluiu. “De todo modo, o que importa é como o país irá aproveitar as oportunidades e enfrentar os desafios dessa relação repaginada com a UE”, disse.

Impactos e alertas socioeconômicos

Trovão destacou que o agronegócio será um dos setores mais beneficiados pela eliminação ou redução de tarifas, abrangendo suco de laranja, soja, carne e açúcar. “Em um contexto em que a UE procura reduzir a dependência da China para minerais críticos, o Brasil pode ganhar um mercado com demanda em expansão para insumos da transição energética”, explicou.

O professor enfatizou, porém, que a forma de inserção do Brasil no comércio europeu determinará os efeitos reais. “O desafio será se exportará material bruto sem planejamento ou se planejará uma relação que privilegie o adensamento de cadeias de produção doméstica, agregando valor e gerando emprego e renda internamente”, disse Trovão.

Ele também apontou riscos para a Indústria de Transformação, que poderá enfrentar concorrência direta de empresas europeias em setores como automotivo, químicos e máquinas. “Isso pode baratear produtos importados, beneficiando consumidores, mas prejudicar trabalhadores locais e a balança comercial, pressionando o câmbio”, alertou. Segundo Trovão, as regiões do Centro-Oeste e Matopiba podem ver aumento de renda e emprego, enquanto Sul e Sudeste enfrentam risco de fechamento de postos de trabalho, demandando políticas de inovação e qualificação profissional.

Sobre o acordo

O acordo Mercosul–União Europeia teve suas negociações iniciadas em 1999, mas só em 2019 foi anunciado um texto final, após mais de 25 anos de idas e vindas entre os blocos. Ele representa um dos maiores tratados comerciais da história moderna, envolvendo cerca de 780 milhões de pessoas e trilhões de dólares em PIB, e busca integrar mercados, reduzir tarifas e criar regras mais previsíveis para comércio e investimentos.

Na prática, trata-se de uma parceria comercial e estratégica entre os quatro países do Mercosul e os 27 da UE. Ele reduz ou elimina tarifas de importação em diversos produtos, facilitando o comércio bilateral. Isso significa que produtos brasileiros, como carne e soja, terão mais acesso ao mercado europeu, enquanto produtos europeus, como automóveis, eletroeletrônicos e vinhos, podem entrar mais facilmente no Mercosul.


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