Manaus, 8 de janeiro de 2026 – O orçamento destinado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA) do Amazonas registra uma queda acumulada de quase 31% em dois anos, o equivalente a R$ 9,4 milhões. É o que aponta levantamento do Vocativo, com base em dados oficiais da execução orçamentária de 2024, da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025 e do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026.
A título de comparação, no PLOA 2026, o orçamento total destinado à SEMA é de R$ 83,142 milhões, enquanto as despesas previstas com Comunicação Social somam R$ 176,405 milhões, valor mais que duas vezes superior. Em termos percentuais, isso significa que a gestão Wilson Lima gastará, em seu último ano de mandato, um valor cerca de 112% maior com ações de comunicação do que todo o orçamento voltado para o Meio Ambiente.
A redução ocorre no âmbito do Poder Executivo estadual e está prevista para vigorar ao longo do exercício financeiro de 2026. A título de comparação, em 2024, a execução orçamentária da SEMA alcançou R$ 29,9 milhões. No ano seguinte, o valor aprovado na LOA 2025 foi reduzido para R$ 25,6 milhões. Já no PLOA 2026, o montante previsto para a pasta cai para R$ 20,5 milhões, consolidando uma retração progressiva dos recursos destinados à política ambiental do Estado.
Os números constam nos demonstrativos oficiais do orçamento estadual e refletem a alocação de recursos para ações vinculadas à gestão ambiental, incluindo programas classificados sob a função orçamentária específica do setor. A redução ocorre de forma contínua ao longo dos três exercícios financeiros analisados.
Cortes acontecem enquanto Amazonas enfrenta crise climática
A queda no orçamento estadual ocorre em um momento considerado crítico do ponto de vista climático. Estudos publicados na revista científica Scientific Reports indicam que o Amazonas enfrentou, em 2023, uma seca histórica, associada a anomalias hidrológicas e térmicas sem precedentes no período instrumental.
Durante esse episódio extremo, os níveis do Rio Negro, em Manaus, caíram para 12,70 metros em outubro de 2023 — a menor marca desde 1902, superando os mínimos observados em secas anteriores. O déficit de precipitação, combinado com temperaturas mais elevadas, resultou em uma das secas mais severas já registradas na região central do bioma amazônico.
Análises hidrológicas baseadas em dados dos satélites GRACE/GFO e das missões Swarm indicam que a seca extrema iniciada em 2023 persistiu ao longo de 2024, com volumes de chuva e níveis de água drasticamente abaixo da média histórica. Os impactos se estenderam às bacias dos principais rios amazônicos, como Solimões, Negro e Madeira, com registros de solo mais seco, menor escoamento hídrico e redução da água armazenada em toda a bacia, ampliando a pressão sobre ecossistemas e áreas habitadas.
Relatórios de organizações ambientais independentes apontam ainda que a seca de 2023 provocou uma redução expressiva da superfície de água e um declínio acentuado nos níveis dos rios em grande parte da Amazônia brasileira, com efeitos socioambientais que incluíram dificuldades de acesso à água potável, restrições ao transporte fluvial e prejuízos à produção de alimentos em comunidades ribeirinhas.
Indícios de mudança para um clima “hipertropical” na Amazônia
As projeções científicas indicam que o cenário pode se agravar nos próximos anos. Um estudo intitulado Hot droughts in the Amazon provide a window to a future hypertropical climate, publicado na revista Nature, identificou que a Amazônia apresenta sinais de transição para um regime climático mais quente, seco e volátil, descrito pelos autores como um “clima hipertropical”, inexistente na Terra há milhões de anos.
Segundo a pesquisa, episódios de “seca quente” — períodos de estiagem intensa combinados com calor extremo — vêm aumentando em frequência e intensidade. Sob cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, esses eventos podem alcançar até 150 dias por ano até 2100, inclusive em meses tradicionalmente associados à estação chuvosa, como março, abril e maio.
Esse novo padrão climático combina temperaturas excepcionalmente elevadas com forte redução da umidade do solo, criando condições que extrapolam os limites históricos dos climas tropicais e que, de acordo com os autores, podem elevar a mortalidade de árvores e alterar de forma profunda a dinâmica da floresta amazônica.
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